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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

MOÇA

Ela estava sentada numa cadeira defronte a minha.
Suas pernas morenas descansavam um pouco até sua hora chegar.
Ela estava ali.
Levantei os olhos e vi suas lindas coxas cor de índia do Brasil.
Olhei seus olhos eram verdes acastanhados;
Seus cabelos pretos caíam suavemente sobre os ombros.

Um dia senti coisa parecida.
Nem um pouco diferente.
O coração não conseguia se aquietar.
Foi há tempos atrás, na beira do rio.
Uma paixão sem escombros.
Nem caminhos embaraçados.
Só beleza, só natureza.

A morena se mexe o tempo inteiro.
Fico faceiro;
Ouso um olhar.
Nas retinas nos encontramos no mundo.
Ela sorri, há um tom de luar.
E o homem se renova a cada evidência de afeto.

Será?
A linda jovem abre a boca e sussurra algo.
Finjo escutar e não entender.
Ela repete.
Bebo cada gota desse líquido precioso.
Repondo suas perguntas com coração moleque.
Fico à sua sombra até ser abraçado por seu carinho.

Meu despertador toca.
É hora de trabalhar.
E eu fui.
Mas a levei comigo.

domingo, 15 de outubro de 2017

SENTIDO

Na espera por ele;
Ela perdeu-se num pesadelo repentino.
Os anjos não cantaram como de costume;
O fim da missa não teve amém.

A crença forte tornou-se vaga;
Os homens acordaram de um sonho:
Júpiter pediu ajuda a Alá.

As idéias são muitas.
Os crentes se multiplicam nas ruas.
Do telhado das casas se ouve o mesmo barulho: Cristo passa.

Meninos e meninas juntam-se para dançar com o Mestre.

Onde estavas ontem?
Para onde fostes no verão?
Por que não fostes à África?
Por que foges da miséria?

O sol amanhã nascerá e com ele levantam-se as questões.
O sentido está no peito do viajante, escondido em suas fibras.
São os olhos que enganam; a miopia é secular.
Não espere boas novas, pois a calçada é testemunha da rua.
Não se tem em quem fiar;
Nossa pele está nua;
Nossa razão ainda crua, não dá para digerir.

Ele estava no campo.
Chovia muito.
O raio abateu-lhe as esperanças;
Um corpo na grana, um crente na eternidade.
Uma mulher a chorar.

Que vaidade!
Desperta consciência de teu delírio.
Acorda amiga minha até que beijes o bom senso.
Parece que o sentido está nas fezes.
Excrementos de meu dia a dia.
Minha eterna lembrança pastosa da infância...

sábado, 14 de outubro de 2017

SOCIAL

Às vezes, sinto falta do meu rosto cravado no espelho da consciência;
Às vezes, sinto náuseas quando ouço o sopro das palavras;
Às vezes, prefiro a hipocrisia de dizer que sou hipócrita; isso me faz bem, sim, muito bem.
Há momentos que me basto; não preciso de ninguém. Qualquer ser humano seria expulso de minha sala.
Sala por vezes escura;
Sala por vezes úmida;
Sala por vezes calada;
Sala por vezes feliz.
Sala fétida, nojenta, ciumenta, assassina, cândida, cheirosa, dengosa, santa - profana sala d’alma!
Eu sou o centro da sala onde todos falam e se calam; onde o meu viver é o refino de minhas tripas.
- Ah, que saudade de minhas amigas, minhas raparigas!
- Dane-se o mundo inteiro!
- Eu sou eu!
Ando nas ruas com meus pés; não preciso do teu.
Ando nas ruas com meus olhos; a luz do dia não te imploro.
Ás vezes alegro me com o teu sorriso.
Às vezes recordo-me das canções da infância.
Às vezes aperto tua mão e sinto paz n’alma.
Isso me acalma;
Isso me faz bem.
É como os sinos de Belém, à meia noite, tocados na Igreja dos Jesuítas perto da Francisco Holanda.
Vejo um rio que corre para todos; vejo almas que se unem-cada uma trás uma flor na mão; todos tem uma esperança; todos tem uma criança.
Às vezes sinto falta do meu rosto infante cravado no espelho das horas...

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

O HOJE E O ABISMO SEM FUNDO


Hoje, caminho trôpego; os passos me são difíceis embora necessários.
O sol ainda quente do dia me dizia da noite que se aproximava, e minha alma, às vezes, calma esperava a estrela que me mostrasse o norte.
Essa é a nossa sorte - a crença de que não sabemos pra onde vamos, e a tristeza, mesmo, diante da beleza de sermos humanos, tão humanos quanto a pedra ou a água que corre fria sobre ela.
Tem coisas que não posso, e tu também.
Tem vento que gela meus ossos, o teu também.
Tem dia que a manhã é escura, e o sol não tem ternura pra te dar. É apenas um dia, seja de noite ou de dia; são apenas minutos, horas ou um relógio apressado cheio de covardia.

