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sábado, 27 de janeiro de 2018

AQUI O TEMPO NÃO PASSA

“ AQUI, O TEMPO NÃO PASSA ”
Por Roosevelt Vieira Leite

Max, ou Maximiliano nasceu em Campos, estudou em Campos, e depois, aos 40 anos se candidatou a vereador e foi eleito com 3.777 votos. Não foi grande coisa não, mas, uma grande façanha foi seu projeto para o desenvolvimento e saúde da juventude. Maximiliano e sua mulher Gorete perceberam que a cidade havia sido infectada com os vírus do narcótico, da indolência, da obesidade. Max era um modelo de servidor público. Frequentava, assiduamente, a Câmara; fiscalizava com idoneidade as contas do município; acompanhava a agenda pública, e quando tinha tempo, visitava seus eleitores para conhecer melhor suas necessidades. Ele era um perfeito cidadão em ação. O projeto 0777/96 de autoria do mestre Rosenthal, entendia que a melhor forma de envolver a mocidade na cidadania era a atividade esportiva e cultural, de preferência, as duas simultaneamente, e em um mesmo espaço. O jovem durante o ano de estudo estudaria a arte, escolheria uma, participaria de oficinas, e eventos artísticos. A culminância seria nos “Jogos Cívicos da Semana da Pátria, e no Festival de Arte de Campos, que ocorre na semana comemorativa de seu grande poeta “Anastácio”. Por três sessões na Câmara Municipal de Campos, Maximiliano, filho de Humberto Souza, nascido no povoado Água Fria, bradou com os pulmões em alta potência: “Campos precisa de Esporte e Arte para a juventude”. O Vereador Tico do papagaio refutou a tese do amigo desta forma: “Campos precisa de Jesus. A salvação é pela fé; é só se arrepender”. A vereadora Carla Nogueira, a Carlinha de Susete, manifestou sua opinião modesta: “Nossos bichinhos estão morrendo de sede e vossa excelência nos vem falar de teatro, cinema, música, pintura e muita bola, ah, tenha paciência! ” O vereador “Ventão” defendeu até certo ponto sua colega. No entanto, colocou assim sua mente sobre a matéria: “Esporte é bom, é; arte é bom, também, é, como é. Mas, as finanças estão curtas, e tem a lei de controle de gastos, entenderam? ” Cosminha do peixe, eleita pelas cotas partidárias, não concordou com ninguém, exceto, com o projeto de Maximiliano, mas, com uma emenda: “O pessoal do isopor e barracas deve ter seu lugar garantido. A cerveja em lata poderá ser vendida para de maiores”. Já, Padre Damião, poeta e vereador, adorou o projeto, todavia, segundo ele, o projeto peca em um quesito, Deus. Para Damião, os eventos deveriam iniciar com a oração do Pai Nosso, depois Ave Maria e Santa Maria concluindo com a oração do Santo Anjo. O famoso vereador do Povoado Lagoa do Sapo, Teles, um exímio tocador de acordeom, concordou e discordou desta forma: “Vossas excelências sabem que o esporte e a arte são muito bons; recordo-me dos tempos idos de meninice quando eu jogava bola na beira do rio. A religião, também é muito boa. E, os bichos, coitados, estão morrendo, mesmo, gente. A salvação é muito importe; o povo pobre precisa vender mais. Eu acho assim, a juventude precisa mesmo, porém, que as prioridades prevaleçam”. Os 22 vereadores deram suas opiniões. No final da sessão, o presidente da mesa, o servidor mais antigo da casa e do partido da situação, concluiu que não havia um sentido comum. A votação seria deixada para outra sessão. “Que nossa Senhora abençoe a todos”.
Maximiliano tentou todos os meios para levar seu projeto adiante. “Vou reunir as principais personalidades da cidade para fazer um documento”. O pastor não foi porque Max era comunista: “Isto é coisa de comunista; de hoje, que eles fazem de tudo pelo poder. Vão trabalhar, rapazes! ” O padre, também se recusou: “O partido deste rapaz só tem maconheiro, e gente preguiçosa”. Os professores estavam divididos. Uns temiam represálias, outros diziam consigo mesmo: “A gente ganha mal, e ainda tem de trabalhar mais”. Os diretores de escola alegaram que deveriam aguardar a manifestação do secretário. Os comerciantes disseram que se não atrapalhar os negócios estava tudo bem. No final do primeiro ano, o projeto de Max havia sido apresentado em mais 7 sessões. Nada tinha sido resolvido, se quer havia sido o projeto votado. Gorete, a companheira de Max foi consultar o Ifá sobre a questão. Mestre Flávio do Catú disse assim: “Tem macumba feita contra seu marido. É coisa de gente grande”. Max aceitou o convite de Gorete sua mulher e foi para o “Templo da Fé”. O vereador iluminado de Campos foi posto na ‘corrente dos sete homens de Deus’, em seguida, foi para o círculo dos profetas. Uma profecia foi dada ao político dizendo assim: “Sua macumba sairá ‘no corredor dos vinte e um’ onde há sal e arruda no chão”. Para participar o pobre homem teve que vender seu sítio perto do Gantoi. Max deu o dinheiro maldito aos homens benditos e foi em busca da vitória do povo. Nada feito, ninguém na Câmara queria saber de seu projeto. Por último, Max tentou a ‘corrente dos setenta’ em Açai; o vereador deu seu tudo. Limpou tudo que tinha e entregou ao sagrado. Para falar a verdade, seus colegas de partido ficaram zangados com ele. “Eu vou, novamente, a Açai, quem sabe o Governador me escute”. Max tentou agendar uma entrevista com vossa excelência; o rapaz havia esquecido que ele era da UDNTPC, mas, o Governo estadual era da coligação UDNTT, UDNTPP, UDNPCC, e UDNPVM. Max, nem viu vossa excelência. Por fim, o rapaz voltou para sua terra sem nada na mão. Gorete o consolou por quarenta dias em seus seios juvenis. No final dos mesmos, Max teve uma ideia, a última cartada de um político honesto do Brasil – a greve de fome. Rosenthal, o mestre do Jabiberibe, povoado de Olímpia, foi ter com seu pupilo. Rosenthal lembrou seu aluno de que a abstinência de líquido e comida faria mal ao seu aparelho biológico. Rosenthal, ainda, lembrou