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quinta-feira, 1 de novembro de 2018

O CAOS VOLTOU

O CAOS VOLTOU
A ordem é um retrato batido; um quadro exibido nas ruas, nos peitos, nas mentes, pelas bocas dos filhos do verbo. O modelo é uma ordem ordenada pelos que passaram na estrada da diferença. Toda diferença vira a mesma coisa pela força do que não existe – o tempo; ou pela coação da espada, ou do hábito, ou do sorriso.
Disseram-me que existiam dois irmãos, o primeiro era bonzinho e o segundo, vil, tão vil como a morte. O que é bom não é tão bom quando as coisas apertam no meio do nada numa estrada com a testa suada e falta d’água, e falta de sorte.
Calo-me diante da sabedoria do modelo e a astucia da diferença – toda diferença é ousada, é como uma mulher honrada vestida de meretriz. E, às vezes, fico sem assunto, e invejo o irmão sapo que muito pouco entende o porquê de pular muito.
Dizem que as cópias enchem a terra, dizem que a tua cabeça é tão pesada quanto o mundo, pois cá dentro, o tirocínio é um tirano sem imaginação. Todo sonho vira ilusão e, agora, toda criança cresce adulto sem brincar de pega-ladrão - Isso não é mais igual a aquilo, não é mais a mesma coisa, contudo, tem as marcas na pele como as de um rosto cicatrizado depois de muito ferido. Então, surge do Nada, o velho nada que fala muito, e diz ainda mais: “Todo retrato tem seus cantos, seus ângulos, seus valores, e suas diagonais”. E o nada, mais uma vez, declama o poema da utopia, ou, também, da agonia, da despedida sem dizer nenhuma adeus ou escutar alguma melodia.
O nada, o caos, a ordem é tudo a mesma coisa é só mudar a perspectiva. É uma questão de percepção. Disseram-me, recentemente, que somente existem duas forças. São duas manifestações da mesma coisa em lugares e estados diferentes, todavia forças completares.
Disseram-me que o perceber é uma questão de lente, de opinião, pois cada cabeça é uma caixa cheia de meninos e meninas correndo sem medo ou assustadas com a velha feia que acaba o sonho.
Disseram – me; eu pouco ouvi, pois, quando acordei cedo de manhã na terra só haviam ruínas e escombros, e os homens começando tudo de novo...

sexta-feira, 4 de maio de 2018

LUZ

LUZ
Entre eu e a escola onde trabalho existe uma estrada de barro e cascalho. No inverno, ela é lama café com leite, e no verão, pedra quente, coisa nervosa; coisa, por vezes, trevosa.
Longos anos no sertão, lugar de barro, lugar de pedra sedimentar, ou de rocha metamórfica. Lugar de estradas desertas, lugar sem lugar algum; só um campo, ali, onde os homens disputam o chão. Para quem chega, lugar de novidade, para quem já estar, lugar, mais uma vez, sem lugar algum.
Dizem que o sertão tem muito terreno, tem lugar para todo mundo. Dizem ser o sertão um lugar como o coração de mãe. Mas, as estradas do sertão não te levam muito longe mesmo que a tua viagem seja muito comprida. Pois, aqui, tem lama, tem o velho cascalho ou um jogo de baralho no bar de Zé Ramos por não ter o que fazer.
O sertão morre no verão e renasce no inverno e nos entrementes lutam as mentes pelo idoso e novo pão. Sim, isto faz todo sentido! É luz que brilha como a lua numa bela e barulhenta quadrilha de São João.
Mas, a escola, a criançada como carne assada ao sol no quintal de seu Domingos espera a condução que nunca chega, nunca atravessa o sertão. O cascalho, a lama velha, a mulher caduca que ao mastigar os próprios dentes insiste como uma demente em contar a mesma história de boi, e de cavaleiro, e de coronéis e de velhos parceiros.
A escola está lá e eu aqui. O sertão de Sergipe é terra de gado, é terra boa, e de gente boa, contudo, falta quase tudo. O gado, a gente, o esterco e o cascalho todo mundo tira pose para retrato de turista. Quem sabe sobre algum retalho de pano limpo para limpar o suor de teu rosto. Quem sabe quem passa diga diferente, ou que aqui, realmente, tem gente. Quem sabe se aparte o gado das pessoas e se retire o arame farpado que segura a consciência antiga sempre dentro do mesmo pasto. O quem sabe não é luz; é quimera bandida, é mulher perversa, é uma criança traquina. O quem sabe é um esquina escura onde tua mão nada segura, exceto, um pedaço de papel.
Luz! O sertão precisa de luz! A escola está bem ali; é só a condução chegar lá; é só o livro chegar, e com ele um bom pedaço de pão francês. Mas, o barro pisado, a lama amolecida, as rodas atoladas, as molas desgastadas, e os homens cansados de esperar nunca alcançam o que seus olhos não conseguem enxergar.
Eis que uma cobra rasgou o massapê até o outro pasto!





