sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

A MOÇA DA CALÇADA - O POEMA

Na calçada de meu prédio sentava uma moça às sete.
Fiel era menina ao relógio implacável.
A pobre criatura não percebia que os minutos, os segundos e até as horas rasgavam sua face com sucos na derme.
A terra debaixo de seus pés silenciosa lhe preparava uma cova.
Seu rosto, dia triste, dia alegre esperava o carro de seus sonhos e pesadelos.
Por vezes, o sorriso lhe curou as rugas.
Outro dia, seu queixo feria o chão;
O chão onde todos pisam e se cansam.
A moça sonhava proibida.
A desgraça estava na praça.
Na praça da frente, perto do posto, distante da gente.
Eu a amava no silêncio.
Suas lágrimas; sorvi contente.
Não lhe era parente.
Morávamos no mesmo prédio.
Andávamos na mesma rua.
Vivíamos o mesmo tédio.
Pois, ela não me via.
A pobre menina bonita que me enchia os olhos e acelerava o peito se foi.
O carro a levou; seu motorista vestido de terno bege era o foco do seu olhar.
No canto, a dez metros de lá, do seu costumeiro lugar de sentar, chorei sua partida.
O coração não escolhe a quem amar.
Enganoso e estranho órgão que pulsa sangue sem parar.
Em diástole e sístole ele te leva a lugares que não podes.
Crueldade da natureza!
Malvadeza!
Amar sem ser amado; uma tortura sem cura!


Nunca mais a vi.
Dizem que foi para São Paulo.
Pensei que a moça era carioca.
Beijei o lugar onde ela sentava todas as noites às sete.
Destruíram a calçada;
Construíram um Shopping.
Nada restou no chão de concreto.
– Psiu!
– Silêncio!
Vejo uma morena sentada na mesma calçada!
Vejo um amor não consumado.
Vejo um coração, agora, confortado.
A vejo na lembrança que ainda arde nos olhos do peito:
– Ela não tem defeito!
A culpa é da calçada…

PASSEIO

Aquele lugar era um quadrilátero.
O meu andar era trôpego como de um etílico descendo um beco escuro.
As pessoas sonham com o bem.
Contudo, estão presas em cantos de cimento de concreto e pedra.

Meus pés calçados de nudez e carne trêmula,
Não se cansam de caminhar na mesma longitude e latitude.
Desgastam-se sem consolo pela força de suas licitudes.
As solas de meus sapatos se desgrudam do mesmo como a manteiga derretida pelo sol.
Preciso de ti; não sei quem és; a espera, o silêncio, o desconfiar é minha atitude.
Ou quem sabe, preciso eu de uma mula que me suporte o peso da solidão.

Os homens buscam companhia.
Uma voz que lhes quebre o silêncio da impessoalidade urbana.
O passeio na braça à tarde é rotina;
O que esta em meu estômago é suco gástrico e azia.

As cidades têm suas praças.
Seus homens; seus passos.
Eu mesmo não disfarço.
Grito sobre seus bancos minhas desgraças:
“Essa é a sorte dos filhos de adão!”


Meu amigo onde está tua mão?

O mundo tem mais pessoas e menos gente.
Tem mais passeios que corações contentes.
Suas faces se escondem em máscaras;
Máscaras que caminham até o poente.
No fim do dia, o passeio acaba…