A história humana têm seus heróis e vilões. Às vezes até os vilões nos chamam a atenção e passamos a admira-los. O sertão é um cenário fértil para a imaginação popular. Ademais, o imaginário do povo abre a porta para a entrada de diversos tipos humanos, entre eles, está o herói sertanejo, ‘aquele homem que aceitou uma causa em favor do precisado’. Os heróis sempre existiram na mente das pessoas, mas, aqui, em Campos quem não se lembra de João Trovoada – o herói do sertão?
Os dias eram difíceis na antiga Vila de Campos. Para beber água a pessoa tinha de caminhar muito até encontrar um poço ou esperar o caminhão pipa. Algumas vezes antes do caminhão chegar, a água já tinha se ido pelo caminho, pois, o estado dos carros era muito precário. Havia também, e era muito útil, a carroça pipa; essa foi uma verdadeira heroína nos tempos de estiagem em Campos. Muitos foram os pais de familiar que alimentaram seus filhos com o dinheiro ganho na ‘carroça pipa’.
Era o mês de outubro. O sertão nessa época do ano se enruga todo. A caatinga perde o verde e cede lugar primeiro ao marrom, depois ela vai se tornando cinza. É nessa época que o boi geme, e o carcará faz a festa. Campos tem sete meses de estiagem todo ano. Isso significa cerca de 210 dias sem chuva, ou com chuviscos espalhados aqui e ali. Os políticos sabem disso, mas, durante o tempo que passei no sertão nunca vi alguém do poder preparar o povo para seca.
- Ronaldo será que se você falar com o prefeito ele manda um carro pipa para nós lá no pau de colher?
- Sei não, Seu Anilton anda tão triste. Depois que descobriram a rapariga dele, ele quer descontar em todo mundo.
- Ah, então quer dizer que ele arruma uma quenga e o povo é quem paga?
- E o pior Ronaldo, a rapariga é casada, e o marido dela todos conhecem. Disse o carroceiro pipa Chico.
- Se fosse no tempo de Lampião a gente dizia para ele e ele dava um jeito nesse homem safado.
- De Lampião não, pois, o homem era do mal, mas, se fosse o tempo de João Trovoada, a coisa seria diferente!
- Rapaz, eu já ouvi falar desse homem!
- João Trovoada foi considerado o herói desses sertões do lado de cá.
- E foi mesmo rapaz?
- Num foi o que, rapaz!?
O sol castigava Campos sem dá uma trégua. As nuvens estavam cinzentas, no entanto, a falta de vento frio impedia a precipitação pluviométrica. Os termômetros davam 34, 35 na sombra. O sertão dessas terras parecia um deserto. Quanto mais os dias passavam o calor ia aumentando. O auge do verão tobiense ocorre entre janeiro e fevereiro; é nessa época que alguns se aproveitam da fraqueza do povo para comprar propriedade a preço de batata. Os povoados estavam ficando desertos. As populações iam se movendo rumo à sede do município; durante o trajeto, assaltantes roubavam seus poucos pertences. Alguns, e não foram poucos, se aventuraram rumo ao sudeste na esperança de uma vida melhor.
- Como foi lá em São Paulo, compadre Damião?
- Rapaz, ali num presta não!
- Por que homem? Só vejo o povo falar nesse São Paulo?
- A gente num pode ter nada. A identidade e o dinheiro a gente bota dentro da cueca. Relógio nem pensar e falar com o povo nas calçadas é muito difícil.
- Então isso num é vida não!
- Num é?
Campos não padecia apenas com a estiagem. Campos sofria todas as consequências da mesma: Desemprego, êxodo rural, superpopulação nas periferias, violência, abuso de poder econômico e político.
- Anilton falou na rádio de Lagarto que o atraso dos funcionários deve ser entendido pela população, pois, Campos está quebrada. A dificuldade financeira é grande.
- É mesmo rapaz, coitado de Anilton, um homem tão direito!
- Que direito rapaz! Aquilo é um ladrão!
- Não diga um agravo desse não, rapaz!
- Homem! Tem seca todo ano, e eles nada fazem! Será que estão doidos?
- Ele num faz porque num pode. Anilton nasceu e se criou em Campos; ele ama seu povo.
- Sei não!
A seca se agravou; o bicho do pasto estava arriando os quartos. Os urubus e carcarás se amontoavam nas árvores e cercas ao longo dos pastos queimados pelo sol. As garças deixaram o gado cambaleante e foram se refrescar nos tanques de água esverdeada.
- Mãe! As águas dos tanques num presta mais não. É mais lama que água!
- Menina passa pra dentro, o sol está de matar hoje! A menina Suely entrou em sua casa e foi direto para a cozinha onde estava sua amada mãe. Suely e sua mãe Tailine viviam de sua rocinha. O marido de Tailine fora para São Paulo tentar a vida e até aquela data não dava notícias. Isso fazia a pequena menina Suely sofrer com saudades do pai.
- Mãe! Estou com tanta saudade de pai.
- Tenha paciência minha filha! Tenho certeza que seu pai não se esqueceu de nós.
Suely foi deitar. O calor do tempo, e a barriga não muito farta só dava uma opção para as pessoas – dormir para fazer o tempo passar. Suely enquanto dormia via na sua vidência um carcará feme muito grande. A ave pôs um ovo enorme sobre uns pés de gravatás. O ovo não era branco, na verdade, aquele era um ovo cinzento, da cor das nuvens do céu. Ao ver o ovo da ave mais conhecida do sertão, e temida por muitos, Suely se animou e caminhou até os gravatás. Uma cobra coral sentiu as passadas da menina, e se retirou para deixar os humanos em paz. Parece que o bicho cobra estava com pena da humanidade. “Mas o que é isso?” A menina cogitou por um instante. Suely se sentou no tronco de uma jurema caída. A menina estava examinando o ovo gigante. De repente, ela ouve o som de estalos, depois viu as rachaduras que gradualmente apareciam na casca do ovo, por fim, a menina Suely viu o nascimento de um homem. O homem estava vestido, Suely nem se importou com isso, pois, o rosto do cidadão era muito parecido com o de seu pai viajante. “Pai!” Pensou ela.
O homem nascido do ovo de carcará gigante vestia calça e camisa típica dos vaqueiros e boiadeiros do sertão. Era uma calça de algodão tingida de marrom, e uma camisa também de algodão. Sobre ela um jaleco de couro. Na cintura, um facão e uma pistola 38. O chapéu do moço era de couro com a aba frontal para cima. Em seu pulso direito ele segurava um chicote de couro de boi. O homem calçava uma bota preta que brilhava como um espelho. O homem se levantou, tirou uns pedaços de casca de ovo de sobre si e caminhou na direção de um pé de mandacaru. O velho mandacaru floresceu na hora.
- Até que fim seu João!
- O amigo mandacaru sempre verde! Salve o sertão e o sertanejo! A menina Suely se lembrou da história que Rozental, seu professor contava. Rozental dizia que o sertão tinha um herói e que mais cedo ou mais tarde tornaria ao mundo.
- Moço! Moço!
- Oxente! Uma pequenina dessas aqui no meio da caatinga! Onde está seu pai, mocinha?
- Meu pai está em São Paulo!
- Oxente, e o que é que ele faz por lá? O sertão está seco, mas, não está morto!
- O povo daqui tem esse costume. Quando a coisa aperta eles vão para o sul. Respondeu a menina.
- Isso num é coisa de cabra macho, não! O sertão tem futuro! Suely e João Trovoada descem o pasto na direção do povoado Jabiberi.
Quando João Trovoada entra na comunidade, o povo estava nas calçadas e bares. O povo dizia que o jeito era ‘comer água’, isso é o mesmo que beber. O povoado inteiro estava nas portas e ruelas.
- Assim num dá. Disse seu Domingos – proprietário do único armazém da comunidade.
- É num dá não! Concordou seu João cabeludo, um barbeiro muito bem quisto no lugar. Dizem que o homem sabia cortar cabelo tão bem que quando ele parava a mão a tesoura dele continuava sozinha.
João Trovoada procurou um dedo de prosa com alguém, mas, ninguém o conhecia ou se lembrava de seus feitos passados. Trovoada não era mais lembrado por aquela jovem geração de sertanejos. Trovoada se cansou de andar e decide parar um instante para pensar no que fazer.
O sol ardia no meio do céu. “A coisa está preta mesmo pensou ele”. A praça defronte a igreja do povoada tem uns pés de juás. Trovoada e sua amiga Suely se sentam para prosear.
- O sertão não conhece mais seus heróis.
- Como seu Trovoada?
- Teve tempo em que o povo conhecia minhas histórias. Eu sou João Trovoada o herói do sertão! Suely pulou do assento onde estava e disse: “Viva!” O povo por perto nem mexeu a cabeça para olhar de lado, o som de bares e botecos não permitia as pessoas ouvirem nada, exceto, se prestassem muita atenção. Contudo, a natureza era aliada de Trovoada. As nuvens cinzas começaram a ribombar seus trovões, pequenas gotas de água caiam do céu, depois, a trovoada veio lavando as calçadas, e os telhados das casas, a menina saiu para rua para se banhar na chuva, junto com ela os adultos se refrescavam de mais uma manhã de sol causticante.