sexta-feira, 30 de março de 2018

O DESABAFO DO POETA NORDESTINO

DESABAFO do poeta nordestino

Meus irmãos estão nas ruas. Soldados armados defendem a propriedade privada. A coisa pública está quebrada; parece que rasgaram dos corações a esperança do direito do povo – um dever de Estado, a obrigação da União, a condição única de democracia.
Meus irmãos falam a minha língua, mas, ninguém se entende, embora, vivamos na mesma freguesia. Eles nasceram nos latifúndios dos canaviais, ou nos cafezais, ou nos milharais, ou no calor do fogo do tacho dos engenhos engenhosos dos coronéis, ou de seus filhos e filhas.
O que é mais certo, aqui, é tua herança nobre, a cor de tua pele, ou o teu sobrenome. Esta é uma terra feita de terra, mas, que come o papel como uma traça gorda. O papel da certidão, ou da identidade, ou o papel que é só um papel, ou um jeito, ou um trejeito brasileiro – aquele papel que pega fogo nas licitações públicas inspiradas nas coisas privadas – um título sem nome.
O povo está em casa. O povo não sabe o sentido povo. Ele é uma coletividade individualista. O povo nasceu na mente do singular, do individual, do egoísmo plasmado nas políticas públicas que se transformam em merda escorrida nas vias congestionadas de eleitores. O povo em casa é cavalo piado, é vaca gorda, um touro que é carne de abate.
O povo não está nas ruas, nem as ruas conhecem o povo. O povo, na verdade, existe aqui e ali, principalmente, quando se derrama verbas em malas pretas. O povo é um discurso antigo, um pretexto eleitoral. Um ser enigmático sem existência real até que acorde.
Nossa terra é oca vazia. Ela é como a barriga de milhares de cidadãos. E nossa nação é uma invenção que garante o lucro do latifúndio intocável – o verdadeiro dogma de nossa religião nacional. Então, este país bem convertido caminha rumo ao seu destino – servir de mata de pau-brasil, ou tornar-se em um grande clube de futebol.
Meus irmãos estão nas ruas. Suas armas bem limpas prometem a segurança que nunca veio, pois, em terra de fome, em terra de gente gemendo não tem remendo que dure. A desgraça é uma situação federal. Na verdade, a mãe desgraça que te pariu federalizou a sina de todos – o engano chamado Brasil.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

A CALÇADA DE PEDAÇOS DE OUTRAS CALÇADAS

A CALÇADA DE PEDAÇOS DE OUTRAS CALÇADAS


Ele acreditava em seu mundo; seu mundo, também esperava por ele.
Ele sempre creu que as coisas funcionam;
“Elas são como são”; mas, seus sonhos diziam outra coisa.
Ele andava acordado em seu mundo durante o dia.
À noite, uma surpresa esperada: “As pessoas são assim”.
Os homens tiram suas máscaras no escuro, pois a verdade não tem seguro.
Uma chaminé que alivia o incêndio de dentro.
Uma caverna que acorrenta crianças e dragões.
Um pedra quente de noite, e fria de dia.
Em teu seio se forma a próxima geração.
Em teu sonho os outros terão os seus.
São signos e sentidos do lado de fora.
Mas, cá dentro alguém mora?
Esta é uma eterna questão.

O logos não merece nenhum respeito.
Ele sempre disse errado do torto sem jeito.
O mundo é modelo, matéria e repetição.
Mas, minha dentadura velha, também diz: “O novo já foi velho, e o velho pode tornar-se novo novamente”. Pois, o movimento é permanente enquanto durem os sonhos. Enquanto isso, nas rachaduras destas estruturas vemos as mãos de gente; sim, a verdade é diferente; a diferença desmente esta crença de Zeus; e os homens se tornam sapos, ou ebós arriados na encruzilhada.

O homem foi criança. O sonho está com ele sem canseira desde a pisada primeira, até o por do sol, na pisada derradeira: Sonhar é criar mundos, é encher o céu de estrelas. E o velho inquilino da casa solitária resmunga sem cessar. Ele é o soldado, à porta, que segura o fuzil sem os olhos piscar. Ele está no espaço como madeira, carne, plástico, e aço. Este espaço é revelação, e o tempo, ah, tempo, uma velha caduca falando sozinha. O tempo não é dono de nada, é apenas uma piada dos padres depois da missa.

Tu murcharás como as flores do campo!
Tu passarás como os dias passam!
E os nossos sonhos cessarão no óbito até que tu aprendas a contar os teus ossos!