o vereador das causas primeiras da pobreza do sertão de Campos. “Meu filho quando o gado chegou à sesmaria de Belchior, a terra dos Kiriris ou Kariris foi enegrecida com a maldade do ocidente”. Max não ouviu seu mestre e foi adiante com a greve de fome. Na primeira semana, as rádios noticiavam que o vereador estava confinado em casa com fome por causa de suas ideias políticas. As rádios, também, informaram que a reforma do estádio de Futebol foi aprovada por unanimidade. Na segunda semana, as notícias eram que o vereador delirava devido a uma febre no encéfalo, ao mesmo tempo, as rádios comunicavam que a Polícia Militar estava dando aulas de ginástica na avenida Freitas de Gois. Na terceira semana, ninguém dizia nada. Na metade da mesma, o folego de Max estava muito fraco; o rapaz agonizava no leito de morte como Anastácio, o poeta de Campos. Gorete e suas amigas da igreja rezavam, fervorosamente, para Max mudar de ideia a tempo, e comer algo. “Meu amor coma, deixe essa guerra pra lá”. Max calado estava, calado ficou. Quando Max dava seu último suspiro lhe apareceu, em seu quarto de sofrimento, a figura de um negro alto com um tridente na mão direita. O homem tinha uma chave na forma de um gancho cruzado por uma linha pequena bem no meio de sua cabeça raspada. O moço da África dava gaitadas altas enquanto girava no sentido anti-horário. Max foi velado na Câmara Municipal com todas as honras. Haviam autoridades municipais e estaduais como o representante de vossa excelência o Governador do Estado. O mesmo disse assim: “Campos perdeu um homem de caráter”. O vice - presidente da Câmara se expressou desta maneira: “Campos está de luto com a morte de Max”. O prefeito, em lágrimas, colocou seus sentimentos como segue: “Um moço de futuro, morrer tão prematuramente, foi uma grande perda para a nossa terra”. Cada um disse o que estava em seu coração. Em seguida, o cortejo fúnebre sai da Câmara para a avenida principal. O caixão foi puxado por parentes e amigos. O padre da cidade, ao lado da família, acompanhava o enterro na frente da procissão. Atrás dos familiares, políticos e autoridades formavam o pelotão principal; por último, o povo que acompanhava o funeral com muita contrição e cânticos - Ave Maria, Ave Maria, Ave, Ave ...
Próximo a rótula, perto do restaurante mais chique da cidade, o caixão se estremece com força. A vibração foi tão forte que seus condutores vibraram com a madeira. O busto do grande poeta Anastácio vira-se para a esquerda. Mais uma vez o caixão mexe, e o poeta vira-se para a direita. O povo apavorado entra em pânico. Tomezinho, vendedor de coco, grita da última linha do cortejo: “Isto é Deus! ” O barulho foi intenso, e o tumulto grande. O carro de som que tocava as Ave Marias pede ao povo que se aquiete, pois, o calor faz estas coisas. O cortejo segue avenida abaixo na direção do cemitério Parque da Almas. Agora, o caixão passa defronte à Câmara de onde tinha saído. Um som como de uma explosão de ar comprimido ou como a de um pneu estourado foi ouvido. A comitiva política estava no chão. De seus ventres saíam carne moída e macarrão enroladinho. Moedas de ouro surgiram misteriosas nos olhos dos servidores do povo; suas línguas se tornaram notas promissórias penduradas de suas bocas. O macarrão fluía de seus interiores como a água da torneira, e com ele, molho de tomate com milho cozido. O povo atrás, mugia como touro, vaca, ou boi. Na verdade, tinham alguns que berravam como cabras e carneiros. Uma mocinha bonitinha havia se transformado numa galinha guiné; a pobrezinha ciscava no asfalto quente da avenida. O vapor, o mormaço do clima quente e úmido formaram nuvens na forma de tijolos de fezes humanas. Os milheiros de blocos de fezes úmidas encheram os céus de Campos. Dona Maria Gregório que vende água sanitária caseira percebeu tudo deste jeito: “Parece que em Campos vai chover merda; chega gente, corre que a coisa vai ficar feia”. Mas, o povo contrito mal olhava para cima. O caixão chega ao cemitério e o cortejo também. O povo, finalmente se recompôs. Nem todos puderam ver ao sepultamento. Uma multidão estava em frente do cemitério. O céu ficou mais escuro ainda, e as nuvens negras mais carregadas com as palavras finais do Bispo Antenor: “Gorete, dona Netinha, Seu Humberto, Deus o tenha num bom lugar, seu Migué, dona Firmina e seu Gerdal, todos que formam a família do nosso tão popular Max, e as autoridades, aqui, presentes ou representadas. Há pessoas que vem ao mundo com uma missão. A missão de morrer pelo pobre. Assim foi Max, e fique o seu legado de honestidade e amor pela causa pública ...”. O homem de Deus continuou sua fala com gosto. O povo do lado de fora queria dar seu último adeus a aquele que morreu por eles. A gritaria voltou, a coisa era grande, e feia. Assim foi o tumulto e o empurra - empurra. Seu Gervásio, e o rapaz Tonico, moradores de Alagoinhas, que estavam de passagem pelos sertões, incitam o povo a derribar a grade do cemitério: “Quando o papa foi para Salvador não deu outra; foi um pisa-pisa danado de se ver”. Com isto dito, o povo marchou contra o ferro da grade e o arrancou como se fosse de papel. O céu estalou com fúria; o povo se espalhou pelas sepulturas. Um pingo de água caiu, depois outro, e mais outro, e a chuva, finalmente, ficou forte. As pessoas se retiram do local banhadas pôr fezes de toda qualidade e cor. Quando Campos se aquietou, quando o povo foi para casa, quando as portas do comercio foram fechadas, um velho senta sobre uma sepultura de mármore negro defronte a de Max. Era um senhor branco, rosado, de cabelos alvos como a neve. O velho olha para a lápide da sepultura de Max e ler: “Aqui jaz um bom campense”. Depois, o velho sussurra suas sagradas palavras: “Aqui, o tempo não passa ...”, e em seguida, dá um suspiro profundo ...