- Graças a Deus! Foi Trovoada, o herói do sertão!
- Quem é Trovoada? É uma trovoada mesmo!
- Não, foi seu João Trovoada, o herói do sertão, repetiu a moça menina.
- Que nada! O sertão num tem herói, não, o herói dele é São José. A mulher dizia que foi São José e Suely dizia que foi Trovoada. Quando de repente se ouve um tiro de pistola, em seguida se ouviu o som de dezenas de gatilhos. O povo do Jabiberi gosta um pouquinho de armas. Trovoada estava no meio da praça da igreja e ao seu redor os homens do povoado com suas armas apontadas para ele.
- Parem! Gritou a pequena do Jabiberi.
- Oxente! O que é que a menina de Tailine está fazendo com esse estranho aí?
Trovoada percebendo que o povo estranhava, tomou a palavra:
“Meus irmãos de Campos do Rio Real, é com muito prazer que retorno ao sertão depois de muitos anos perambulando por aí. Voltei porque o gado está morrendo, o sertanejo está sofrendo sob o jugo de um tirano!” A palavra ‘tirano’ despertou os ânimos de alguns que gritavam alto: “É tirano mesmo!” O outro grupo protestava contra Trovoada. A briga estava feita. O povo passou para as vias de fato. Naquele final de manhã, no povoado Jabiberi, o povo se desentendeu, e isso causou a morte de alguns. Trovoada foi com sua amiga para a casa de Suely.
- Mãe, esse é João Trovoada!
- Muito prazer seu moço! Mas, o que sua pessoa faz acompanhando minha menina?
- Nos encontramos por acaso.
- Mãe, espia como ele é a cara de pai.
- Menina, deixa de tolice! João Trovoada conseguiu rancho na casa de Tailine.
Depois do almoço, Trovoada, Suely e Tailine vão para o quintal onde havia uma cobertura de telha de barro vermelho. Tailine ficou curiosa e queria esclarecimentos sobre aquele cidadão: “Sua pessoa quem é mesmo?” Trovoada explicou que quando sofre o sertão é ele quem acorde. Tailine ora dava risadas, ora prestava atenção à conversa da estranha criatura.
- Vocês sabem de uma coisa?
- Não!
- Eu vou falar com esse Anilton.
- Mãe, Trovoada é o herói do sertão mesmo! Mãe e filha caem na risada. Trovoada percebe o deboche e pede licença. Trovoada tomou a estrada para Tobias Barreto. Quando alguém passava por ele, ou de moto, ou de carro, ou a cavalo ou carroça dizia: “É o herói do sertão”. A mangação era grande. Talvez somente Suely, na inocência de seu coração acreditasse que Trovoada era a solução para os problemas de Campos.
Trovoada alcançou o povoado ‘batata’ em pouco mais de quarenta muitos. O povo da batata já sabia da história do estranho. Nas batatas, Trovoada fez um milagre. Havia na comunidade uma senhora que não andava mais. Segundo o povo, o vento passou e a mulher perdeu as forças. Trovoada soube do assunto e mandou uns moleques aparar urina de jumento. “Foi um jumentinho que levou o Cristo” Pensou Trovoada. A mulher se queixou um pouco, mas, depois de um tempo ela deu umas coladas na urina de jumento.
- Foi ruim, foi?
- Mulher! Para ficar boa eu faço de tudo!
- Num é o que comadre! Cinco minutos depois a mulher se pôs a vomitar, depois de umas três golfadas, ela dá um pulo da cadeira onde estava entrevada há cinco meses. “Glória a Deus!” João Trovoada estava na estrada quando isso aconteceu. O povo da batata saiu atrás do estranho sertanejo. À proporção que o povo caminhava, mais gente se juntava ao grupo da batata. Na altura da granja, a população de gente já o ultrapassava a centena.
- Rapaz, dona Rosinha sabe?
- Não.
- Rosinha da batata! A mulher estava entrevada há uns cinco meses. Trovoada deu mijo pra ela, e ela ficou sã de imediato.
- E foi? Então esse homem tem parte com o chifrudo.
- Veja, eu num sei, mas, eu vou ver o que vai acontecer em Tobias. As pessoas seguiram seu caminho até a Vila de Campos.
As mulheres da batata são muito religiosas. Dona Almerinda, mulher de Peixoto que trabalhava como motorista de ambulância conduziu um canto religioso. O povo, em coro, cantava “Maria, Maria, Maria de Nazaré...”. Trovoada seguiu rumo à sede do município, e a nação de gente ia atrás dele. Perto da Concordia, uma antiga fazenda de um político tobiense muito importante, Trovoada precisou parar a marcha. Havia um homem deitado num esteira. Não se sabe como ele foi posto lá, pois, a pobre criatura estava muito convalescente.
- Moço, o que houve contigo!
- Eu cuidava de uma rês; e aí, o bicho se embrenhou no mato, eu fui atrás, mas, cai do cavalo sobre um tronco de pau. Acho que quebrei as costelas. Trovoada pergunta, então ao moço enfermo: “Tem fé em nossa Senhora, macho velho?” O homem timidamente respondeu; “Tenho”. Trovoada mandou o povo pegar bosta de boi e cozinhar. Depois passou o produto no homem. O doente ficou com os lombos cobertos de bosta de boi. Trovoada seguiu seu destino, e o povo atrás. Antes de alcançar Tobias, um rapaz chega montado numa besta: “O homem já se levantou”. O povo avançou pra cima de Trovoada; no empurra-empurra, Trovoada sai de fininho, e com ele estava Suely.
- Mocinha, ser herói num é fácil!
- É mesmo, seu Trovoada, como é que você aguenta?
- É Deus minha filha que nos dá forças.
- Agora falta pouco, para nós chegarmos à sede.
- Isso. Trovoada e Suely saíram da estrada onde estavam as pessoas e entraram nos pastos. Para eles era o único jeito de não ser perturbado pelo povo. Na calma da natureza, o herói do sertão, seu João Trovoada decide dá uma parada para refazer as forças. Os dois se sentam na beira do tangue de uma roça nas proximidades de Tobias. A água estava esverdeada. O tangue estava agonizando com a estiagem. Trovoada pede a Suely para ela pegar uns galhos de jurema; a moça o fez prontamente.
- Menina quando a seca chegar, você use a jurema.
- Para que seu Trovoada?
- Espia! Trovoada pegou a jurema e cavou um buraquinho na lama do tangue agonizante. Depois, o herói do sertão disse sua palavra mágica: “Água”. O pequeno buraco cavado virou, de súbito, em um minador. A água sangrava sem parar, o que chamou a atenção do povo. Este gritava em alto e bom som: “Milagre”. A água era muita e muito maior a multidão que se formou para se molhar naquele tangue. O povo começou a fazer perguntas sobre João Trovoada.
- Seu Alécio, esse homem milagroso, é quem mesmo?
- Sei não, dona Telvina.
O senhor prefeito foi informado das curas e do milagre do minador. “Mas, quem é esse louco?” “Isso deve ser coisa da oposição”. O partido da oposição começou a questionar a identidade do herói do sertão. “Esse homem deve trabalhar para o prefeito”. João Trovoada estava em apuros, os dois partidos pensavam muito mal dele.
Os dois partidos mandaram um representante para o pasto onde estava Trovoada acampado. O tanque agonizante havia enchido de água e nas águas nasceram peixes, e o povo matava a fome com as tilápias do tangue regenerado.
- Quem é sua pessoa amigo? Perguntou o representante dos Pebas.
- Eu sou João Trovoada.
- Eu digo seu nome de batismo.
- É João Trovoada, o herói do sertão. O representante dos Pebas sorriu. O homem achou que João trovoada estava fingindo que era doido: “Mas, que povo esperto, estão se fingindo de doido para simular um milagre mesmo”. “Mas, isso num vai ficar assim, não”. O representante dos cabaus perguntou a Trovoada quem ele era; Trovoada respondeu prontamente: “O herói do sertão”. Os cabaus saíram sorrindo: “Esse é louco de verdade”.
Na verdade, Trovoada incomodava os dois lados da política local. Trovoada deveria ser usado para fins maiores como disse o presidente dos cabaus: “Vão propor a ele um cargo na secretaria de obras com salario retroativo até janeiro de 2010”. A oferta foi posta para Trovoada, mas, o herói do sertão nada queria. “Moço, obrigado pelo emprego, mas, eu preciso ficar com o povo”. Os cabaus, então, pensaram que Trovoada se vendera aos pebas. O pessoal do partido peba pensou o mesmo: “Seu Trovoada, um homem como você, na sua idade, deve ter um cargo de confiança perto de sua excelência, o prefeito. Trovoada, ao ouvir o nome prefeito, disse com convicção: “Aceitxo”.