Os homens renascem a cada dia nas calçadas de seus vizinhos.
Seus caminhos, seus trilhos se misturam a uma fala incessante em torno da terra!
Eu e você somos a calçada de pedaços de outras calçadas. E não reclame quando passarem por cima de ti; é assim que caminha cada mundo feito pelos filhos da savana. Este é o maldito e amado outro.
Odeio-te de dia, entretanto, de noite, sem espanto estamos em núpcias.
Somos dependentes declarados; inimigos amaldiçoados, e amantes apaixonados.
Somos escravos sem correntes de ferro ou bolas de aço.
Teu olhar me redime ou me condena.
Tua sentença me é dada durante a madrugada.
Eles andaram juntos e se misturaram a multidão...

sábado, 23 de dezembro de 2017

SEPARAÇÃO

SEPARAÇÃO

Ela não lhe dava mais beijos ao amanhecer.
Ele estava assustado.
Será que não estou mais em seus sonhos?
Seu coração apressado corria sem direção.

O homem se rende quando a dor é no peito.
Todo homem busca a paz, sejamos inteligentes!
Os descontentes estão na fila da exceção.
Via de regra, o homem é um pássaro sempre em busca do ninho.
Ele é bicho; ele é gente, e gente tem coração.

Ela não o elogiava mais; de sua boca uma porção peçonhenta em três turnos emanava.
O vapor de enxofre lhe ardia o nariz;
Seus olhos não mais se encontravam.
Era uma sala vazia cheia de personagens congelados.
Mais um homem amaldiçoado!
Mais uma mulher só na estrada.

Ela não mais reclamava a data do aniversário;
Nem lhe exigia a mão;
Nem caminhava com ele na mesma trilha: “Nossas vidas estão distantes”.
Essa era a lógica, o dito, a teoria consagrada.

O homem vestiu preto até o próximo janeiro.
A moça cheirou o lenço de um homem viajante.
Ele chorou lágrimas tantas que o mar se agitou.
Ele e ela permaneceram em terra estéreo até ouvirem um canto de sabiá em algum lugar...





A DIFERENÇA


Vou jogar tudo pro alto e fazer da vida uma viagem de férias. Vou cair no asfalto; vou dirigir até o fim do combustível; vou evitar as coisas sérias; vou fazer de meu dia uma alegria possível. Conjugarei meu verbo com minhas próprias desinências; serei um soldado que não dá continências; serei um homem livre; a regra, agora, não importa, pois, fiz a escolha certa; sou eu quem abre e fecha a minha porta.
Mas, ensinaram-me a ser como os demais. Que a igualdade faz a crença, e que ela é o laço apertado, o segredo do cadeado; a confissão na igreja da matriz; ela é uma antiga feiticeira e uma velha meretriz.
Fechei os olhos para o outro; sim, esse outro que não se cansa nem se quebranta; o outro que é tu e eu, pois, dizem que as aves de rapina não se fadigam na campina. Tua carniça é degustada todas vezes que corres solto. Tua moral, teu bem e teu mal são a cobiça de minhas retinas.
Ah, amiga diferença! ah, amiga estranha! A repudiaram na primeira quadra antes da menina dobrar a esquina.
Mas, tu te dizes livre! Mas tua liberdade ninguém tira, mas tua paciência não tem fim, mas tua agonia é mentira. Mas como tu te enganas, ó, homem de dores! Tu iludes a ti e a mim! Quem sabe encontres um nova cidade. Quem sabe acordes do sonho. Quem sabe alguém nos diga alguma verdade. A afirmação do luto me torna menos bruto, isso é um fato, contudo, nada disso altera o cardápio, todos os dias temos o mesmo prato, nada esquisito, nada estranho. É tudo a mesma coisa! Mas, no entanto, sou mil abelhas e uma colmeia.
E se eu desse certo? E seu eu fosse eterno? Toda eternidade será castigada no primeiro segundo! E se eu pudesse pesar o mundo, e se eu pudesse dizer tudo diferente, tratar você como meu parente com certeza tudo seria melhor!
Mas, repito vou jogar tudo para o alto e fazer da vida uma viagem de férias...