O meu passo perdeu o seu ritmo. Não há simetria, nem maestria na estrada escorregadiça cheia de certezas como flores sobre mesa. O teu calo é teu e o meu só meu, contudo, a dor é nossa; ela é a herança de nossos pais. É a verdade que coagula como o sangue em sua poça.

Ah, verdades mil!
Ah, conselhos que nos chegam e não cessam!
Ah, que mundo sabido cheio de seres combalidos, simplesmente, pela dor de ser!

Hoje, o que sei é que o ser espera ser a cada dia um pouco mais de um pouco de si mesmo. Um pouco aqui, um pouco ali, ajeita isso ou aquilo; espera mais, ou mínimo de alguma outra coisa que nem sabemos onde estar e o que é. É assim que somos, e nossos sonhos vão a marte, mas, também, nos trazem à morte.
No entanto, dizes tu que és forte. Tua carreira parece a primeira da terra, e desta forma, pensas tu que és mais que os homens, sim, aqueles que como tu são pó na cova; essa deve ser a tua prova, somente tua, pois cada um se recolhe como pode.

Ontem, eu sabia de tudo sobre meu mundo. Conhecia minha rua, minha velha vizinha que me espreitava à porta nas horas da ida e da chegada, e à mesa após a ação de graça a velha cuspia a baba repugnante de seu cachimbo. Ontem, eu era jovem, ou criança; a pressa era minha amiga e a paciência um caduca rabugenta. Ainda no meu mundo só há a viagem, ou uma mistura de paisagens sem a lembrança da parada final na rodoviária.

Oh, que tédio morrer assim!
Oh, que morte ruim! É verdade que o óbito é um sapo costurado na boca com tua foto dentro.
Não adiante, a fatalidade não tem idade quanto mais a segurança da necrose quando o sangue não circula.
Mesmo assim, eu sou um tolo! Continuo acreditando que amanhã eu suarei ao sol do sertão de Campos. Que todos os meus sonhos vão estar lá, sim, lá, bem perto de mim. Isso deve ser e continuar sendo, pois, mesmo morrendo eu quero viver.

Hoje, eu quero viver o hoje, o agora, sem focar o ir embora; viver como dizia o poeta Drummond “sem sofisticações, simplesmente, viver”. Mas, isso não me é, plenamente, possível! A fome de meu estômago nunca cessa, nem a vontade dizer se aquieta, nem O movimento das calçadas perde a pressa. O ser é um complexo de vozes que o atormenta, o ser é um abismo sem fundo, só queda...

domingo, 25 de junho de 2017

O LOUCO

O discurso do louco é subversivo.

A ordem do louco é caos.

Eu tenho um rei de paus.

Mas ele tem ases de copa.

A partida vencida.

No naipe, no signo.

Quem disse que isso é isso?

Quem disse que a volta é ida?

Jogam o jogo ao seu modo.

E as palavras fazem discursos de terno e gravata.

O louco não é ouvido.

Sua metáfora incomoda.

Sua metonímia provoca.

A ordem não suporta.

E o louco é calado.

Sua partilha é com os doutores.

Esses lhes ouvem as vozes.

As frases de crianças.

Olhares de terrores.

Uma corda cheia de tranças.

Por vezes escondem esperanças.

Conheci um velho.

Sua casa estava no morro.

Falava pouco.

Dizia quase nada.

O velho acreditou nas palavras.

O velho sabia o que dizia.

O velho esqueceu-se de seus dias.

O velho foi embora.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

UM BEIJO

Eu quero te possuir.
Quero que sejas minha.
Neste ponto sou um egoísta inveterado.
Sem negociação.
Nem propina.
Para ti minha alma se inclina.
Pende; se entorta.
É como uma penca de fruta puxada pela gravidade.
Seriedade, nosso amor.
Quero te colocar nos braços e te cuidar como criança.
Em teus cabelos fazer tranças.
Tranças como estradas infinitas marcadas pela imaginação.
Te adoro moça!
Ainda não te conheço o bastante.
Parece que esse fato é um espelho distante.
Mirá-lo é impossível.
Não é incrível!
Te amar sem o conhecimento pleno da causa.
Existe amor diferente?
Ele é coisa de gente.
Coisa que gente sente.
Entende?
Quero ser teu.
Quero viver contigo.
Ser na chuva um abrigo.
Ser teu eterno amigo.
Devaneio meu.
Sonho acordado na esperança de logo te ver.
Devaneio nosso.
- Um beijo.
- Um beijo.
- Te amo...