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

MORCEGOS

MORCEGOS

Por Roosevelt Vieira Leite

Caracangaia é uma próspera cidade deste país. Lá, as pessoas tem oportunidades muitas. Pelo menos era este o comentário frequente de um dos seus mais fanáticos admiradores – Zé da feira. Zé da feira, um comerciante de todos os tipos de frutas e verduras recebeu o legado de seus pais – Ser louco por sua terra – “Por Caracangaia, mato ou morro”. O comerciante de meia idade tinha sua propriedade residencial no bairro Colinas. Na ‘Colina’, como o povo comum comentava as pessoas sabem o que dizem: “É a sociedade rapaz, povo estudado!” Assim, Zé da feira se formou, assim o rapaz viveu, até, o dia em que tudo mudou. Certa feita, um cidadão desconhecido se apropriou de forma indevida da bolsa de trocados de Zé da Feira. O vendedor de frutas teve seu dia de trabalho subtraído. Zé da feira soube do paradeiro do moço e foi ter com ele; não pelos trocados, mas, para perguntar-lhe o porquê de sua ação tão abominável. Zé da feira só não sabia como o encontraria na vila que ficava no outro extremo do município – O “Buraco”. Os que viviam no bairro “Fazendinha” chamavam o lugar de “buraco”, uma vez, que era um buraco mesmo. Era uma antiga pedreira onde, por séculos, os escravos extraíram a matéria prima que construiu o município – as pedras de calçamento. Com o tempo, com extrema dificuldade, as pessoas foram cavando cada vez mais, até, que encontraram os veios de antigas, e velhas cavernas que constituíam, na verdade, o subsolo de Caracangaia. Os moradores das cavernas pagavam para isto. Era uma prestação pequena, mas, muito sofrida para ser paga, além disto, a luz fraca e trêmula, e a água que certinha chegava nas torneiras na forma de rodízio – dois dias na semana, levavam grande parte da renda. Zé da Feira, facilmente, encontrou a casa de seu compadre na parte superior do buraco. Este era o perímetro da pedreira que fora usado para a construção de um condomínio de casas populares. Lá, Zé perguntou a um amigo se ele conhecia um tal “Toninho”. O rapaz lhe respondeu “Não”; e depois disse: “Deixe quieto”. Zé da feira tinha na mente que não havia outra opção; o jeito era entrar fundo no buraco para encontrar o rapaz: “Eu só quero dizer ao moço que, aqui, tem para todos; é só fazer o que eu faço – trabalhar”. Na parte nordeste do buraco, o nível das calçadas vai se inclinando; sua pessoa perceberia logo, que se tratava de uma entrada para uma rede de cavernas todas sustentadas por rochas antigas feitas do mais puro granito. Ao longo dos corredores, haviam placas escritas em Iorubá. Uma delas dizia: “Pedra mãe”. Zé da feira parou um instante para ver as placas e observar ao redor. Era de fato, uma grande rocha no formato de uma vagina negra. A pedra, na sua parte frontal se inclinava para o chão como duas conchas unidas que se abriam para formar a entrada da caverna que recebia a todos os visitantes como a única passagem para os circuitos intermináveis de cavernas. Zé arregalou seus olhos castanhos, fez o sinal da cruz, e foi andando para frente, sempre para frente. O calor aumentava à proporção que Zé sentia o cheiro de carne assada na brasa. Era uma família de Caracangaia que estava a comemorar alguma coisa. “Oi”. Cumprimentou o comerciante. “Oi”. Responderam de volta. Ninguém se interessou pelo Zé. Parecia sua figura a de um estranho em sua cidade. Logo, logo, o cheiro de carne cedeu lugar ao de esgoto. Haviam vazamentos da cidade de cima. A água suja caía sobre as cabeças do povo do buraco. Zé pensou positivo e respondeu sua dúvida para si mesmo: “Em 15 dias isto estará resolvido”. O destemido Zé pensou em continuar sua marcha, mas, desta vez, foi interrompido pela voz fina de uma senhora estranha: “Num vá mais não meu filho!” A mulher estranha era de fato uma anomalia da natureza. Seu cabelo loiro tinha fios lisos e crespos como o do povo de África; seu olho direito era verde e o esquerdo um botão negro numa bandeja vermelha. Sua boca era mui esquisita, pois, o lábio inferior era furado com um graveto atravessado, e suas orelhas tinham brincos de ouro e coquinhos de dendê. A mulher falava alto, mas, Zé da feira pouco pode ouvir: “Ninguém sai do buraco” Esta foi a segunda sentença inteligível que chegou aos ouvidos do comerciante. No entanto, Zé