EU QUERO SER FELIZ


Hoje, vou deixar o ontem para trás. Vou fazer tudo diferente; vou encantar quem passa e vou dizer para mim mesmo que sou mais um igual a todas as pessoas contentes.
Hoje, vou ser feliz, não vou mais quebrar o nariz com brigas e porfias que nada me acrescentam. Quero ter um dia de sonho e uma encantada manhã ensolarada cheia melodias de aves silvestres.
Hoje, eu sei o que ontem não sabia, sinto o que não sentia, e que meu rosto enrugou-se no inverno escuro do ano passado.
Hoje, meu coração não salta mais quando me deito na cama; estou definitivamente equilibrado como os dois pratos de uma balança a sustentar o mesmo quilo.
Hoje, entendo que minhas escolhas foram coalhas que nem a gata que crio. Sou, sei eu, um fardo no mundo a queimar gasolina nas estradas deste sertão.
Mesmo assim, insisto em ser feliz; em ir tirar água no chafariz da cancela com a moça bela que a serra me deu. Ou em acreditar que posso ser melhor apesar do ontem que me pesa como um saco de cimento nas costas.
Oh, consciência por que me acusas?
Eu sou um homem que só quer viver!
Sou um peregrino que deseja um rumo que tenha um destino, um lugar para ficar.
Hoje, eu espero o que anelo de chinelos na mão abraçado com meu irmão que não via há séculos.
Hoje, descalço passeio no asfalto quente das ruas e avenidas. Cobiço toda moça dengosa e destilo minha prosa como bebida rara.
Hoje, eu trago a mim mesmo para cá. Faço de mim um novo cara; uma nova face a sonhar cheia de emoção, contudo, o ar rarefeito, a luz solar, e o calor do dia me dizem do tempo em que eu sofria, o tempo de meus defeitos, os dias que nunca passam, uma estrada num precipício sem proteção.
Hoje, eu digo hoje. No entanto, o ontem me ensinou a dizê-lo, o ontem me deu o fazê-lo, o ontem também é coisa de hoje; é momento que não passa, é história que se conta, é piada com ou sem graça, mas, ele nunca disfarça como o hoje. O hoje é sempre mentiroso, muito mais que o ontem.
Hoje, eu minto descaradamente para meu vizinho quando digo “bom dia”. Hoje eu estou preparado para o amanhã.
Sim, talvez a morte seja mais sincera do que o ontem e o hoje. Talvez a morte seja mais verdadeira de que minha franqueza.
Ai, deste homem tão medíocre que sou, tão confuso e perdido entre faces que se diluem nas multidões!
Ai, de mim que não sei quando sou, nem o que sou, ou quando serei.
Mas, mais uma vez insisto: Eu quero ser feliz!



domingo, 17 de setembro de 2017

HOMOFOBIA

Capim seco e molhado.
Palha espalhada na mata sinistra.
Ermo maldito, cenário de bandidos.
Mato pisado por homens; Entes sem mentes, sem Deus.
Fios de cabelos em um lenço cor de rosa.
Um corpo trêmulo diz sua última prosa .
– Ele era tão bom. Pena que era gay!


Uma ponta de cigarro fumada com mão trêmula.
Último segundo de uma vida inteira.
Uma tragada derradeira de misericórdia.
Final de um mal, um mal aceitável.
– Era só um cigarro!


– Ele nada fazia contra ninguém!
– Ele vivia a vida a seu modo!
Um estalo acorda as corujas.
Risadas de vingança e ignorância escandalizam os morcegos.
– Menos um no mundo! Tudo vai melhorar!
Um carro sai na escuridão iluminada por lanternas elétricas.
Alguém ficou lá.
– Onde?
– Lá!
Aquele lugar de loucura e falta de paz.
De cegueira e preconceitos.
De gente caolha, sem orelhas, sem espelhos em casa.
Aquele lugar que muitos passam e ficam.
De algum modo ficam.
Esquecidos num passado recente.
Adormecidos por compulsão.
Pela força de uma explosão de pólvora.
Ou pelo frio metal afiado, ou um caco de vidro quebrado.
Um jeito fácil de ser racional; pensam alguns.
Uma peça de necrotério.
Um fantasma ambulante.
Um retrato do mundo.
Mais um assassinato.
Menos um irmão diferente.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

AS HORAS PASSAM

As horas passam…
Ela era um sonho repetido nas noites e dias de minha mocidade.
Uma transgressão velada até da alma que insistia em dormir.
Uma partida na primeira hora, na aurora, e no entardecer.
Uma boca beijada; gotas de orvalho após um dia quente num verão que se estende.
O amante é cego; é um bruxo que trabalha contra si.
A paixão é feitiço; é fogo que derrete o ferro e o aço.
É vinho que embriaga a razão e entorpece o juízo.
É uma mulher egoísta a andar sozinha na praça.
É um vendedor de fantasias e prejuízos.
Contadora de histórias, e de desgraças.
Ela era um alento; tirava-me do espírito tormentos.
Mesmo por um momento; curto minuto numa eterna sede insaciável.
Um copo de água com lágrimas e sofrimentos.
No chão, vidros quebrados; cacos cortantes, na calçada, espalhados.
Quem passará?
Foi uma despedida?
Será que amanhã não terei você?
Há pessoas que nascem para amar; e outras que vieram beber do cálice da ventura.
Triste foi o dia do teu nascimento! O teu prazer será só por um sopro!
Será uma carteira roubada de um bolso desatento na feira.
Isso foi o seu encontro com sua parceira.
Uma nuvem escura diz da chuva que virá.
A água que corre levará as lembranças de ontem.
A água que nunca volta; a correnteza que some nos bueiros escuros da solidão.
Foi um caso. Só um caso.
Mais um, entre milhões.
Será?
Uma lágrima caiu de seu olho;
Uma gota de água e sal escorreu pela face triste.
O seu peito esquerdo encolheu e a moça se foi…

sexta-feira, 28 de abril de 2017

INSONIA

Se eu pudesse me deitaria e dormiria sossegado a noite toda; se eu pudesse poria minha alma em meu leito nas horas noturnas e faria de mim uma ilha cercada de lençóis e travesseiros macios.
Mas, não posso; isso é fato. E se é momentâneo não o sei.
Não posso dormir, embora, pesem os olhos a fadiga do longo dia de lutas e cânticos de esperança.
Lamento dizer, mas, parece que dormir é um direito que não tenho, não sei se estou certo; não tenho certezas; se sei, perdi a razão das coisas.