Trovoada foi trabalhar com o prefeito Anilton. O herói do sertão recebeu o retroativo de seu salario; aguardou a segunda feira chegar e foi para a feira de Campos. “Salve o sertão e o sertanejo”. “Eu sou João trovoada - o herói do sertão”. Trovoada pegou o dinheiro do retroativo e distribuiu com o povo da feira. Tiveram que chamar a policia para organizar as coisas. O prefeito Anilton chamou Trovoada para uma conversa.
- Como é que sua pessoa dá seu dinheiro assim?
- Macho velho, o povo está faminto!
- Eu sei seu Trovoada, mas, o que é seu, é seu!
- Não senhor, o que é meu é do povo. Anilton viu que o homem era louco. Anilton também viu que Trovoada não lhe oferecia perigo. Contudo o deixou no cargo de confiança. Com o tempo, o povo em vez de procurar o prefeito, procurava Trovoada, e isso irritou o prefeito.
- Seu Trovoada quando o povo lhe procurar, mande-o a mim para que eu possa ajuda-lo.
- Certo vossa excelência! O povo procurava Trovoada e ele mandava o povo ir ter com o prefeito: “Anilton vai te atender!” De fato, o prefeito começou a atender o povo e a ouvir as necessidades de cada um: “Seu prefeito, meu bujão acabou e não tenho condições de comprar outro”. “Seu prefeito a minha conta de luz está atrasada e o salário ainda não saiu”. “Seu prefeito, minha filha está gravida e está sem médico no hospital”. Os casos eram muitos, mas, com Trovoada de lado, o prefeito ouvia a todos. No final dos trinta dias, Anilton teve uma crise de choro.
- Compadre, soube que Anilton está com depressão?
- O que é isso depressão?
- É quando a pessoa fica amuada, sem querer viver!
- Vixe, então Anilton está ruim.
- Num está o que? Dizem que Trovoada fez o homem ouvir o povo.
- Está vendo, o cargo é pesado. Anilton piorava dia após dia. Quanto mais ele ouvia o povo, mais o homem piorava.
- Seu Trovoada, Anilton parece que vai bater as botas.
- Muito mais sofreu o Cristo. Disse o herói do sertão olhando para a barra do tempo. Uma chuva muito forte estava para cair. Trovoada continua:
- Eu vi santa Bárbara no céu nesse instante. Essa chuva vai mudar tudo em Campos.
Os amigos do prefeito se afastaram dele. “Anilton agora gosta de pobre”. A oposição estava revoltada porque o povo passou a gostar de Anilton. “Dizem que deixou até a rapariga”. “É, depois que esse Trovoada apareceu, as coisas mudaram em Campos”. O povo continuava sofrendo, por mais que Anilton os ajudasse, o sofrimento continuava. Agora o povo sabia que seu prefeito queria mudar os rumos da cidade. “Rapaz, ano que vem vocês vão ver, Anilton vai ajudar muita gente”. “Eu num estou gostando não, pois, ele num tem mais cargos de confiança”.
A oposição decidiu dar fim a Anilton. “Com a morte dele vai haver reeleição”. Trovoada caminhava com sua amiga Suely pelos pastos do Jabiberi quando um garça se aproxima dos dois: “Mestre Trovoada, o prefeito corre perigo”. Trovoada pega sua pistola e dá um tiro para cima: “Eu sou João Trovoada, o herói do sertão!” “Quem mexe com meu povo, mexe comigo”. Trovoada disse a Suely que aquela viagem ela não podia ir com ele. A menina resistiu um pouco, depois, ela o despede dizendo-lhe: “Num vá se machucar”. A pequena Suely estava muito acostumada com seu novo amigo. Trovoada chega a Vila de Campos. Na entrada da cidade estavam os capangas da oposição. Os homens bebiam num bar. Ao verem João Trovoada, os homens se levantaram e foram em sua direção. A ordem era atirar nele e em Anilton. O prefeito Anilton também passava pelo lugar. Os homens da oposição disseram consigo que estavam com sorte. Ouve-se um tiro, depois outro, e depois outro. O povo apavorado correu para dentro de casa. Alguns segundos depois, as pessoas aparecem para ver o que ocorreu. Trovoada estava estirado no chão. A cidade viu o herói do sertão dá sua vida pelo prefeito Anilton. O corpo de trovoada lentamente se transforma em um mandacaru. A cactácea pôs sua flor no meio da praça principal de Campos. As pessoas ficaram perguntando pra onde ele havia ido. O prefeito Anilton, no ano seguinte, planejou os custos da cidade para enfrentar a seca. Anilton mandou cavar cisternas em todas as roças do município. O povo de Campos não sofreu mais com a seca.
O sol caia por detrás das serras do Jabiberi. A menina Suely acorda de seu sonho. A menina morta de fome procura sua mãe.
- Mãe, eu sonhei que pai era o herói do sertão!
- E foi mocinha?
- Foi.
- Minha filha, o sertão está cheio de heróis e vilões.
- É mãe, mas, Trovoada é herói mesmo! A chuva voltou para o sertão, os pastos ficaram verdes, os tanques cheios e as mesas fartas. O sertão se aquietou e com ele seu povo...
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segunda-feira, 29 de outubro de 2018
O DESPACHO
- Mulher não me pergunte mais sobre isso!
- Por que Vasconcelos?
- Porque isso é coisa para ficar guardada!
- Por que Vasconcelos?
- Porque tem de ser assim, entendeu?
- Não!
- Então, traz o pinico aí, por favor, que a coisa tá ruim!
- Você é um cagão seu velho maldito!
- O que? Mulher se conforme pelo amor de Deus!
O dia havia amanhecido em Tobias Barreto. As mulheres estavam varrendo as calçadas e comprando leite. Entre uma coisa e outra, um dedo de prosa sobre a vida dos outros. A Rua Itabaianinha, de manhã cedo, tem jeito de gente. Há uma efervescência de vida. As pessoas saem de casa em busca do que fazer e assim é por toda a antiga Vila de Campos. Tobias Barreto se tornou em um centro comercial na zona sul do estado de Sergipe. Muitos baianos e pessoas de outras cidades sergipanas e de outros estados do Nordeste vêm fazer compras em Tobias. A antiga Vila de Campos do finado poeta Tobias Barreto agora leva o seu nome, em homenagem a sua ilustre pessoa. Vasconcelos de Araujo Dantas era um tobiense da gema. O velho é um arquivo de estórias de um passado ido, porém, bem presente nos arquétipos locais. Sua mulher, dona Germana Alves, havia conversado com Liliane, sua vizinha e amiga de fofocas, sobre o achado daquela manhã. Conta o povo, e aqui, a voz do povo é a voz de Deus, que encontraram um grande despacho de macumba na encruzilhada da Sete de Junho em frente ao Restaurante Trindade. O despacho continha nomes de autoridades e fotografias de mulheres da sociedade.
- Liliane, mulher, você já tá sabendo do despacho de macumba? O sangue de Jesus tem poder!
- Eu ouvi alguma coisa, mas, num to sabendo, não! Disse a moça com um ar de “num sei não”.
- Pois, num é mulher encontraram um despacho na avenida e nele está o nome de muita gente graúda.
- Você já perguntou a teu velho sobre isso? O povo num diz que ele é sabido?
- Não, perguntei não. Encerrou a conversa dona Germana.
Dona Germana retorna ao interior de sua residência e trava mais uma prosa com seu Vasconcelos.
- Tá vendo homem. O povo tá dizendo que você é sabido. - Vasconcelos! Tenha fé em Deus, homem! Desembucha! O que é aquilo na praça?
O velho Vasconcelos Araújo coça sua barba branca e abre a sua boca com pouquíssimos dentes e viaja ao seu passado. Era 1987, Tobias estava de vento em popa, e Vasconcelos tinha sessenta anos. Ele recordou-se da antiga feira da coruja, da enorme quantidade de barracas e vendedores de todos os cantos do estado. As ruas menos movimentadas ficavam cheias de ônibus da Bahia. As pessoas circulando com sacolas na mão e muita esperança em seus corações. Os comerciantes trocavam de carro todo ano e a cidade ganhava prestígio econômico e político no estado. Mas não era só coisa boa não. Havia uma enorme quantidade de falidos e desesperançados andando sem rumo nos becos e vielas da cidade. Naquela época houve muitos casos de suicídio e de mulheres que abandonaram a família para tentar a vida de outra forma.
- Seu Vasconcelos minha menina Natália está com quebrante, não dá para o senhor rezar nela não?
- Dá minha filha traga ela às duas.
Vasconcelos era um rezador famoso na cidade. Um homem de caridade a flor da pele. Muitas foram as famílias que ficaram devendo a ele esse favor divino.