da feira estava determinado a dar o seu conselho, afinal, segundo ele, ele não poderia negar a este estranho a chance de ouvir o seu segredo. O calor aumentou ainda mais. Zé estava chegando às bifurcações; o lugar onde se ouve e se ver em tempo real o que ocorre, lá, em cima, na colina. As pedras das paredes ecoavam os sons de cima e suas imagens eram reproduzidas na mica e quartzo dos granitos. Eram festas no clube da cidade, reuniões nos porões das lojas, e luxúria com os membros ilustres da cidade de cima. Zé viu que o povo do buraco estava a par destas coisas, e mesmo assim dava risadas e dançava ao som de qualquer batuque. O povo do buraco, era na verdade, um povo alegre. Zé se indignou com o que viu e ouviu, mas, não desistiu de sua crença – “Uma palavra pode muito, quem sabe o rapaz entenda que regras são regras”. Zé continuou sua busca pelo tal Toninho. O buraco ficava cada vez mais complexo, agora, Zé tinha de escolher para onde olhar, pois, ele estava em uma encruzilhada de cavernas. “Que lado eu tomo, qual a minha direção?” “Eu vou por aqui”. Enquanto o mundo de fora era exibido nas paredes internas do circuito de cavernas, Zé prossegue sua marcha incansável por Toninho. O comerciante de Caracangaia não sabia dos morcegos que eram muitos. Ao vê-los, os animais se assustaram e partiram fugindo do invasor, porém, um deles ficou. Era o um morcegão grande, forte e determinado a enfrentar o cidadão real de Caracangaia. “Que queres, aqui, na minha caverna?” “Não sabes tu que cada um tem o seu buraco?” Zé urinou-se ao ouvir a voz do mamífero voador. “Mas, que que é isto?” O morcego, rei do grupo, fala mais uma vez ao visitante de cima: “Rapaz, se você não se explicar direito a coisa vai ficar difícil pra você, eu conheço muito bem a minha morcegada”. As rochas gemeram mais uma vez, era a hora da educação e informação vindas do alto. Ao som do barulho das paredes de granito, a morcegada volta correndo e se aninha de cabeça para baixo para assistir “Amor, amor, sempre amor”, o maior sucesso das cavernas. Durante o episódio, os morcegos, ora entravam em euforia, ou, ora em depressão. No final de cada capítulo, uns se sentiam culpados sem saber o porquê, e outros, possuídos de grande ânimo, saiam para fazer a diferença. Enquanto isso, Zé retoma sua busca por Toninho. O rapaz procurou o quanto pode até que desistiu, e se lembrou, finalmente, que não sabia o caminho de volta. “E agora?” Zé andou por mais cavernas, em cada uma viu um cena diferente. Em uma delas ele viu o nascimento de uma burrega. Em outra, ele viu a conquista de Marte. E, ainda, em mais outra, ele viu um atalho para cima. Era uma propaganda que passou só uma vez na parede do quarto das corujas. “Aonde você encontrar um curva na forma de cotovelo dobre e entre no buraco a esquerda e suba sempre”. Quando Zé encontrou este caminho o povo do buraco o deu como perdido. Sete dias depois, Zé vê uma claridade vindo de uma pequena abertura protegida por pedras finas e pequenas. Zé sobe na direção da pequena luz, até que enxerga um terreno liso e pegajoso. A abertura era muito estreita para ele. Além disso, um cheiro de carne podre soprava de algum lugar de fora e de outro desconhecido de dentro. O cheiro era repugnante. O rapaz examina a abertura, e nota ser a mesma flexível. Com as duas mãos, ele fez uma força como que rasgasse a boca de um bicho grande, e foi se espremendo como um filhote a sair do ventre de sua mãe. Para tirar os pés do buraco, Zé teve de virar cambalhota. Ao se erguer, ele se deparou com o cadáver de um negra que estava na calçada de um supermercado. A mulher era ossos e carne necrosada. Estava ainda claro, mas, a tarde já se despedia, lentamente. As moscas não paravam de zumbir ao redor do corpo e de lhe penetrar os orifícios. Zé viu que a pobre mulher tinha sido acorrentada à duas toras pesadas de madeira, e sido posta ali para vender nós moscada, e que haviam se esquecido da coitada. Ela era, certamente, uma “escrava de ganho”, coisa muito comum no passado. Todavia, para o pobre Zé da feira aquela mulher era a que o havia feito nascer de novo. Zé pegou uma nós do tabuleiro inerte, limpou sua camisa bege de linho, e sua calça jeans, fez o sinal da cruz, e foi para sua casa sem perguntar mais nada, o rapaz se calou. Diz o povo de Caracangaia...