Se eu pudesse faria de mim mesmo o sono com ou sem roncos; o outro, no momento, não é meu foco. Se eu pudesse me esbaldaria de tanto descansar enquanto o mundo agitado maquina mais um dia sobre as incertezas de todos os viventes racionais.

Eu vi, dias atrás, que nem tudo é o que parece ser. A semelhança das coisas são apenas coisas que percebemos, o mundo é uma metáfora de ideias voláteis. Enfim, criamos tudo menos essa esfera perdida no meio do nada.

– Ah, se eu pudesse sentir a tranquilidade das horas quietas!
– Ah, se eu dormisse uma noite completa das seis às seis!
– Ah, se eu, decididamente, acordasse e visse outro mundo que minha mão não ajudou a criar!
Insisto em dizer: “Essa insônia não é só minha!”

Isso é coisa malvada de todos os olhos; Isso é mais que um isso; é o tormento dos homens que se abandonaram em ser; são homens reféns das ilusões alheias.

Ser! Eis a falta de razão! O ser é coisa que fere os olhos; ele cega-nos de dia para que à noite o não-ser que se esconde entre vísceras e pano, ou máscaras e fantasias diga de si no solitário vácuo do sono.

Ser insônia é algo, extremamente, racional; é a depurada lógica dos que fizeram o isso-mundo, ou o tudo isso; um isso que reclama por aquilo; ser aquilo é ser diluído pelo solvente de uma civilização angustiada. Na terra, os homens se ferem no tempo e no espaço, e segundos depois se abraçam, se irmanam, fazem proezas do bem ainda com o sangue do outro na mão esquerda. Isso é uma festa; uma ironia das coisas que pensam pensar em alguma outra coisa.

Insônia! Essa é a condição do ser no mundo. Pois, os que dormem nada sentem; nada veem, nada fazem, excerto, sonharem com seus fantasmas, e estes são almas sem corpos, ou corpos sem almas; são criaturas desalmadas que perambulam por aqui e ali em busca de algum sentido novo.



Se eu pudesse, eu dormiria! Se eu pudesse eu seria esse paradoxo incompreensível de querer ser mais alguma coisa além de mim mesmo. Que pena tenho eu dessa criatura que sou! Sou a vítima de minhas escolhas, ou o herói de um filme holliwoodiano.

Minha cama é maior que minhas medidas.
Oh, que gozo inefável de ser nesse retângulo de tecido mole!
Oh, que prazer de deitar-me cedo e apagar as luzes!
Oh, Que coisa boa é dormir

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

A MOÇA DA CALÇADA - O POEMA

Na calçada de meu prédio sentava uma moça às sete.
Fiel era menina ao relógio implacável.
A pobre criatura não percebia que os minutos, os segundos e até as horas rasgavam sua face com sucos na derme.
A terra debaixo de seus pés silenciosa lhe preparava uma cova.
Seu rosto, dia triste, dia alegre esperava o carro de seus sonhos e pesadelos.
Por vezes, o sorriso lhe curou as rugas.
Outro dia, seu queixo feria o chão;
O chão onde todos pisam e se cansam.
A moça sonhava proibida.
A desgraça estava na praça.
Na praça da frente, perto do posto, distante da gente.
Eu a amava no silêncio.
Suas lágrimas; sorvi contente.
Não lhe era parente.
Morávamos no mesmo prédio.
Andávamos na mesma rua.
Vivíamos o mesmo tédio.
Pois, ela não me via.
A pobre menina bonita que me enchia os olhos e acelerava o peito se foi.
O carro a levou; seu motorista vestido de terno bege era o foco do seu olhar.
No canto, a dez metros de lá, do seu costumeiro lugar de sentar, chorei sua partida.
O coração não escolhe a quem amar.
Enganoso e estranho órgão que pulsa sangue sem parar.
Em diástole e sístole ele te leva a lugares que não podes.
Crueldade da natureza!
Malvadeza!
Amar sem ser amado; uma tortura sem cura!


Nunca mais a vi.
Dizem que foi para São Paulo.
Pensei que a moça era carioca.
Beijei o lugar onde ela sentava todas as noites às sete.
Destruíram a calçada;
Construíram um Shopping.
Nada restou no chão de concreto.
– Psiu!
– Silêncio!
Vejo uma morena sentada na mesma calçada!
Vejo um amor não consumado.
Vejo um coração, agora, confortado.
A vejo na lembrança que ainda arde nos olhos do peito:
– Ela não tem defeito!
A culpa é da calçada…

PASSEIO

Aquele lugar era um quadrilátero.
O meu andar era trôpego como de um etílico descendo um beco escuro.
As pessoas sonham com o bem.
Contudo, estão presas em cantos de cimento de concreto e pedra.