“Em nome da Virgem Santíssima, em nome de Nosso Senhor, saia dessa moça todo quebrante, perturbação, obra do mal”. “Salve a pemba, salve a jurema!” “Tá melhor minha filha?” Quem não conhecia essas palavras mágicas do velho rezador da Rua Itabaianinha? Vasconcelos recordou os tempos em que em Tobias as pessoas não fechavam as portas porque não havia ladrão na cidade. Aquele tempo fora muito bom, dizia o velho rezador.
- Vasconcelos!
- Ham?
- Estava a onde? Deixou-me, aqui, falando sozinha?
- Eu tava me lembrando do passado, você não quer que eu diga o que é aquilo?
Vasconcelos lembrou-se de Coronga. Este era um bruxo antigo que morava na Bahia próximo ao Candial. Coronga era especialista na magia com a cabeça de porco. Era sabido pelo povo que ele tinha uma enorme lista de pessoas afetadas por sua magia.
- Vasconcelos, esse Coronga seu amigo é do mal?
- Sei não.
- Mas ele não faz o mal?
- O que é o mal?
- Sei lá meu velho!
- Então? Se você pede um benefício, este atinge o outro, num é bom para você e ruim para o outro. Todo dia nascem e morrem pessoas, afinal, o dia foi bom ou mal?
- Sei não seu Vasconcelos estas coisas são muito complicadas.
- Eu só queria que o senhor segurasse esse homem dentro de casa, pois, ele está muito namorador.
- Num é minha filha que direito tem você de trancar alguém dentro de casa? O seu bem é mal para alguém, num é?
A jovem saiu das lembranças do rezador por um instante. A mente do velho Vasconcelos andava em tempos muito distantes agora. Ele via a Vila de Campos de 1956. A cidade era pequena e as pessoas mais próximas das outras. Ele lembrou-se de uma velha profecia de um feiticeiro da Lagoa Redonda:
“Chegará um dia em que algumas mulheres de bem de Tobias trairão seus maridos na avenida sete”.
- Será? Germana!
- Estou aqui, desembucha!
- Deve ser a profecia de seu Feliciano, o feiticeiro da Lagoa Redonda. Ele havia jurado que um dia algumas mulheres de bem de Tobias trairiam seus maridos em frente à praça do cruzeiro.
- Que nada rapaz! Está com conversa fiada!
- Então num sei não! Calou-se o velho rezador.
A praça do cruzeiro estava lotada de curiosos para ver o despacho. Tobias, mesmo nos dias modernos, não estava habituada com essas coisas. Tinha seus macumbeiros, mas, tudo bem escondido. Até que se prove o contrário todos eram cristãos autênticos. Ninguém ousava pegar no despacho. O sol foi esquentando, as pessoas foram passando pelo local e a multidão se avolumava. Quem pegaria no despacho para tirá-lo do local. Chamaram o padre, este disse que tinha uma missa para rezar. Chamaram alguns pastores, estes não puderam vir. “E agora?” Perguntou Clemente, um trabalhador da padaria ao lado do restaurante. “Chamem a polícia!” Disse Miranir, vendedora da Avon que passava pelo local. Os reportares das rádios locais vieram para a cobertura do acontecimento. “Isso é um absurdo!” Dizia o âncora do programa “A hora da verdade” “Não temos mais paz!” Disse o prefeito apoiando seus eleitores numa hora muito difícil. Enquanto o povo resolve sobre o que fazer com o despacho uma criança de cinco anos solta-se da mão de sua genitora e corre para o despacho pegando a rosa vermelha da Pomba Gira. O povo grita unânime: “Não! Pelo amor de Deus!” a criança corre com a rosa na mão por entre os adultos e se esconde debaixo de uma carreta de uma transportadora. Nesse instante o povo atônito começa novamente as suas conjecturas.
- Tá vendo? O diabo usou a inocência de uma criança. Disse Eduarda que trabalha no fórum.
- Pois num foi mulher, coitada da criança! Concordou Tereza, uma dona de casa.
- Isso num tem nada a ver não. Deus guarda as crianças inocentes. Disse Pedro, um torneiro mecânico.
- Rapaz tudo tem um propósito debaixo do céu. Esse foi o argumento de Paulo, um adventista do sétimo dia.
- Deve ter sido o carma da criança. Argumentou Herculano Andrade, líder do centro espírita cavaleiros da luz.
As opiniões eram muitas, e o sol já estava no meio do céu e nada do despacho ser retirado do lugar. Todos que passavam diziam alguma coisa. Cada um segundo seu mundo interior. A tarde entrou e o tempo ficou pesado de nuvens. As pessoas foram se dispersando para suas casas. As nuvens cinzentas anunciavam que haveria trovoada em Tobias. Era costume na época colocarem plásticos nas janelas em tempo de trovoada por que a chuva era acompanhada de ventos e a água entrava nas casas. Todo mundo no seu lugar, e o despacho no mesmo local sem ser removido, exceto uma pequena rosa vermelha jogada no calçamento da avenida sete. Os trovões ribombaram no céu do sertão. As mulheres cobriram os espelhos com um pano, “É para não atrair raios”. Disse Almerinda Góis, mulher de Gustavo da Exatoria.
- Vasconcelos! O povo foi embora e não tirou o despacho do meio da rua. Tenha fé em Deus homem! Faça alguma coisa para aliviar a dor do povo! Disse Germana um tanto irritada. Vasconcelos foi para o quintal em busca de seu cachimbo que ele ganhou quando esteve na aldeia indígena que fica no município de Colégio nas Alagoas. O cachimbo estava sobre sua pedra sagrada. O velho gostava de sentar naquela pedra no final da tarde para fazer suas orações aos Orixás. E aproveitava para dar umas cachimbadas e meditar sobre o sentido da vida, ou os sentidos que a vida pode ter como dizia ele. A chuva começou a cair fina, as folhas do pé de sapoti e do pé de carambola não a deixavam incomodar o velho rezador em sua reflexão sobre o ocorrido.
- Pai Joaquim, será que aqui tem algum maluco que arria ebó no meio da rua?
- Tem, meu fio.
- E que diacho é isso meu velho?
- É o povo que pediu dinheiro, sorte no amor, e sucesso na vida.
- Mas por que arriar logo na encruzilhada da avenida principal da cidade?
- O rapaz achou que fazendo assim ia ajudar a todos uma vez que as lojas estão todas por ali.
- Mas que diacho meu velho! Assustou o povo!
- Mas num foi o povo quem pediu?
- É. Sendo assim, por que o povo estranha o que conhece?
- É a natureza humana, num é Vasconcelos?
- É, meu velho...
Um forte trovão despertou Vasconcelos do sonho e as grossas gotas de água caíram pesadas sobre o corpo cansado do velho Babalaô conhecido como “rezador Vasconcelos”. A chuva veio impiedosa e levou tudo que estava em seu caminho. Desfez o ebó, a farofa, as rosas, os cigarros, os charutos, tudo foi levado pela enchente que cobriu toda a antiga Vila de Campos. As casas foram inundadas, os plásticos para nada serviram e após o dilúvio as pessoas se ocuparam em limpar suas casas e fofocar sobre a chuva.
- Nunca mais havia chovido assim no mês de Santana.
- Pois num é mulher!
- Será que foi a mão de Deus?
- Deve ter sido, né.
- Será que morreu alguém?
- Que nada, se tivesse morrido a gente já sabia. Aqui as notícias correm rápido.
- Molhou a minha casa toda.
- A minha também.
A cidade voltou ao normal. Todo mundo foi fazer alguma coisa. O despacho a chuva o levou e até hoje não se sabe quem o fez. Será?
- Vasconcelos!
- Sim, mulher, estou no quintal!
- De novo homem, no quintal?
- Mulher deixa de besteira e traz o pinico que voltei a ficar ruim...
- Por que Vasconcelos?
- Porque isso é coisa para ficar guardada!
- Por que Vasconcelos?
- Porque tem de ser assim, entendeu?
- Não!
- Então, traz o pinico aí, por favor, que a coisa tá ruim!
- Você é um cagão seu velho maldito!
- O que? Mulher se conforme pelo amor de Deus!
O dia havia amanhecido em Tobias Barreto. As mulheres estavam varrendo as calçadas e comprando leite. Entre uma coisa e outra, um dedo de prosa sobre a vida dos outros. A Rua Itabaianinha, de manhã cedo, tem jeito de gente. Há uma efervescência de vida. As pessoas saem de casa em busca do que fazer e assim é por toda a antiga Vila de Campos. Tobias Barreto se tornou em um centro comercial na zona sul do estado de Sergipe. Muitos baianos e pessoas de outras cidades sergipanas e de outros estados do Nordeste vêm fazer compras em Tobias. A antiga Vila de Campos do finado poeta Tobias Barreto agora leva o seu nome, em homenagem a sua ilustre pessoa. Vasconcelos de Araujo Dantas era um tobiense da gema. O velho é um arquivo de estórias de um passado ido, porém, bem presente nos arquétipos locais. Sua mulher, dona Germana Alves, havia conversado com Liliane, sua vizinha e amiga de fofocas, sobre o achado daquela manhã. Conta o povo, e aqui, a voz do povo é a voz de Deus, que encontraram um grande despacho de macumba na encruzilhada da Sete de Junho em frente ao Restaurante Trindade. O despacho continha nomes de autoridades e fotografias de mulheres da sociedade.