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

O AGENTE DE SAÚDE

O AGENTE DE SAÚDE
Houve uma época em que Campos estava com epidemia de dengue. As autoridades a esconderam para evitar o caos. A população teve poucas baixas, e o grande responsável por isso foi o agente de saúde. Muitas pessoas os enxotaram da frente de suas casas, mas, como soldados destemidos eles cumpriram seu dever como puderam, e para isso, muitos deles trabalharam além de suas forças e se perderam por aí. Noronha era um deles, um rapaz branco, de estatura alta e traços europeus. Noronha, fielmente, visitava todas as casas listadas para ele uma a uma não importava onde nem a que horas. A casa número 43 foi uma delas. Noronha conheceu dezenas de casas em Campos, portanto, o rapaz sabia com certa intuição onde seu pé pisava. Ele sabia que o mosquito da dengue era traiçoeiro, vil e perigoso, sempre pensou o jovem agente de saúde desta forma.
A casa 43 da Rua G do Conjunto dos Operários era uma casa deserta. Seus moradores faleceram e seus descendentes foram morar na Capital. A família alugava a casa quando tinha procura. A casa 43 da Rua G estava naquela época disponível, ou seja, vazia. Noronha não tinha a chave, nem teve contato com seus responsáveis. O rapaz planejou pular o muro da frente que não era alto, e jogar o veneno de dengue pelo quintal, pois em Campos muitas casas tinham suas caixas sobre o banheiro dos fundos. “Eu pulo; vou até lá, e jogo o remédio com minha colher”. Foi assim que fez o agente de saúde. A facilidade do trabalho e a rapidez do mesmo deixou o moço no quintal ocioso, e isto o fez bisbilhotar a propriedade. Noronha olhou para dentro pelo vidro da janela dos fundos. De lá podia-se ver parte da cozinha, do corredor, e da sala de recepção na frente da casa.
Noronha era um rapaz que cria na objetividade das coisas, e na certeza do que ver e toca. O rapaz era como todas as pessoas comuns – “a crença comum na estrutura do mundo”. Sua prima Jiló, quando tinha uma oportunidade dava uma cutucada no parente. O Rapaz recorda, com razoável frequência, das ceias em sua casa, na rua G, número 48, quando ele era um infante. Desta vez, o moço estava perto de casa. “Noronha nem os olhos, nem os pensamentos merecem confiança” – Alfinetava Jiló seu primo que se achava confiante das coisas. O rapaz olhava para dentro pela janela quando ouve atrás de si um som abafado seguido por um arranhão de unha na mesa da cozinha. O arranhão foi tão forte que fez o moço perder o equilíbrio e pender um pouco para trás. “O que foi?” Noronha entendeu ser um acidente. Ajeitou-se, e pôs - se em pé. A porta da cozinha estava aberta para sua surpresa, na verdade, o rapaz não tinha tanta certeza nem de uma coisa, nem de outra. A porta misteriosa dançava como solta pela força de um vento calmo. “Se eu continuar posso ter problemas”. Este foi o tirocínio do agente de Campos.
Enquanto isto se passava, Vozes são ouvidas vindas do portão. “Será que é alguém querendo alugar a casa?” Pulou o coração do rapaz com a carreira que ele dera para dentro da casa para se esconder no quarto do casal debaixo da cama cujos lençóis tocavam o piso. Noronha ouviu o portão de ferro pintado de cinza abrir, e os passos que logo acompanharam o gemido fino do mesmo. O passos eram para dentro de casa. “É mais de uma pessoa”. A imaginação de Noronha não dava para abarcar a cena do todo, o rapaz ficou quieto, aguardando uma chance de entender o que se passava, uma vez que, ele era apenas o “agente”.
Os passos dos estranhos se tornaram difusos; as direções várias fizeram Noronha ajeitar-se melhor debaixo da cama, e puxar o par de sapatos para perto de si. Vozes são ouvidas. Elas eram como o borbulho de águas distantes; o barulho delas nenhum sentido despertava, e isto fez Noronha sentir-se ainda mais em apuros “Será que não vão embora; vão ficar?”. Noronha percebe que aquelas pessoas estavam relacionadas a casa. Podiam ser os donos. Novamente, o silencio é rompido com sons ininteligíveis como alguém rezando um terço baixinho. “Mas, que diabo é isto? Vou ficar preso aqui? E meu chefe, meu ponto? Vou sair e resolver tudo! Mas, e se pensarem mal? Como perguntar o que faço aqui?” Noronha aquietou-se debaixo da cama, e aguardou o andar da carruagem. As vozes se tornaram fortes e altas bruscamente, como se alguém tivesse aumentado o volume de um rádio. Com isso, Noronha se arrasta mais para o fundo da cama e encontra uma caixa vermelha pequena de madeira de pinho.
O sol entrava pelas venezianas do quarto o que permitiu Noronha mexer na caixa enquanto as vozes conversavam nos outros cômodos da propriedade da rua G 43. “O que que é isto?” Na caixa havia uma foto antiga da casa. Noronha percebeu que todas tinham o mesmo muro, tinham a mesma altura e cor. Mas, para seu desespero, o número da casa era 48. “Meu Deus, será que confundi o oito com o três, será que estou na casa errada?” Os passos e as vozes se misturam numa sincronia perfeita; as pessoas nos outros cômodos estavam, de fato, interagindo sobre algum problema; algum assunto muito importante poderia se inferir daquelas vozes, pois, ora a voz da mulher cresce, ora a do homem também, ora, a de uma outra pessoa, coma voz mais suave que as demais se destacava na totalidade dos sons percebidos: “Você precisa saber que, aqui, em Campos, mulher nesta situação tá perdida; eu não vou tolerar tamanha humilhação!” “Marize, minha mulher, quantas famílias passam por isto, em Campos, e conseguem se estabilizar”. Noronha continua a bisbilhotar a caixa vermelha enquanto o casal, audivelmente, discutia o adultério do marido baseado na tese comum de que: “Se todos fazem assim, então, tem de ser assim”. A voz doce e frágil ergue-se mais alto que outra, e implora o silêncio do casal. Em seguida, a criança de 11 anos, do sexo feminino chora dando um dos celebres gritos do cinema de terror: “Parem!”
Enquanto isto, Noronha passa mais uma olhada na foto da casa para ter certeza do que via: “O número era 48; a casa da lista é 43, então, estou na casa errada!” “Pera aí, esta é minha casa!” “Mas, como?” “Eu tenho a chave de minha casa!” De fato, a chave de sua casa estava no bolso de suas calças suadas de tensão. “Eu pulei o muro porquê não conheci a casa; todas são iguais – é a repetição, a mesma coisa, eu confundi, pronto!”. Contudo, Noronha não sabia explicar quem eram as pessoas a falar, se a casa era, na verdade, sua mesmo. Noronha criou coragem repetindo para si a seguinte sentença: “Esta é minha casa, então, tenho certeza que estou no meu direito”. Noronha, finalmente, sai de sua toca como o filósofo sai de sua caverna, e segue para sala de recepção.
A sala de recepção estava tão solitária quanto Noronha. E da mesma forma os demais cômodos. Nenhuma evidência de vida pensante foi encontrada. Somente os móveis, e as coisas de uma casa em geral compunham o cenário da casa naquele momento do dia 15 de agosto de 1997. “Pera aí, pera aí, pera! Eu tenho certeza que eu ouvi passos e vozes de pessoas!” Em seguida, Noronha baixou a voz. “Mas, eu não confundi o três com o oito?” O medo de ser pego e o pavor de ser assassinado haviam sumido. Agora, no coração do agente de saúde havia, apenas, pura curiosidade. A casa estranha que era, também sua, ou, supostamente sua, foi investigada pelo moço metro a metro. Nada seu foi encontrado na ocasião. “Então, está é a 43; deve ter algo errado, de fato, estou na casa certa”. Noronha foi ao quintal onde estava sua bolsa de trabalho, ele intentava ir embora. Lá, ele se deparou com algo muito estranho que, definitivamente, impactou seus sentidos. Duas bonecas estavam, uma de frente para outra, e conversavam, tranquilamente, sobre quando o papai voltaria. A criança dizia para sua mãe: “Quando o papai voltar, nós poderemos sair daqui; e, finalmente, vamos ser felizes. Mamãe, não chore mais, papai prometeu que desta vez vai ser bonzinho”. A criança repetia a mesma sentença, e a mulher boneca somente a escutava e fixava seus olhos de vidro azul em Noronha como se ele tivesse algo a dizer. O coração do rapaz saltou, novamente, com a carreira que ele deu de volta para dentro da casa. A casa estava vazia, como antes, mas sua coisas estavam lá desta vez. Sobre a mesa da cozinha um revolver 38 com três balas deflagradas irradiava a frieza de seu ferro. Um bilhete contava de seu amor por Dora e pela filha. Noronha tentou pular o muro de volta para fora, mas, para seu infortúnio, o rapaz, nunca mais tornou a ver a cidade além daqueles muros...