Meus pés calçados de nudez e carne trêmula,
Não se cansam de caminhar na mesma longitude e latitude.
Desgastam-se sem consolo pela força de suas licitudes.
As solas de meus sapatos se desgrudam do mesmo como a manteiga derretida pelo sol.
Preciso de ti; não sei quem és; a espera, o silêncio, o desconfiar é minha atitude.
Ou quem sabe, preciso eu de uma mula que me suporte o peso da solidão.

Os homens buscam companhia.
Uma voz que lhes quebre o silêncio da impessoalidade urbana.
O passeio na braça à tarde é rotina;
O que esta em meu estômago é suco gástrico e azia.

As cidades têm suas praças.
Seus homens; seus passos.
Eu mesmo não disfarço.
Grito sobre seus bancos minhas desgraças:
“Essa é a sorte dos filhos de adão!”


Meu amigo onde está tua mão?

O mundo tem mais pessoas e menos gente.
Tem mais passeios que corações contentes.
Suas faces se escondem em máscaras;
Máscaras que caminham até o poente.
No fim do dia, o passeio acaba…

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

LEMBRANÇAS

A janela de seu quarto era uma moldura.
Moldura de beleza estranha.
Beleza da estranha.
Aquela que se tornou tão íntima que quando me mudei de prédio senti muitas saudades.
Às vezes parecia uma rosa.
Uma cheirosa rosa de todas as manhãs.
Às vezes era um rosto que me suscitava recordações.
Lembranças de alguém.
Além.
Ali.
Ou quem sabe, cá no peito, aqui.
Um dia a janela foi fechada por dentro.
Em vez da moça,
Uma vidraça fria.
Ou quente no meio do dia.
Sol de saudades.
Saudades da moça.
Da janela moldura.
Das lembranças despertadas.
Depois me mudei também.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

PONTO FINAL

A natureza acordou no silêncio do caos.
De súbito, uma sinfonia alcançou os termos do universo.
O criador, ou o logos fez todas as coisas como o poeta constrói seus versos.
Uma a uma foram amarradas as esferas por rimas perfeitas.
Contudo, no olhar pequeno, do grão de areia que pela terra esperanças semeia.
Tudo parece confuso, um caos persistente!

O silêncio do imenso espaço causa uma estranha e perturbadora inquietação.
Na terra, o lar dos homens, a visão do cosmos, é tão pequena quanto as órbitas de seus olhos.
Seja aqui, ou entre as estrelas, a falta de palavras despe tudo de sentidos.
A natureza se torna nada e o nada mais um nada – é a física do silêncio.

Assim, dizem os homens que dizer é preciso.
Pois, os filhos dos anjos consomem palavras.
E nas palavras estão seus sonhos.
E neles seus caminhos.

O silêncio rouba as almas das almas.
E quando este se instala entre queridos.
É sinal que o mal avassala.
É maré destruidora que aniquila tudo à beira da praia.
Que faz do olhar brilhante um vidro fosco.
Que torna os amantes pares distantes.
Apenas viajantes que esperam o transporte na mesma sala.

Dizem que o silêncio tem seu momento.
Sobre isso, agora, não comento.
Uma vez que dizer é preciso.
A palavra certa é faca afiada.
Uma incisão perfeita onde há suspeitas.
Faz a alma sair do tormento.
Faz a dúvida partir do peito.
Une os casais, os devolve ao bendito leito.

– Ah, se tu dissesses só uma palavra!
– Ah, se tu abrisses os lábios e rasgasses as vestes!
– Ah, se teu amor me coubesse!



Dos astros ouviria essa criatura a mais suave melodia.
Com isso não mais suplicaria a luz do sol;
Nem desejaria a claridade da lua;
Nem das trevas teria medo.
Seria eu como no início de tudo.
– Éramos conversa de amigos!
– Éramos um diálogo garrido!

Mais uma vez a natureza acordou no silêncio do caos.
Viu que não havia poesia e se calou por um instante…

É bom? Então, compartilhe com seus amigos.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