- Liliane, mulher, você já tá sabendo do despacho de macumba? O sangue de Jesus tem poder!
- Eu ouvi alguma coisa, mas, num to sabendo, não! Disse a moça com um ar de “num sei não”.
- Pois, num é mulher encontraram um despacho na avenida e nele está o nome de muita gente graúda.
- Você já perguntou a teu velho sobre isso? O povo num diz que ele é sabido?
- Não, perguntei não. Encerrou a conversa dona Germana.
Dona Germana retorna ao interior de sua residência e trava mais uma prosa com seu Vasconcelos.
- Tá vendo homem. O povo tá dizendo que você é sabido. - Vasconcelos! Tenha fé em Deus, homem! Desembucha! O que é aquilo na praça?
O velho Vasconcelos Araújo coça sua barba branca e abre a sua boca com pouquíssimos dentes e viaja ao seu passado. Era 1987, Tobias estava de vento em popa, e Vasconcelos tinha sessenta anos. Ele recordou-se da antiga feira da coruja, da enorme quantidade de barracas e vendedores de todos os cantos do estado. As ruas menos movimentadas ficavam cheias de ônibus da Bahia. As pessoas circulando com sacolas na mão e muita esperança em seus corações. Os comerciantes trocavam de carro todo ano e a cidade ganhava prestígio econômico e político no estado. Mas não era só coisa boa não. Havia uma enorme quantidade de falidos e desesperançados andando sem rumo nos becos e vielas da cidade. Naquela época houve muitos casos de suicídio e de mulheres que abandonaram a família para tentar a vida de outra forma.
- Seu Vasconcelos minha menina Natália está com quebrante, não dá para o senhor rezar nela não?
- Dá minha filha traga ela às duas.
Vasconcelos era um rezador famoso na cidade. Um homem de caridade a flor da pele. Muitas foram as famílias que ficaram devendo a ele esse favor divino.
“Em nome da Virgem Santíssima, em nome de Nosso Senhor, saia dessa moça todo quebrante, perturbação, obra do mal”. “Salve a pemba, salve a jurema!” “Tá melhor minha filha?” Quem não conhecia essas palavras mágicas do velho rezador da Rua Itabaianinha? Vasconcelos recordou os tempos em que em Tobias as pessoas não fechavam as portas porque não havia ladrão na cidade. Aquele tempo fora muito bom, dizia o velho rezador.
- Vasconcelos!
- Ham?
- Estava a onde? Deixou-me, aqui, falando sozinha?
- Eu tava me lembrando do passado, você não quer que eu diga o que é aquilo?
Vasconcelos lembrou-se de Coronga. Este era um bruxo antigo que morava na Bahia próximo ao Candial. Coronga era especialista na magia com a cabeça de porco. Era sabido pelo povo que ele tinha uma enorme lista de pessoas afetadas por sua magia.
- Vasconcelos, esse Coronga seu amigo é do mal?
- Sei não.
- Mas ele não faz o mal?
- O que é o mal?
- Sei lá meu velho!
- Então? Se você pede um benefício, este atinge o outro, num é bom para você e ruim para o outro. Todo dia nascem e morrem pessoas, afinal, o dia foi bom ou mal?
- Sei não seu Vasconcelos estas coisas são muito complicadas.
- Eu só queria que o senhor segurasse esse homem dentro de casa, pois, ele está muito namorador.
- Num é minha filha que direito tem você de trancar alguém dentro de casa? O seu bem é mal para alguém, num é?
A jovem saiu das lembranças do rezador por um instante. A mente do velho Vasconcelos andava em tempos muito distantes agora. Ele via a Vila de Campos de 1956. A cidade era pequena e as pessoas mais próximas das outras. Ele lembrou-se de uma velha profecia de um feiticeiro da Lagoa Redonda:
“Chegará um dia em que algumas mulheres de bem de Tobias trairão seus maridos na avenida sete”.
- Será? Germana!
- Estou aqui, desembucha!
- Deve ser a profecia de seu Feliciano, o feiticeiro da Lagoa Redonda. Ele havia jurado que um dia algumas mulheres de bem de Tobias trairiam seus maridos em frente à praça do cruzeiro.
- Que nada rapaz! Está com conversa fiada!
- Então num sei não! Calou-se o velho rezador.
A praça do cruzeiro estava lotada de curiosos para ver o despacho. Tobias, mesmo nos dias modernos, não estava habituada com essas coisas. Tinha seus macumbeiros, mas, tudo bem escondido. Até que se prove o contrário todos eram cristãos autênticos. Ninguém ousava pegar no despacho. O sol foi esquentando, as pessoas foram passando pelo local e a multidão se avolumava. Quem pegaria no despacho para tirá-lo do local. Chamaram o padre, este disse que tinha uma missa para rezar. Chamaram alguns pastores, estes não puderam vir. “E agora?” Perguntou Clemente, um trabalhador da padaria ao lado do restaurante. “Chamem a polícia!” Disse Miranir, vendedora da Avon que passava pelo local. Os reportares das rádios locais vieram para a cobertura do acontecimento. “Isso é um absurdo!” Dizia o âncora do programa “A hora da verdade” “Não temos mais paz!” Disse o prefeito apoiando seus eleitores numa hora muito difícil. Enquanto o povo resolve sobre o que fazer com o despacho uma criança de cinco anos solta-se da mão de sua genitora e corre para o despacho pegando a rosa vermelha da Pomba Gira. O povo grita unânime: “Não! Pelo amor de Deus!” a criança corre com a rosa na mão por entre os adultos e se esconde debaixo de uma carreta de uma transportadora. Nesse instante o povo atônito começa novamente as suas conjecturas.
- Tá vendo? O diabo usou a inocência de uma criança. Disse Eduarda que trabalha no fórum.
- Pois num foi mulher, coitada da criança! Concordou Tereza, uma dona de casa.
- Isso num tem nada a ver não. Deus guarda as crianças inocentes. Disse Pedro, um torneiro mecânico.
- Rapaz tudo tem um propósito debaixo do céu. Esse foi o argumento de Paulo, um adventista do sétimo dia.
- Deve ter sido o carma da criança. Argumentou Herculano Andrade, líder do centro espírita cavaleiros da luz.
As opiniões eram muitas, e o sol já estava no meio do céu e nada do despacho ser retirado do lugar. Todos que passavam diziam alguma coisa. Cada um segundo seu mundo interior. A tarde entrou e o tempo ficou pesado de nuvens. As pessoas foram se dispersando para suas casas. As nuvens cinzentas anunciavam que haveria trovoada em Tobias. Era costume na época colocarem plásticos nas janelas em tempo de trovoada por que a chuva era acompanhada de ventos e a água entrava nas casas. Todo mundo no seu lugar, e o despacho no mesmo local sem ser removido, exceto uma pequena rosa vermelha jogada no calçamento da avenida sete. Os trovões ribombaram no céu do sertão. As mulheres cobriram os espelhos com um pano, “É para não atrair raios”. Disse Almerinda Góis, mulher de Gustavo da Exatoria.
- Vasconcelos! O povo foi embora e não tirou o despacho do meio da rua. Tenha fé em Deus homem! Faça alguma coisa para aliviar a dor do povo! Disse Germana um tanto irritada. Vasconcelos foi para o quintal em busca de seu cachimbo que ele ganhou quando esteve na aldeia indígena que fica no município de Colégio nas Alagoas. O cachimbo estava sobre sua pedra sagrada. O velho gostava de sentar naquela pedra no final da tarde para fazer suas orações aos Orixás. E aproveitava para dar umas cachimbadas e meditar sobre o sentido da vida, ou os sentidos que a vida pode ter como dizia ele. A chuva começou a cair fina, as folhas do pé de sapoti e do pé de carambola não a deixavam incomodar o velho rezador em sua reflexão sobre o ocorrido.
- Pai Joaquim, será que aqui tem algum maluco que arria ebó no meio da rua?
- Tem, meu fio.
- E que diacho é isso meu velho?
- É o povo que pediu dinheiro, sorte no amor, e sucesso na vida.
- Mas por que arriar logo na encruzilhada da avenida principal da cidade?
- O rapaz achou que fazendo assim ia ajudar a todos uma vez que as lojas estão todas por ali.
- Mas que diacho meu velho! Assustou o povo!
- Mas num foi o povo quem pediu?
- É. Sendo assim, por que o povo estranha o que conhece?
- É a natureza humana, num é Vasconcelos?