EU E O ESPELHO

Sinto o cheiro de gente nas ruas. Andar entre as pessoas não me é mais um constrangimento.
É um desejo realizado, um sonho plasmado nas calçadas urbanas.
Não vivo sem ti,
Não existo sem você.
Um pedaço de todos está em mim; uma palavra das almas humanas ecoa das cavernas de meu eu.
Sou o que sou mais todos que conheço e não conheço.
Sou uma pedra de tropeço, um espinho cravado em teu pé, sou teu irmão.
As muitas faces que vejo, os rostos que encontro, o sorriso ou o choro de espanto são tudo marcas da hora; são fibras tecidas nas minhas entranhas, são árvores da mesma floresta.
Toda madeira seca será queimada!
Isso eu ouvi quando menino.
A trapaça da vida não me isenta das chamas do futuro;
Nem do purgatório prometido pelos puros.
Somos uma massa fermentada pelas ideias alheias.
Somos bruxos convertidos à cruz, mas, nunca esquecemos o pentagrama e seus elementos.
Somos uma boiada que caminha no mesmo pasto;
Somos uma manada de porcos que teme aos homens e o frigorífico.
Ando convosco, contudo, nem sei pra onde vou;
E quando parado, delírio meu e teu, não sei onde estou.
O outro atravessa minha trilha diurna sempre avante, seus passos nunca cessam e nem suas mãos se cansam de fazer.
Todos os dias os homens plantam sonhos e se esquecem pela força da lógica das cidades.
Tenham piedade!
Sou mais um sonhador!
Acordei cedo esta manhã e o mundo estava vazio.
Olhei para o espelho do banheiro, e eu não estava lá...

terça-feira, 1 de novembro de 2016

VIDA BOA

Tenho feito tantas perguntas; tenho buscado saber o sentido dos homens, pois, eles nascem, crescem, correm e param, mas, não sabem de onde vieram. É sabido que nós seguimos a trilha que foi posta pelos mais velhos, sim, de um jeito ou de outro, fazemos todos nós as mesmas coisas.

Alguns dizem que o Eterno nos fez. Isto eu não questiono; na ausência de sentido, nada faz sentido, além do mais, vejo que a quimera ou a ilusão de ser, ou de um quem-dera é o canto dos mártires quando a tarde declina.

A aurora da manhã é minha amiga trapaceira; ela é a esperança do que não é, ou do que pode ser, ou, na pior das hipóteses, um dia triste debaixo do viaduto.
Ela é o marco inaugural de um novo cansado dia, ou de um dia, simplesmente, novo. É a feiticeira que engana a todos com seus oráculos iluminados pelos os primeiros raios de um sol tropical. Este é o sol que vacila na imensidão de um espaço que eu não conheço.

Saber ou não saber o que será é dor e alegria para um ébrio que foge do dia e ama a noite como eu. A noite em que os vampiros saem de sua tocas, e as serpentes de suas locas até que novamente o mesmo evento se repita aqui e ali. Por isso dizem que tudo se desfaz como as rochas se desmancham com o vento.

Ah, que vida boa de ser vivida!
Ah, que mundo tão explícito!
Ah, que razão tão racional!

Nosso animal, essa besta nossa e vossa, anda solto travestido de gente granfina, ou de gente plebe que pede o pão em toda e qualquer esquina de nossas cidades de novas e velhas idades e cruel rotina.

Os objetos e os homens executam a marcha marcial da existência. Todos dizem: “Eu existo”. Ontem, vi uma caixa de fósforos a conversar com uma senhora de palha na televisão. As coisas e as pessoas se tornaram a mesma coisa e ambos são sucatas de um ferro velho no final do mês. Elas tentam romper a resistência das horas, dos dias, dos anos, no entanto, no final de mais um dia, tudo se dilui no solvente do tempo.

Olhei a vitrine de uma loja que ficava na Rua José Olímpio; nela vi o rosto de um menino até que seus vidros frios e esmigalhados por uma pedra caduca desmanchassem meu delírio. Cada estilhaço espalhado na calçada de cimento e aço refletiu meus traços, minhas rugas, minha decrepitude.

Sou mais um na imensa multidão de ninguéns; sim, no mundo das massas, nisso que chamamos de comunidade, ou sociedade, nada é um; tudo é todos e ninguém.
Oh, que vida boa!
Oh, que orgasmo existencial!