FENDA

FENDAS
Por Roosevelt Vieira Leite

A ferida antiga foi aberta; dela saíram cartas e telefonemas que me fizeram pensar que o sol se perdeu em algum lugar que eu não sei.
A noite com suas lembranças dilaceraram o tecido cardíaco que apesar de tudo insistia em continuar.
- Mas, andar para onde se tua cama ficou atrás?
- Mas, pensar no que está na frente não faz sentido se tua água ficou na estrada.
Os homens são pequeninos quando falamos de sentimento.
Os homens são meninos que nada podem quando na alma lhes pesa a mão da moça.
Não acredito que tu me ouças, pois, só sabe disso quem viveu na avenida ilusão.
Nela, tuas lágrimas são legítimas;
Nela, tua dúvida é verdade, e a mesma te engole com confissões de boêmio;
Nela, não se pode correr além das faixas já postas, ou dos limites que fazem a trama de tudo.
Há tramas no mundo!
Há trancas no coração!
Há palavras que enganam!
Há gente que cospe a semente que foi regada com gotas d´água de mina; líquido puro, genuína e preciosa substancia que inspira os moradores da terra.
- Não, não me fales mais de nosso passado!
- Por favor, nele não tenho legado; nem dinheiro herdado!
- Há um fardo que na vida seja boa ou sofrida todo homem mais cedo ou mais tarde terá que suportar – o amar e não ser amado!
Esta é a sentença para ti que creste na dona que passeava toda faceira.
Esta é a cadeia onde terás por preso teu peito crédulo, ou tua fama acorrentada aos beiços do povo.
- Dizes para mim “Onde está tua pombinha?”
- Não sei, ela se foi.
Eis que vejo a donzela cobiçada por homens velhos e novos. Os mancebos dançavam no ritmo de suas entranhas. Mas, ninguém se engane: “Toda vagina terá um preço; toda paixão traz consigo algum tipo de solidão”.
- Oh, homem de dores! Foge do vazio dessa dona!
Pois, no final de tudo isso te restará apenas lembranças opacas de uma sala vazia cheia de sombras inimigas.
Conheci um varão que amava sua bela mulher. Ele construiu um castelo quando ninguém acreditava que resistisse ao tempo de ventos fortes e assassinos. O tempo mudou; a ventania veio, e o castelo ali ficou; uma construção resistente que nem laços de parentes; coisa de família que unicamente a morte pode interromper, mas, nunca acabar.
Contudo, na mesa de um bar tu estás. Contudo, dentro de uma garrafa de líquido etílico aprisionastes tua vida.
- Oh, dor! Que batalha perdida!
Desci a ladeira da serra e comigo estava a cabocla do rio. Eu e ela nos beijamos na estrada; o céu sorriu e nós dois sumimos numa fenda do horizonte onde o sol se encontrava...

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

É NATAL EM CAMPOS

É natal em Campos;

A avenida sete de junho parece um rio de gente.

É gente de todo canto e de toda cor.

São faces sorridentes, ou olhares de dor.

É natal em Campos;

O gado continua no pasto;

O povo permanece crendo, pois, no sertão, acreditar é vício.

Ainda vejo um “cariri” envergar seu arco.

Ainda existem “negros” nas senzalas.

No comércio da cidade, as calçadas tem o piso liso.

Feliz de quem nele não escorrega.

Se você me saudar, dar-te-ei um abraço, um sorriso.

Isso é coisa que não se nega, mesmo, se no estômago a comida estiver fria.

É o resto da fome do dia;

É a flecha que ninguém pega.

É uma noite sem lua num sertão sem pão.

Para muitos, o natal de Campos não tem esperança.

É natal e Papai Noel de papel.

É uma alma que se cansa.

Uma caçada sem presa, só pressa.

E ai de quem nela tropeça.

É natal em Campos;

Carros de som pela cidade espalhados;

O povo em todo canto de radio ligado;

Mensagens de felicidades nos intervalos comerciais.

Isto é Campos; é terra de cristãos.

Somos irmãos; compartilhamos do mesmo chão.

O chão do sertão.

Do sertão de Peão, de São João, de vaquejada, de banhos na barragem, de missas aos domingos, de imposto de renda, de tiroteio na rua, de gente nua em vestidos de gala.

O sertão tem veredas e encruzilhadas cercadas de fazendas.

É natal em Campos, a vida continua.

É uma corrida sem volta.

É uma viagem de ida.

É a sorte tua, que por nada ninguém troca.

É natal em Campos.

É natal no sertão.

É tempo de presentes, de abraçar os parentes depois de um dia de sol quente.

É natal em Campos de Rio Real.

É missa do galo.



É Ave-Maria.

É ambulância na estrada com uma vida aflita e uma verba vazia derramada como água no copo de poucos.

É madrugada em Campos.

É noite calada.

É boca cerrada de medo ou covardia.

É natal em Campos;

É Real…

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

ANA NINGUÉM

Choveu muito esta semana.
Os pingos de chuva contaram uma história recente.
A que muita gente sente.
Sente o peso.
sente o preço.
A água ganhou vida na casa.
Ganhou forma de verbas perdidas.
Ela não falava coisas amigas.
Seu barulho acordou o menino.
Os velhos só puderam rezar.
Que azar!
O brasileiro limpa tudo.
No outro dia volta a sonhar.
Virá uma fada.
Safada.
Já devia ter vindo antes.
Demorada senhora envelhecida pelos séculos.
Até o cacique esperou por ela.
As penas se tornaram poeira.
Contei para os curumins a estória de Cinderela.
Mas na verdade seu nome era Ana.
O barranco desceu.
A gravidade não falhou.
A casa sumiu.
E Ana também.
Choveu muito estes dias.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

NÃO

Não...