- É, meu velho...
Um forte trovão despertou Vasconcelos do sonho e as grossas gotas de água caíram pesadas sobre o corpo cansado do velho Babalaô conhecido como “rezador Vasconcelos”. A chuva veio impiedosa e levou tudo que estava em seu caminho. Desfez o ebó, a farofa, as rosas, os cigarros, os charutos, tudo foi levado pela enchente que cobriu toda a antiga Vila de Campos. As casas foram inundadas, os plásticos para nada serviram e após o dilúvio as pessoas se ocuparam em limpar suas casas e fofocar sobre a chuva.
- Nunca mais havia chovido assim no mês de Santana.
- Pois num é mulher!
- Será que foi a mão de Deus?
- Deve ter sido, né.
- Será que morreu alguém?
- Que nada, se tivesse morrido a gente já sabia. Aqui as notícias correm rápido.
- Molhou a minha casa toda.
- A minha também.
A cidade voltou ao normal. Todo mundo foi fazer alguma coisa. O despacho a chuva o levou e até hoje não se sabe quem o fez. Será?
- Vasconcelos!
- Sim, mulher, estou no quintal!
- De novo homem, no quintal?
- Mulher deixa de besteira e traz o pinico que voltei a ficar ruim...
sexta-feira, 11 de maio de 2018
ZÉ DE JESUS E A JUMENTA FALANTE
Diz a Bíblia, e ela não mente que num passado bem distante o bicho falou com um profeta atordoado chamado Balaão. Pois, meus amigos, meu espírito andou pela Vila de Campos em busca de um Fiel. Sim, senhor; é muito fácil dizer-se crente; estar bem bonito ou bonita na igreja; barbinha feita, ou o cabelo passado na chapa. Vi com meus dois olhos que, embora míopes, pude enxergar muita coisa braba nesses sertões no meio do povo conhecido como “O povo de Deus”. Era 1987. A Velha Vila de Campos fervia de gente de todo canto. Parecia que, aqui, era o lugar de encontro de gentes de várias partes do sertão. Eu era um modesto contador de histórias. Minha pessoa estava sentada num bar na Avenida João Alves quando chegou um senhor de cabeça branca, barba branca, e pele branca, e se sentou à minha mesa; o homem me olhou nos olhos e me disse: “Contador de histórias, conte sobre o fiel e a jumenta que falou”. Puxei a cadeira pra trás e disse ao moço: “Se de um Fiel a Deus já é difícil contar quanto mais uma jumenta falar”. O moço coçou o coro rosado da testa e me disse olhando em meus olhos sem piscar um instante: “Então durma que eu te falo”.
No alto da boiadeira nasceu um menino que lá se criou até o final dos anos 60. Um dia de sol quente uma jaracuçu picou seu pai. Este era um homem bom que temia a Deus e respeitava a todos. Sua mulher, dona Virginia depois da morte de seu velho definhou; três anos depois, a mulher desceu a cova e se juntou ao seu marido. O único filho do casal foi morar na casa de dona Austera, uma senhora muito católica; uma mulher de que ninguém podia dizer nada de errado.
- Zé Jesus, hoje chega teu carro de frete pra você trabalhar na feira e na frente do supermercado, assim você vai ganhar uns trocados para ter suas coisas. Zé passou as mãos nos olhos azuis arredondados, depois pôs uma mão no bolso; olhou para tia e disse.
- Graças a Deus, agora vou poder comprar minhas coisinhas. E foi isso; Zé começou com um carro de frete, depois, pôs uma barraquinha de lanches, e mais na frente, já nos anos 80, o homem era dono de uma lanchonete bem no meio da feira. Zé ganhava para si, e para ajudar sua tia que na época era uma mulher idosa precisada de cuidados. Zé tinha três casas de aluguel, dois chãos, e um chevette 81 modelo sedan. Mas o homem tinha um ponto fraco. O maldito jogo. Zé apostava em tudo e jogava baralho nas sextas feiras numa casa no final da Getúlio Vargas. Certa noite, o jogo foi até tarde, Zé ganhava e com isso se atreveu a uma jogada de mestre: “Aposto tudo nessa mão”. “Mas, Zé, se acalme, vá para casa, você num já tem seu dinheiro?” Disse um amigo anão, natural de Itabaianinha. Zé insistiu e perdeu tudo. Não se satisfez com a derrota e apostou as casas; Zé perdeu todas; o moço tornou-se compulsivo e decidiu apostar chevettinho; o perdeu também. Assim, Zé perdeu tudo numa mesa de jogo, e foi morar no beco do matadouro antigo, numa casa alugada por um amigo. O tempo passou e Zé perdeu o amigo. O homem dormiu e amanheceu morto. Diz o povo que foi o vento. “E agora, Zé Jesus?” perguntou a si mesmo o homem da boiadeira. Zé virou morador de rua. Todos os dias, como alma penada, o homem andava pela cidade pedindo uns trocados que ele dividia entre a comida e a pinga que não podia faltar.
- Isso é vida de gente disse uma voz no antigo Parque dos Missionários.
- Mas quem fala comigo? Perguntou Zé com a voz etílica.
- Rapaz, você um homem descente cuja família ninguém se diz um agravo, nessa vida?
- Oh, seu filho da peste, vá cuidar de sua vida!
- Então, tá bom! Eu vou. Zé ouviu o barulho de casco de bicho pisando no chão.
- Pare aí moço!
- O animal parou.
- Oxente onde está o homem?
- Que homem; fui eu que falei contigo. Zé andou uns metros tropegamente e com dificuldade apanhou um pedra e a tangeu na jumenta. “To ficando doido, nunca vi jumenta falar!” Ali, mesmo ele arriou e adormeceu.
Nas segundas feiras, era costume de Zé ir à feira da Coruja para esmolar. Mas, aquele seria um dia muito especial para ele. Estava na feira o pregador Agenor. Agenor dos Santos anunciava o retorno do Cristo e ao fazer isso, ele citou a seguinte passagem: “Se Deus falou bela boca de uma jumenta quanto mais ele fará por ti”. “Opa!” Pensou Zé Jesus. “O bicho era uma jumenta sem ninguém montado, então, uma jumenta falou comigo!” “Terá sido Deus?” Concluiu o raciocínio o jogador de cartas Zé Jesus. Agenor continuava sua pregação com muita sinceridade na caixa do peito: “Se hoje ouvirdes a sua voz, e Nele Credes; Serás salvo”. Zé Jesus saiu do meio do povo tropeçando por causa da cachaça; e foi tombando e caiu aos pés do pregador que prontamente disse-lhe: “Você quer aceitar Jesus?” Zé respondeu: “Aceitxo, sim senhor!” Desse dia em diante Zé Jesus virou crente.
O irmão Zé melhorou a leitura, aprendeu a escrever de tudo e de vez em quando pregava numa congregação perto do lugarejo Curtume. Zé, agora, era um homem respeitado novamente. Nunca mais jogou, ou bebeu cachaça, nem raparigou, nem roubou porco ou galinha de sua vizinhança. Quando passava com seu terno cor de abóbora, o povo das calçadas dizia: “Olha lá, olha!” “Aprontou e agora é santo!” Mas Zé não olhava para os lados como ensina o salmo sagrado, nem perdia seu tempo com as coisas desse mundo. Sua vida era a vida de um fiel de Deus. Mas, nesse mundo onde o cão anda solto, as coisas nem sempre permanecem em paz. O chifrudo resolveu tentar Zé Jesus.
- Zé; vou deixar a igreja! Disse Agenor com muita tristeza.
- Mas, por que meu irmão?
- O Pastor não me dar oportunidade nem reconhece meu trabalho na feira. Ele comentou que sou um pirado.
- Pirado! O sangue de Jesus tem poder! A saída de Agenor muito entristeceu o irmão Zé. Por causa disso ele foi ao Missionário orar. “Mas, meu Deus como pode uma coisa dessas, uma pessoa como Agenor sem o direito de prega a Palavra!” O vento assobiava nos pés de eucaliptos, os patos nadavam mansamente na lagoa do Missionário. Não havia ninguém lá, exceto, o pobre Zé. De repente, Zé entorpecido pelo clima bucólico do lugar ouve um rinchado de jumento. “Oxente, será o bicho que veio falar comigo?”
- Zé; traíram o mestre, mas, mesmo assim ele não fugiu de seu intento.
- Mas, dona jumenta, eu me converti por meio de Agenor; sem ele eu vou sair de lá. Com as palavras da jumenta profeta, Zé se conformou e continuou sua vida com Deus e ganhava muitas pessoas para Ele. Na loca que ficava na raiz de pau de um juazeiro, na margem do Rio Jabiberi uma cobra mostrava a língua ao tempo; a bicha estava faminta.