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

CHAGAS – UM SUPER CIDADÃO


Por Roosevelt Vieira Leite


Chagas acreditava que as regras do mundo eram justas. Chagas teve uma educação pública, aqui, mesmo, em Campos. Do fundamental à faculdade Chagas se destacou, e seus mestres diziam que o moço de Campos seria um cidadão perfeito. O moço de Campos, filho da macambira e da jurema foi trabalhar em Aracaju, capital do estado. Lá, ele iniciou sua iniciação no jogo da vida na capital mais linda do Brasil. Chagas só não sabia que nem tudo é uma benção, na verdade, como dizia Joaquim, um velho campense que aprendeu desde cedo entre os de sua raça, raça negra como café, que o mundo é um grande balaio de gato com um guabiru solto dentro.
Eram dez horas da manhã a entrevista de emprego. Aquele seria o primeiro emprego do jovem filho do sertão. Seu futuro patrão iniciou a conversa com um bom dia seguido por uma dissertação perfeita sobre a crise brasileira. A conversa foi encerrada com uma mistura de olhos marejados e um aperto de mão com um sorrido espremido entre os lábios: “Ficam, então, combinados os R$ 4,24 a hora trabalhada?” Chagas trabalhou duro por 7 meses; no final dos mesmos, o jovem trabalhador do Brasil refletiu como pode sobre tudo. Sua conclusão foi: “Isto não é um emprego, isto é, na verdade, uma maracutaia para explorar a minha pessoa; tenho certeza que este é um caso isolado”. O segundo emprego de Chagas foi a farmácia “Compre tudo e pague quase nada”. Seu salário inicial eram os tais 4,24 do primeiro, mas, com uma diferença, ele recebia comissão por venda. Chagas labutou por mais sete meses de sua triste vida, e depois saiu do emprego alegando que ele trabalhava somente para pagar o transporte uma vez que o rapaz pegava duas conduções por dia, e tinha que comer fora. Seu gorduroso almoço lhe custava, diariamente R$ 12,00 mais um suco doce e ralo de R$ 3,00. O jovem, cheio de esperança que as regras de fato fossem justas como ensinavam seus mestres enfrentou mais este carma. No final dos setes meses sua conclusão foi. “O professor Martinho me ensinou que o Brasil é um país pacífico de gente honesta e trabalhadora. Não posso generalizar estes recentes casos meus”. Chagas fez, sem cursinho, sete concursos na esperança de passar em algum. Ele dizia: “Todos dizem que o ensino público não é eficiente, mas, aprendi com a diretora Alves que é o aluno quem faz a diferença, e eu fiz, a minha menor nota foi sete”. Chagas não passou em nenhum dos concursos e foi pleitear uma vaga de vendedor de passagens de ônibus na antiga rodoviária da cidade. O Gerente da mesma solicitou que ele apresentasse diversos documentos. No meio da papelada haviam comprovantes de idoneidade moral, certificados de escolaridade, exames médicos, e laudos de perícia médica, além da ficha criminal, caso, fosse o rapaz ex presidiário. Além de tudo isso, sua experiência completa de trabalho com autenticação no cartório caso fossem entregues cópias. Chagas foi instruído a esperar uma resposta dentro de quinze dias, pois, haviam duas mil pastas de pretendentes para serem examinadas. Chagas precisou pegar dinheiro de um agiota cognominado de Bigodinho do Aribé. Foram R$ 2.000,00 parcelados para 24 meses com juros de 17 por cento ao mês. Chagas percebeu a abusividade do contrato, todavia, cedeu às regras do jogo porque os bancos bateram as portas na sua pálida e suada cara. Três meses depois, a gerencia da rodoviária o chamou. Chagas passou a ganhar novamente 4,24 a hora sem comissão. No primeiro mês, o pobre Chagas comeu no albergue “Santo Antônio”, pois, seus proventos só davam para pagar a condução, a parcela do empréstimo e as dívidas amontoadas. “Fazer outras não”. Decidiu o filho ilustre de Campos do Rio Real. Sete meses depois, Chagas entendeu que ali não era o seu lugar; o rapaz cogitava sobre o fato de que o seu dinheiro só dava para pagar o agiota, o transporte e a venda, assim, ele era insuficiente para cobrir suas outras pequenas mínimas e poucas despesas. Chagas decidiu não sair de casa, não comer feijoada ou churrasco, ou tomar cerveja no finais de semana na casa de seus amigos. O moço se trancou no seu quarto quitinete por 210 dias. No final de sua reclusão sua conclusão foi a mesma: “Achei mais um picareta”. Chagas não sabia que a rodoviária era uma instituição estadual gerida por contrato terceirizado; isso era considerado excelência e eficiência. Chagas gastou o seguro desemprego por três meses, depois foi tentar a vida de novo, desta feita era um contrato na prefeitura de uma cidade satélite da capital sergipana. “Aqui você só ganha até novembro, em novembro, sua pessoa sai de férias, retorna em fevereiro, e volta a receber em março. O rapaz pensou sobre isso quieto com minúsculas gotas de água em seus olhos: “Ah, se eu pudesse pôr um negócio”.
Certa feita, assistindo TV, Chagas viu um anuncio: “O governo ajuda os pequenos empreendedores”. Chagas correu para a secretaria de ação social e inclusão: Traga os seguintes documentos – Cópia da certidão de nascimento ou casamento, caso fosse casado, identidade, CPF, certificado de conclusão dos estudos, folha corrida, nada consta, experiência profissional, e o projeto do empreendimento. As copias deveriam ser autenticadas e assinadas por ele no rodapé das páginas de todos os documentos. Chagas voltou ao agiota para pedir mais uma porçãozinha mágica: “Mas, você ainda me deve”. Alegou o contraventor criminoso, porém, muito necessário para quase todo mundo da casa grande, exceto, para os que conhecem as senzalas do Brasil. “Eu vou pôr o meu próprio negócio, finalmente”. Bigodinho do Aribé arregalou seus olhos redondos e verdes, o verde dos olhos franceses que invadiram a barra dos Coqueiros nos tempos da colonização. “Seremos parceiros”. Chagas voltou para sua quitinete no Siqueira Campos com mais R$ 2.000,00 emprestados nas mesmas condições do outro emprestimo. Chagas pôs o seu comercio de vendas de água de coco, pastel, e refrigerantes diversos. Seu estabelecimento não passava de um toldo, uma mesinha, um freezer velho de segunda, outras pequenas ferramentas de trabalho. Nos primeiros dias, a coisa, até, que rendia, mas, depois, segundo a explicação de Clementes, um sábio vendedor de cocos na feira, a crise pegou. Chagas não entendia bem a crise, ou se, de fato, existia alguma: “Quer dizer que a crise é a culpada? E porque os gestores não previram e se prepararam?” Chagas tinha sua desculpa, mas, Bigodinho não aceitou: “Que crise!” Esbravejou o homem que só queria seu dinheiro.
Chagas foi vender coco na rótula próximo ao cemitério da linha de ferro. As vendas eram mínimas. Um coco, aqui, outro ali. Com o tempo o homem se perdeu entre os flanelinhas e todo tipo de peixe morto que povoava o lugar. Certo dia, Chagas foi encontrado morto na lixeira do CEASA que ficava próximo. Enfiado em sua boca ensanguentada estava o bilhete: “Deveu, não pagou, morreu”.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

GATOS

GATOS

POR ROOSEVELR VIEIRA LEITE.