Dentro de mim as entranhas se revolvem,
O coração calado sente o silêncio d'alma que insisti em dizer não.
O não que ergue o cadáver inerte daquele que antes crera na menina de Campos.
O não que sepulta a labuta dos apaixonados sem paixão.
O não que nega o amor sincero, um dito vero, uma história verdadeira.
Um não simplesmente afirmativo da vida.

Ah, se eu pudesse tornaria o tempo em imagem congelada e com um pincel faria nele a forma que quisesse!
Ah, como é bom ser Deus!
Como é confortável!

Perdoar, certa feita foi impossível!
Ela disse "não" milhares de vezes.
Ela disse que sem mim a vida bastaria.
E eu virei um quadro solitário na casa abandonada sem ninguém.
A casa das sombras, dos pesadelos, das imagens noturnas e dos sussurros na madrugada.

As dores nos ossos e juntas, as frias noitinhas logo depois das bucólicas tardinhas e a voz que me dizia: "Está me evitando?" me surge na vista como um precipício no fim da pista.
- Todo mundo se queixa do outro!
- Todo mundo é o outro e o outro é todo mundo!
Mas, o não é só meu.

O não que me trouxe para serra onde as águas correm calmas.
O não que me diz sim a vida novamente.
É preciso dizer não, diz o poeta.
É preciso dizer o não a tudo que na essência já era não.
O não era do amor que se diluiu no tempo.
Ah, coitado dos desatentos!
Amaram e se esqueceram da rotina das horas.

- Minha pombinha foi embora!
- Meu gato se foi!
- Como é dura a vida de quem perdeu a batalha do coração!

Eu chorei por ti trezentas noites.
As lágrimas me eram açoites, e a esperança de te ver uma peça fria de necrotério.
Ao sair levaste a chave da casa e fiquei preso nela.
Tentei pular a janela dizendo-te: “O novo é possível”.
Mas, minha voz se tornou uma velha resmungona.
E nossa vida um domingo na escola dominical.
E, tua voz aos meus ouvidos, na quietude da noite ou na pia de pratos era uma sanfona mal tocada como fundo musical.

- Não! É isto e pronto!
- Eu digo não!

Disseste não a vida toda.
Fizeste o não ladeira abaixo.
Subiste o morro com o não nas costas.
O não foi sempre um maldito não!

Não me perguntes mais o porquê do não.
Não tenho respostas, exceto, a vontade de viver.
Sim, é um não para um sim a vida.
Então, não...









quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A TAÇA

Num armário da casa de meu pai havia uma taça.
Ela era de puro cristal; não sei de onde veio, na verdade, isso nunca me preocupou.
Em minha vidência do passado, a taça estava lá.
Sempre no mesmo canto, cansada, no mesmo lugar.

Ela era uma taça que andou por muitas mãos.
Deve ter sentido algum coração, sei lá, sei não!
As pessoas amigas da casa a tiveram beijando suas bocas muitas vezes.
Elas eram pessoas que pareciam fregueses.
Todos os lábios, e todos os dedos sentiram seu peso leve com um pouco de vinho ou champanhe.
Confesso que até minha humilde pessoa a tocou as escondidas quando criança.

O armário e o ser feminino mantiveram uma relação amorosa por décadas.
A casa foi ficando vazia, mas, ela estava lá, seu brilho, eu ainda vejo de cá.
Minhas irmãs saíram de casa; a taça ficou um tanto empoeirada.
Meu irmão mais velho foi morar sozinho, a taça nem rachou, mas, o armário não era o mesmo.

Depois meu pai, sim, meu velho me disse adeus na escadaria da frente.
Um dia me lembrei da taça, a mesma continuava imóvel.
Mudamo-nos, agora, minha pessoa, e minha amada genitora dividíamos o mesmo apartamento, contudo, quando o vidente fechava os olhos, a taça estava lá, no armário da sala, da sala da frente.

A taça, a sala, a casa, a escadaria, as pessoas.
Um silêncio que fala em algum lugar.
Um coração choroso.
O menino crescido.
Um homem envelhecido.
O vinho bebido.
Um cheiro de família.
Ah, família!
Saudades...

GELO


O homem é escravo de seus símbolos.
Serve-os prontamente de geração em geração.
Poucos foram os que perguntaram sobre isso:
Havia uma cidade gelada.
Suas praças eram geladas.
Suas estátuas eram geladas.
Seus monumentos eram também gelados.
Suas casas tinham telhados gelados.
Seus prédios eram tão gelados quanto às leis que regiam os moradores da cidade.
O sol nasceu forte certo dia.
O gelo da cidade derreteu.
O gelo levou consigo a cidade.
Em seu lugar ficou uma poça de água fria.