quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

BELA CRIATURA DA TERRA

BELA CRIATURA DA TERRA
Por Roosevelt Vieira Leite

Não sei o que me deu na mente quando vi à margem de uma estrada empoeirada do sertão de Campos uma mulher à beira de um tangue a lavar roupas. Naquela manhã me saltou ao raciocínio a fraqueza do hábito ou o de fazermos a mesma coisa, do mesmo jeito, seja certo, errado, ou direito. Senti-me nauseado, ou sujo como aquelas roupas deitadas em montinhos sobre a quente pedra sedimentar. Senti-me, também, como o mesmo homem de ontem, parecia, até, que eu não tinha acordado aquele dia. Parece que a repetição é uma canção que cantamos sem conhecer a letra, ou uma viagem que se faz crendo que tudo que vemos é só uma paisagem em uma janela de vidro fosco. A mulher atenta ao que fazia, batia repetidas vezes o tecido amarronzado na rocha indiferente. A água barrenta, e o lodo úmido, fazia da roupa ainda mais escura. Certamente, a pobre criatura do semiárido, de semblante enrugado, via naquela forma o quadrado de seu legado – a herança de um modelo proibido de ser criticado.
Naquela manhã em que o céu azul cobria o mundo entendi que os homens e o gado dividem o mesmo cercado. O primeiro tenta dizer de si; e o segundo, calado, está quieto por todos os lados como se fizesse uma pose para uma foto de turista. Danado hábito! Danado costume! Maldito e abençoado modelo de tudo! Eu não sou filósofo ou jurista, mas, minhas tripas me dizem que a repetição, o hábito, o modelo e o seu zelo são os apelos que criaram a tua rua, a tua calçada, tua roupa, teu nu, teu rumo ou o teu destino, mas o tino, o novo olhar para as coisas são as benções das incertezas, do choro, do luto, ou simplesmente, uma batida de cabeça.
A fábrica de homens nunca cessa de produzi-los, e suas sepulturas ainda mais. As rupturas, as rachaduras, as frestas, ou as brechas só surgem quando a letra rasga o papel com consciência, ou o sangue escorre das veias grosso como mel. Mas, que coisa odiosa! A mesma coisa é viciada, viciosa, talentosa, mimosa; é cheia de prosa e insiste em falar. Enfeitiçados por seus versos, os homens encontram suas carteiras cheias de dinheiro, ou avisos de pagamentos; eles retiraram daí suas identidades, e com isso, pensaram ter findado o sofrimento. A foto, o nome, o número são tudo que há, além disso, só existe água, fogo, terra e vento.
A mulher da estrada, da beira do tanque, das roupas lavadas ainda está lá. Nem o tangue é o mesmo, mas, ela insiste em bater o pano no duro cascalho. É na força do seu costume que ela tem o seu lume, contudo, no silêncio da noite, depois do açoite da lida, ela para a sonhar – “Uma lavadeira, uma máquina de passar”. Mas no escuro do quarto noturno revela-se o ser estranho e uma nova vida – O nu, o calor dos amantes, as juras noturnas, o corpo suado, as promessas de ouvido, o zumbido do vento corrente, o ventre molhado, o cheiro no pescoço, o consolo, e uma bela criatura da terra.

O JOGO

O JOGO
Por Roosevelt Vieira Leite

O conhecer e o não conhecer estão na mesma cabeça. O primeiro é o sopro da dúvida, e o segundo a ilusão da certeza. A bela mulher seguia sua estrada; um fio de terra que parecia um rasgo branco no barro vermelho do sertão. Toda moça nova entende seu futuro ao lado de um porto seguro. Isto é racional, isto não é emoção. As pessoas acreditam em suas crenças e para elas se inclinam como um cacho de banana. A mulher andou sua milha, logo, logo, perdeu sua trilha; a moça viu que o homem não é papelão; a menina mulher entendeu que a aparência engana.
Um belo mancebo, filho de Campos, educado em uma boa escola que passou sem cola disse de seu estudo. O rapaz sabia de tudo; o homem de Campos como em todo sertão fala com fé e com razão do que ouviu dizer nos quatro cantos do mundo, mas, no final do dia quando chega a agonia só o mandacaru lhe interessa.
Eles e elas fazem pose nas janelas enquanto o carro passa na rodagem de terra. Somos retratos emoldurados em madeira e vidro. Somos o suspiro de um peito ali ou aqui, ou um grito apavorado num beco escuro; ou um sorriso arregalado que engole o mundo. Mesmo com isto, ou o aquilo que não vejo ou sinto, eu repito o que não entendo, e mato, ou morro pela ideia – Esta danada serpente que morde a vida ou a morte, ou alguma coisa entre as duas.
Eles e elas sem medo ou culpas se amam nas campinas belas. A vida celebra o pó e o vento; o fim do tormento de quem passa por aqui. Eles e elas deslizam no chão, suam as mãos e comem quiuí. Eles e elas se misturam no espaço como a água e o barro. Eles e elas se entregam como soldados rendidos pelo coração. Eles e elas se odeiam, se matam, se cobiçam, e conspiram. Ele e ela sumiram da tela, do cinema, da rua, da calçada, agora, calados, sem nervos apavorados, se beijam, então.
Então, que o rio siga seu leito. Que todos encontrem um amor perfeito, ou que se conformem com a novela da noite. Não há noite sem coito. Na pior das hipóteses, suco com biscoito no sofá da televisão, ou uma cama de papelão na calçada de uma loja de magazine.
A tímida donzela branquinha que nem cinderela andou sozinha na floresta cheia de lobos famintos. A manceba achava que seu príncipe lá estava. A certeza da moça, do tamanho de sua fé, não teve dó dos calos que a ela teve no pé. Por fim, a cândida ragazza caiu na trapaça daqueles que fazem a cena para a foto. O modelo, o quadro, o papel redigido, o texto ditado, a estrutura e seu cadeado, o gesso e o cimento britado todos se transformam em poeira, ou moldura de retrato amarelado, ou simplesmente, cascalho de rua.