Zé se conformou com a saída de Agenor. Sua igreja cresceu e entraram muitos jovens, entre eles umas moças que vieram do mundo das drogas. “A gente vai ter que receber esse pessoal com uma estratégia inovadora”. Disse o pastor Felisbelo. A igreja pôs uma banda de Rock Gospel. O povo nem sabia o que era isso. A confusão tomou conta da igreja.
- Pastor isso é coisa do mundo! Disse o diácono Peixoto - aquele que sentava à porta da igreja e fingia estar lendo a Bíblia para dar suas cochiladas.
- Eu li num livro evangélico que Rock é do satanás. Disse a irmã chefe de oração. Raimunda nunca usou calça comprida; sua roupa era sempre um vestido folgado em cima e bem apertado nos quadris. Minha humilde pessoa, por vezes, pensou que o vestido de Raimunda se rasgaria quando ela se sentasse no banco da igreja.
- Olhe pastor, não devemos imitar o mundo! Falou com tom grave o evangelista Luís – um ex – gay que cuidava do grupo de adolescentes “Jovens transformados”. O pastor Felisbelo ficou muito irritado com a reação da igreja, contudo, o amor pelas as almas, o fez continuar seu projeto. Em sete meses, a igreja tinha sessenta jovens matriculados na classe de catecúmenos. Mas, o irmão Zé se entristeceu novamente com o que via e ouvia. Essa geração de crente não lia a Bíblia, e nem orava. De fato, eles queriam viver os mesmos costumes de antes. O que mudava era a forma. Zé foi orar na beira do Rio Jabiberi. “Senhor, eu estou vendo que está tudo mudando; meu Pai, o que está acontecendo?” A jumenta chega de mansinho e dá um susto em Zé.
- Oxente jumenta profeta! Tá me fazendo medo?
- Num é assim que chega o tentador? De pontinha de pé?
- É dona Jumenta. Estou muito triste com que estou vendo. Agora tem de tudo na casa de Deus, menos Ele. Se eu vier para beira do rio eu num vou puder falar com Ele.
- Meu filho, é sabido que seria assim, mas, o fiel persevera até o fim. A jumenta falou e saiu rinchando dando uns pinotes com as patas traseiras. “Oxente!” “O que houve com ela?” Zé olhou adiante e viu a loca da cobra.
A igreja cresceu e com seu crescimento veio o interesse dos políticos: “Felisbelo devia sair vereador pelo nosso partido, num é Dr. Frank? – o médico da família” “É, sim, senhor”. Felisbelo foi eleito vereador. A igreja virou alvo das antipatias e simpatias políticas do município. Com isso Zé tornou a orar a deus e disse: “Senhor, para o mundo eu num volto, mas, aqui, num fico, não!” Após a oração contrita em sua residência, O fiel pega no sono, e acorda no outro dia com um rinchado de uma jumenta à sua porta. “Com a paciência salvareis vossas almas”. O animal irracional roçou a testa no peito de Zé. Dona Sebastiana, crente de Sambaíba há muitos anos disse: “Zé tá de chamego com uma jumenta esquisita”. “Tá vendo, diz que ora; crente safado!” Sete dias se passaram, durante os mesmos, o povo de Tobias e de Sambaíba comentava o caso do chamego entre Zé e uma jumenta. Até que a caluniadora teve um engasgo com um osso de galinha e bateu as botas. Diz o povo que a língua dela estufou saindo da boca mais de um palmo. Zé suportou a calúnia jejuando todos os dias até 5 da tarde. No final dos mesmos a bendita jumenta veio novamente.
- Zé, disseram que o mestre foi caluniado e suportou tudo. Ele falava até com as putas. Sua pessoa está muito mimada.
- Mas dona jumenta está escrito que “longe de vós toda aparência do mal”. Acho que eu e sua pessoa num pode mais se ver não. A jumenta saiu triste e desceu para as bandas de Riachão. Passou um tempão até que Felisbelo teve um chamado do Senhor para ter um programa de radio: “Ministério Vencedores”. A igreja comprou, primeiramente, uma hora, depois, duas horas, depois, três horas. Quanto mais horas; mais o povo dava oferta e mais a igreja crescia, e mais Felisbelo ficava rico. A igreja cresceu tanto que os antigos crentes desapareceram no meio dos novos; estes trouxeram cada um seus terrores. “A irmã Carla está prenha do irmão Francisco!” “Rapaz, num acredito não!” “Hoje à noite no culto, olhe para o bucho dela!” De fato, a mulher estava escondendo seu pecado, mas, não teve jeito. Alguns irmãos saíram escandalizados da igreja: “Pregam uma coisa e a gente vê outra”. Zé tentou desfazer a coisa, contudo, o povo tinha a prova material da contradição. “Vou falar com a jumenta e ver o que ela tem a dizer”. Pensou o homem de Deus.
- Dona jumenta qual o motivo da contradição?
- Que contradição, Zé?
- Na pregação dizemos que as pessoas aceitem a Cristo, mas, uma ou duas num universo de centenas vivem mais ou menos alguma coisa.
- É por que as igrejas têm seu foco na quantidade. Veja que o Mestre só teve doze discípulos, e mesmo assim, perdeu um. Já pensou se ele tivesse cinquenta milhões?
- Então, dona jumenta eu vou deixar de ser crente!
- E você é crente?
- Eu pensei que você era cristão.
- É só um modo de dizer dona jumenta.
- Mas os modos de dizer refletem os modos ou os modelos da sociedade. Você está vendo a igreja como um crente, um membro de uma seita religiosa.
- Dona jumenta sabe muito! Zé se aproximou para passar a mão na testa do bicho. Em uma moita de macambira estavam três diáconos da igreja para flagrarem Zé no ato de adultério com um animal irracional, uma verdadeira abominação ao Senhor. No outro dia à noite, Zé foi chamado para uma reunião extraordinária de membros da igreja:
- Zé Jesus durante muito tempo foi um servo leal ao senhor. Pregou a Palavra e nada quis para si. De que o acusai vós.
- Flagramos o irmão alisando uma jumenta com a qual ele mantinha encontros regulares. O povo a uma só voz fizeram “Ohhhhhh!” Alguns diziam; “Isso é crente nada!”
- Zé Jesus, o que tens tu a dizer a teu favor? Zé pensou no texto de Pedro que diz que o Mestre ficou calado.
- Teu silêncio é tua condenação, no entanto, minha esposa teve, ontem, um sonho que Jesus entrava aqui montado num jumento. Eu lavo minhas mãos! Mas o povo dizia: “Expulse Zé da igreja!” Zé foi expulso da igreja acusado de ter coito com animal.
“Irmã, Zé orava tanto!”
“Num é mulher, como o diabo é sujo!”
“Mas, logo, uma jumenta!”
“Por que ele não procurou uma mulher!”
“Num foi!”
“Que coisa feia!”
Zé ficou triste; e envergonhado na cidade. Não se falava noutra coisa: “O crente que papou a jumenta” Muitos foram os meses que Zé comia raízes, e frutos silvestres. O homem virou um João Batista.
“Raimundo, Zé tá doido; ele fica nos pastos, lá em baixo, perto da barragem. Dizem que ele rincha, mas, sua namorada não aparece”. Por quarenta dias Zé se alimentou de raízes e mel de abelha. Aqui e ali ela encontrava frutos do campo. Zé orava a Deus e Deus não o respondia, nem a jumenta sabida aparecia. Zé, em desespero, na agonia de sua fé diz para si: “Tornarei a igreja e vou dizer tudo que vejo e penso”. Ao dizer assim, sopra o vento quente do sertão; as folhas secas são erguidas do chão pela força do mesmo. Numa terça feira à noite, Zé Jesus entra na igreja no horário da pregação.