Nunca gostei de gatos. Na verdade, gatos e cães, papagaios e periquitos não são meu forte. Quando criança, a cachorra Malta e seu amigo Baker encontraram lugar em meu coração. Mas, depois da mudança para a Barão de Stuart os animais sumiram de vez da minha vida. A pobre Malta morreu de desgosto na casa de um amigo de meu pai, e o Baker não sei dizer o seu destino; dizem que meu velho o deu para um amigo na Parangaba. Agora, nestes dias, quando a idade e a solidão me encontraram definitivamente, me engracei por uma gatinha que encontrei num abrigo de gatos, aqui, em Campos. A “Caolha” era uma gatinha ainda criança acanhada quando chegou, mas com o tempo, depois de se curar de tudo, a felina menina se animou, e ficou uma gracinha de gata, e muito sapeca. A dei este nome porque a pobre gatinha vira-lata estava com o seu olho direito muito doente, e o outro um pouco fora de foco. Posso dizer que a menina doente achou abrigo no coração deste velho contador de histórias. E o tempo passou; Caolha se tornou uma gata mulher mãe de filhos, e minha solidão continuava a mesma, afinal, conversar com gatos não é uma coisa muito estimulante.
As manhãs me levanto por volta das seis, molho as plantas com muito cuidado; falo um pouco com elas, as vezes, até passo do limite. Uma vez conversei com minha cidreira da saudade que tenho de minha filha que mora em Aracaju; outro dia, foi a vez do boldo da Pérsia, com ele comemorei o mestrado de meu filho que, também, mora em Aracaju. A gata Caolha esteve comigo em todos estes momentos. O animal pulava pra lá e pra cá; dava saltos sincronizados, e, até, parava para me encarar como se estivesse entendendo tudo. Quem sabe os bichos nos entendam, todavia, nós quase nada sabemos deles.
Caolha crescia e sua prole também. Os vizinhos diziam para darmos anticonceptivo para Caolha. Alguns reclamavam do barulho nos telhados. Assim, nada demais acontecia, Caolha vivia e eu também.
Para ser honesto. O que minha pessoa queria era que todos aqueles gatos fossem pessoas, filhos, parentes, amigos, e que nós pudéssemos falar de tudo e sobre tudo, mas, a vida não é fácil. Todo mundo vai embora, um por um, depois, restamos nós e as velhas e boas recordações, ou aqueles fantasmas antigos, nem é bom falar sobre essas coisas.
Um dia fui ao quintal, era sete da manhã. Andei por toda a área e não vi um gato. Era um silêncio total. Do quintal fui para a área lateral onde fica o jardim. Pensei que os gatos podiam estar lá. Nenhum gato vi dos 25 gatos gerados por Caolha. Pensei: “Onde estão os gatos?” O silêncio foi interrompido pelo gemido fino de uma gato que respondia ao chiado do outro. Isto ocorria na área da frente. Corri até lá e me deparei com algo que eu nunca vira em todos os meus sessenta e sete longos anos. Os gatos estavam dispostos em círculo, bem no centro dois deles disputavam um combate. Quando cheguei eles pararam, e no mesmo instante, viraram-se para mim e me fitaram. Um gato malhado branco e preto, um exemplar felino muito robusto e forte, me encara com olhar agressivo e sopra para mim seu bafo de raiva. Imediatamente, os demais fazem o mesmo, exceto, a Coalha que num canto observava tudo em silêncio. Chamei minha menina pelo nome. Mas, ela ficou onde estava. Voltei para dentro e passei o resto do dia nos meus afazeres. De tarde, fui molhar as plantas. Meu pé de hortelã miúda se esparramou pelo chão viçoso, cheio de vida. Um banho, ou chá de hortelã pode ser de muita serventia para a saúde humana. Dizem que o banho deve ser tomado na lua certa. O cheiro das plantas me enchia o nariz, e nos pensamentos, as lembranças de casa, ou de minha família, aqui, em Sergipe ferviam como molho quente. “Mas, por que eles não aparecem logo?” “Demoram demais para ver o velho”. “Bem, mas, gente nova tem tudo pela frente, querem viver; eu, eu estou, aqui, aposentado”. Ouvi a panela de pressão apitar. Era a sopa do jantar que ficou pronta. Fui até o fogão e bem no pé direito do mesmo jazia inerte um pobre pardal sem cabeça. “Mas, o que que é isto?” “Caolhinha nunca atacou os pardais” “Aqui, nesta casa pássaros e gatos sempre viveram em paz?” “Não, não, num é bem assim”. Ponderei e ponderei certo. Os pardais fazem parte da cadeia alimentar dos gatos isto é, perfeitamente, compreensível. Tomei o corpo do animal morto e o levei até o jardim para enterrá-lo, percebi, então, que se tratava do corpo de um pardal velho. Aquela era uma ave idosa cansada. Enterrar o pardal foi o momento mais sinistro que enfrentei até aquela ocasião, pois, todos os filhos de Caolha estavam no jardim, uns sobre o muro, outros espalhados pela área do jardim e eles estavam a comer, e comiam todos pardais. Ao ver a cena fiquei um tanto assustado porque as aves caiam do céu como que fizessem um voo suicida rumo à morte. Achei depois que, embora sinistra a cena era um fenômeno natural. Certamente os pardais aposentados e solitários como eu estavam desistindo da vida. “Deve ser o círculo natural das coisas”. Logo fui para minha rede estendida bem no fundo de casa no lugar mais fresco. Deitei-me por um momento e voltei a pensar nas saudades. Ah, saudades! Isto é coisa que não tem cura. Adormeci ali mesmo. O vento fresco do sertão soprava forte vindo do sul. Sonhei com Caolha e seus amigos vira-lata. A gatarada estava em festa por causa da ração de peixe que encontrei na venda de seu Davi. Gato pé duro come tudo que encontra, por isso, tirei a bichinha da rua quando criança. Meus sonhos me levaram aos braços de minha menina. Ela estava tão linda. Era o dia de seu aniversário de quinze anos. Foi uma data especial para todos nós. Meus sonhos aos poucos foram escurecendo. Uma noite de terror, subitamente, se instalou na minha mente onírica. Era só um pesadelo. Pensou minha pessoa. Os gatos me atacavam e me comiam pedaço a pedaço. Um gato grande, bigodudo saboreava com muito gosto minhas vísceras espalhadas pela rede de algodão. Lentamente, os felinos me devoraram até restar somente os meus ossos. Depois, eu não sei se acordei, mas, todos os meus estavam, finalmente, juntos comigo no mesmo lugar.