Melhor é viver com as raparigas de que com a mulher escolhida, disse seu Erogildo.
Disso eu não sei. Na verdade, nada sei, pois, tudo que digo é uma canção já cantada no bar de dona Firmina . Não há originalidade em mim. Nem identidade em ti.



Contudo, a vida é tudo o que me interessa.
A vida, com pressa ou sem pressa, deve seguir seu destino.
A vida, mesmo sem acessórios, ou sem mimos, ou sem muita história narrada, deve seguir seu curso com ou sem um porto seguro.

A vida é um sonho que não entendo, todavia, insisto nele.
Seja sofrida devido à lida;
Seja a pura labuta, triste ventura do terceiro mundo;
Seja abundancia que enche a pança;
Seja a tristeza de uma noite sem nada pra fazer;
Seja o adeus de teu amigo ou de teu filho ou filha que deixastes no jazigo abrigo.
Seja como for, viver é o que conta!

Se tu me disseres o contrário, não te pagarei salário.
Se tu fizeres da vida uma despedida não serás meu amigo;
Serás apenas uma mordida de um cão raivoso.
E se tu decidires viver, mesmo de qualquer forma, então, juntos diremos: “Que vida boa”, não importa o minuto, ou o segundo, viver é preciso malgrado o mundo, ou a espada da morte…

domingo, 30 de outubro de 2016

A SÍNTESE

A SÍNTESE POR ROOSEVELT VIEIRA LEITE

Não foi eu quem fez o mundo; eu, mal consigo terminar meu dia. Minhas forças carregam meus fardos ladeira acima ou abaixo, pois, o destino dos meus passos é feito pelas escolhas de meus olhos. Olhos que não se cansam de ver; Olhos que se enganam com as miragens da alma; Olhos que brilham com o prazer; Olhos que se fecham quando há dor; Olhos que se escondem nos cantos das órbitas oculares, olhos que são uma metáfora. Sou uma alma que grita, chora, rir, celebra; se encanta, se atormenta, se espanta, se quebranta; Alma que crer, e descrer; alma que é alguma coisa só minha mesmo sendo uma comunidade de sujeitos. Eu, que me sinto alma vivente agradeço ao divino o dom de não ser. Não sou nada além de mim, e tudo que sou é alguma coisa tentando, desesperadamente, ser qualquer coisa. Ser o sentido do vento; Ser o sentido do tempo; Ser a poesia declamada, que afaga alma do mundo. Ser o não-ser, ser a constante crise de ser não sendo, e não ser sendo quase alguma coisa na terra. A terra que separa as almas, A terra que as junta em abraços de afeto, ou as distancia pelas intrigas do dia. A terra que brota vida, A terra que é morte, e a morte é a minha última sorte. Ai de mim se eu não viver vida. Ai de mim se eu esquecer da vida. Ai de mim se eu não amar a mim mesmo, mesmo odiando-me por não ser o ser ideal. Vi um homem que criou para si um homem melhor do que ele. Soprou em suas ventas sete sopros de vida. Depois, o moço criador sentou-se para aguardar. A terra rodou, rodou, e seu boneco ficou tonto. Parecia um bêbado com mãos trêmulas solto no mundo. O homem caminhou o que pode; A ideia de nada adiantou, Todos são o que são ou pensam que são, pois, o não ser é mais sincero que o ser ideal. Entre a ideia e a pedra, reina a pedra. Entre a pedra e a alma, reina a alma; Entre a ideia e a alma, reina a ideia. Eu sou uma alma cheia de ideias, Sou uma caixa de surpresas, Sou uma víbora dentro de uma gaveta. Sou um pingo de nada na imensidão do tudo. O tudo que não é meu e nem teu. Não foi eu quem fez o mundo; Nem o mundo me fez. Sigo minha trilha sem saber onde vou; sem saber onde parar. Não há possibilidades de negociar com as fatalidades, O acaso é um absurdo, porém, é tão duro quanto a rocha. A rocha que fere a carne, a carne que a terra come. A terra come os homens, os homens comem da terra. Não foi eu quem fez isso! Sou apenas alguém que quase sempre está errado sobre tudo. E quando acerto alguma coisa, logo, percebo que o que disse já foi dito por outro antes de mim. Assim, o meu dizer é de todos e os deles é meu também. Viva o mundo! Viva a saga chamada vida! Viva enquanto podes, pois, mais tarde quer queiras ou não será apenas uma peça de necrotério. Essa é tua benção mais sincera, Essa é tua hora derradeira; Esse é o verdadeiro sentido de tudo, a tua síntese, o depurar de tuas horas. Não te apresses, quer queira ou não tu vais embora....