domingo, 24 de dezembro de 2017

O professor

O PROFESSOR

Acordei esta manhã pensando no que meu amigo Teófilo me disse no encontro de professores no Bar de Zé Ramos, aqui, em Campos na última sexta feira. Todos foram unânimes em dizer que, atualmente, o melhor país das américas para alguém emigrar é Vera Cruz, aqui, pertinho. Meus colegas de trabalho foram veementes em dizer: “Ainda não é primeiro mundo, mas, é um país emergente e cheio de planos para o futuro”. Lembro-me que eu disse assim: “Então, Vera Cruz é um país do futuro”. Meus amigos porém, me alertaram quanto a alguns problemas que a sociedade ainda não encontrou uma solução. Em Vera Cruz, você ganha pouco, mas, a vida é alegre. Dizem que é o povo mais feliz do mundo. Marcos, docente de matemática frisou muito bem frisado: “Em Vera Cruz o povo é alegre, hospitaleiro. O povo de Vera Cruz é muito pacífico”. Devo confessar que minha pessoa encheu os olhos com tudo isso. “Um povo alegre”. Logo, me preparei para a não muito curta viajem. São 300 quilômetros de jornada num sertão imenso que se perde no horizonte azul. Peguei o ônibus na Rodoviária de Campos rumo a Vera Cruz as duas da manhã. A estrada estava clara, a lua no céu sergipano de Campos era um disco de luz cheia de vaidade. Um senhor, natural de Vera Cruz estava no transporte dos anos 90. Ele a conversar com o trocador desabafou o que seus 80 anos de vida guardavam no fundo do baú. “Vivi, sofri, sorri, e muito mais!” Mas, para Vera Cruz não volto mais”. O velho ia buscar as coisas em Vera Cruz para traze-las para Campos. “Aqui, em Campos”, disse o velho ao romper a fronteira com a Bahia: “Tudo é mais descente”. Fiquei a pensar nas palavras do velho e me aproximei do mesmo durante a viagem. “Amigo, com licença, desculpe me meter assim em sua conversa, mas é verdade que o que se fala de Vera Cruz é tudo inverdades?” “Opa, como vai amigo!” “Sim, o que ocorre em Vera Cruz é que as pessoas assistem demais televisão”. “Como assim?” Em vera cruz os governos concedem concessões de mídias para que estas sirvam aos interesses de seus governantes. Em Vera Cruz tudo é só mídia”. “Pois”. Calei me por um momento, depois, resolvi refletir durante a viagem sobre as duas histórias. O ônibus finalmente chegou a Vera Cruz. A rodoviária ficava a uns vinte minutos de onde nos encontrávamos. Abri a janela e deixei o vento entrar, aproveitei para ver a paisagem. Defronte as casas na beira da estrada havia sempre uma bola. Ela tinha três cores: Branco, a cor considerada divina; a amarela, considerada inocente e valente, e a negra, considerada maldita, negligente e preguiçosa. As bolas tinhas estas cores e cada família chutava sua bola 7 vezes por dia. O habitante de Vera Cruz que não soubesse chutar a bola colorida era considerado uma pessoa sem estudo, sem educação e sem princípios morais. “Meu amigo, aqui, chutar uma bola é questão nacional”. Disse me o velho. Continuei a mirar a paisagem e desta feita vi um grupo de pessoas que pareciam comemorar, empolgadamente, alguma coisa. Ocupei o velho ancião mais uma vez com minha curiosidade: “Comemoram o que?” O velho me disse que não comemoravam nada. Era porque em Vera Cruz tudo é motivo de festa. Insisti com o velho. “Porque você diz isto?” “Espia!” Virei para a janela mais uma vez e passavam carros alegóricos multicoloridos. Os carros subiam e desciam as avenidas fazendo alegorias e neles as pessoas contavam uma história. Perguntei ao velho de novo: “Cidadão de Vera Cruz, por favor, me explique isto, pois, eu não entendo”. O velho, então virou – se na minha direção e suspirou. O seu suspiro liberou palavras pelo seu nariz afilado como os homens da Europa. E as palavras se juntaram umas às outras formando um texto, mas, minha pessoa não conseguiu lê-lo. Angustiei-me muito por não ler o texto, mais uma vez ocupei o coitado do velho. “Moço!” “Moço!” O homem não me respondia. As demais pessoas do carro também, e até, o motorista e o trocador estavam como o velho: Eram todos bonecos de borracha sem boca e olhos. Suas mãos algemadas com algemas velhas e enferrujadas. Levantei-me de meu assento, finalmente. Dirigi-me até o homem e dele fui ao motorista. Todos estavam sem vida, mas, não mortos. Era como se um coma tivesse se alojado. Ora ou outra eu ouvia um sussurro de alguém como que sonhasse: “Em quinze dias tudo estará resolvido”. Abri a porta do veículo e dirige-me ao outro lado da rua. Era um grupo de pessoas que contavam uma história sobre seu mundo e passado. Eles repetiam a mesma coisa uns aos outros e depois perguntam: “Acreditou?” A cena se repetia sucessivas vezes até a pessoa dizer: “Sim”. Cada um tinha sua bola tricolor e segundo a necessidade eles batiam uma pelada no final da tarde. Resolvi andar pelo novo e promissor país. Andei, andei, até que lembrei-me de pegar minhas coisas que haviam ficado no sinistro veículo. Ao retornar para o carro ele não mais estava lá...