“Hipócritas, arrependei-vos!” “Vixe, o homem tá doido mesmo!” Disse Cleo de Andrade. Uma mulher trajada de roupa bem sensual, que mostrava os contornos da calcinha disse respondendo ao profeta: “Vá se tratar rapaz!” “Vocês pregam o amor entanto, condenam uns aos outros; cada um só pensa em si; vossos pastores só pensam em ouro e prestígio”. Replicou Zé. Felisbelo chamou os diáconos Manfredo, 187cm e Segal, 191cm para acalmarem o irmão possesso. Tentaram expulsar o demônio de Zé pressionando-lhe a cabeça, e segurando-lhe os braços. Zé tentava reagir dizendo: “Eu sou lavado no sangue do Cordeiro”, Os diáconos diziam: “Sai dele satanás!” Quando subitamente ouve-se um rinchado dentro do santuário. Dona Euclides, mulher de Demétrio que era tio de Felisbelo gritou: “A rapariga dele acabou de entrar na casa de Deus!” Todos pararam, os diáconos soltaram Zé que estava exausto e machucado. A jumenta solta um pum e sai pinoteando dentro do santuário. O povo dizia: “Até a jumenta dele está com o cão nos couros!” Chamaram a polícia que veio como um raio. Ao ver o bicho solto na igreja, os policiais disseram: “Chamem os bombeiros, esse não é serviço nosso”. Chamaram os bombeiros que prontamente atendeu aos apelos de Felisbelo. Ao chegarem os bombeiros pediram o formulário do ibama. O pastor, então, disse: “Pelo amor de Deus, parem o bicho, pois, hoje Deus vai falar com a igreja”. “Sem formulário, não podemos fazer nada pastor, lamento”. Disse o tenete José de Arimatéia dos Santos. Um irmão novo convertido perde a paciência e saca um revolver calibre 38 que estava escondido em suas calças. Foi um tiro só; bem no meio da testa do bicho. Zé quando ver sua amiga de fé numa poça de sangue, ouve o bicho dizer: “Em tuas mãos eu entrego o meu espírito”. A jumenta morreu dentro da casa de Deus. O silencio era imenso, se caísse um simples alfinete, ele podia ser ouvido. Por um instante houve paz. Zé Jesus continuava abraçado com a jumenta morta e dava-lhe beijos na testa. As mulheres crentes, embora, emocionadas viram o carinho de Zé pelo animal. Três horas após a morte do animal algo muito estranho aconteceu. A jumenta vai lentamente se transformando em algo diferente. “Mulher, o que é isso?” “Num sei não!” “Rapaz, a jumenta está virando gente”. A jumenta virou um carpinteiro, em suas mãos estavam as chagas sagradas que perdoaram o mundo inteiro. O seu lado direito tinha uma ferida de lança e dela escorria sangue e água. Em sua cabeça uma coroa de espinhos, mas, em seus braços, sim, em seus braços estava Zé de Jesus que acabara de falecer de infarto pela tristeza de ver sua jumenta profeta morta.
Meu humilde espírito se despertou com o estalado dos foguetes na Avenida João Alves. Olhei em todas as direções e o homem que falava comigo havia sumido. Perguntei as horas. O dono do bar me respondeu que eram nove horas da noite. Paguei a conta e fui dar mais uma volta pela cidade. Fui ao cemitério. Não havia ninguém vigiando o lugar. Andei por suas ruas até que achei um túmulo onde estava escrito num pedra de mármore: “Sem profecia o povo se corrompe; descanse em paz irmão Zé de Jesus”.
No alto da boiadeira nasceu um menino que lá se criou até o final dos anos 60. Um dia de sol quente uma jaracuçu picou seu pai. Este era um homem bom que temia a Deus e respeitava a todos. Sua mulher, dona Virginia depois da morte de seu velho definhou; três anos depois, a mulher desceu a cova e se juntou ao seu marido. O único filho do casal foi morar na casa de dona Austera, uma senhora muito católica; uma mulher de que ninguém podia dizer nada de errado.
- Zé Jesus, hoje chega teu carro de frete pra você trabalhar na feira e na frente do supermercado, assim você vai ganhar uns trocados para ter suas coisas. Zé passou as mãos nos olhos azuis arredondados, depois pôs uma mão no bolso; olhou para tia e disse.
- Graças a Deus, agora vou poder comprar minhas coisinhas. E foi isso; Zé começou com um carro de frete, depois, pôs uma barraquinha de lanches, e mais na frente, já nos anos 80, o homem era dono de uma lanchonete bem no meio da feira. Zé ganhava para si, e para ajudar sua tia que na época era uma mulher idosa precisada de cuidados. Zé tinha três casas de aluguel, dois chãos, e um chevette 81 modelo sedan. Mas o homem tinha um ponto fraco. O maldito jogo. Zé apostava em tudo e jogava baralho nas sextas feiras numa casa no final da Getúlio Vargas. Certa noite, o jogo foi até tarde, Zé ganhava e com isso se atreveu a uma jogada de mestre: “Aposto tudo nessa mão”. “Mas, Zé, se acalme, vá para casa, você num já tem seu dinheiro?” Disse um amigo anão, natural de Itabaianinha. Zé insistiu e perdeu tudo. Não se satisfez com a derrota e apostou as casas; Zé perdeu todas; o moço tornou-se compulsivo e decidiu apostar chevettinho; o perdeu também. Assim, Zé perdeu tudo numa mesa de jogo, e foi morar no beco do matadouro antigo, numa casa alugada por um amigo. O tempo passou e Zé perdeu o amigo. O homem dormiu e amanheceu morto. Diz o povo que foi o vento. “E agora, Zé Jesus?” perguntou a si mesmo o homem da boiadeira. Zé virou morador de rua. Todos os dias, como alma penada, o homem andava pela cidade pedindo uns trocados que ele dividia entre a comida e a pinga que não podia faltar.
- Isso é vida de gente disse uma voz no antigo Parque dos Missionários.
- Mas quem fala comigo? Perguntou Zé com a voz etílica.
- Rapaz, você um homem descente cuja família ninguém se diz um agravo, nessa vida?
- Oh, seu filho da peste, vá cuidar de sua vida!
- Então, tá bom! Eu vou. Zé ouviu o barulho de casco de bicho pisando no chão.
- Pare aí moço!
- O animal parou.
- Oxente onde está o homem?
- Que homem; fui eu que falei contigo. Zé andou uns metros tropegamente e com dificuldade apanhou um pedra e a tangeu na jumenta. “To ficando doido, nunca vi jumenta falar!” Ali, mesmo ele arriou e adormeceu.
Nas segundas feiras, era costume de Zé ir à feira da Coruja para esmolar. Mas, aquele seria um dia muito especial para ele. Estava na feira o pregador Agenor. Agenor dos Santos anunciava o retorno do Cristo e ao fazer isso, ele citou a seguinte passagem: “Se Deus falou bela boca de uma jumenta quanto mais ele fará por ti”. “Opa!” Pensou Zé Jesus. “O bicho era uma jumenta sem ninguém montado, então, uma jumenta falou comigo!” “Terá sido Deus?” Concluiu o raciocínio o jogador de cartas Zé Jesus. Agenor continuava sua pregação com muita sinceridade na caixa do peito: “Se hoje ouvirdes a sua voz, e Nele Credes; Serás salvo”. Zé Jesus saiu do meio do povo tropeçando por causa da cachaça; e foi tombando e caiu aos pés do pregador que prontamente disse-lhe: “Você quer aceitar Jesus?” Zé respondeu: “Aceitxo, sim senhor!” Desse dia em diante Zé Jesus virou crente.
O irmão Zé melhorou a leitura, aprendeu a escrever de tudo e de vez em quando pregava numa congregação perto do lugarejo Curtume. Zé, agora, era um homem respeitado novamente. Nunca mais jogou, ou bebeu cachaça, nem raparigou, nem roubou porco ou galinha de sua vizinhança. Quando passava com seu terno cor de abóbora, o povo das calçadas dizia: “Olha lá, olha!” “Aprontou e agora é santo!” Mas Zé não olhava para os lados como ensina o salmo sagrado, nem perdia seu tempo com as coisas desse mundo. Sua vida era a vida de um fiel de Deus. Mas, nesse mundo onde o cão anda solto, as coisas nem sempre permanecem em paz. O chifrudo resolveu tentar Zé Jesus.
- Zé; vou deixar a igreja! Disse Agenor com muita tristeza.
- Mas, por que meu irmão?
- O Pastor não me dar oportunidade nem reconhece meu trabalho na feira. Ele comentou que sou um pirado.
- Pirado! O sangue de Jesus tem poder! A saída de Agenor muito entristeceu o irmão Zé. Por causa disso ele foi ao Missionário orar. “Mas, meu Deus como pode uma coisa dessas, uma pessoa como Agenor sem o direito de prega a Palavra!” O vento assobiava nos pés de eucaliptos, os patos nadavam mansamente na lagoa do Missionário. Não havia ninguém lá, exceto, o pobre Zé. De repente, Zé entorpecido pelo clima bucólico do lugar ouve um rinchado de jumento. “Oxente, será o bicho que veio falar comigo?”
- Zé; traíram o mestre, mas, mesmo assim ele não fugiu de seu intento.
- Mas, dona jumenta, eu me converti por meio de Agenor; sem ele eu vou sair de lá. Com as palavras da jumenta profeta, Zé se conformou e continuou sua vida com Deus e ganhava muitas pessoas para Ele. Na loca que ficava na raiz de pau de um juazeiro, na margem do Rio Jabiberi uma cobra mostrava a língua ao tempo; a bicha estava faminta.
Zé se conformou com a saída de Agenor. Sua igreja cresceu e entraram muitos jovens, entre eles umas moças que vieram do mundo das drogas. “A gente vai ter que receber esse pessoal com uma estratégia inovadora”. Disse o pastor Felisbelo. A igreja pôs uma banda de Rock Gospel. O povo nem sabia o que era isso. A confusão tomou conta da igreja.
- Pastor isso é coisa do mundo! Disse o diácono Peixoto - aquele que sentava à porta da igreja e fingia estar lendo a Bíblia para dar suas cochiladas.
- Eu li num livro evangélico que Rock é do satanás. Disse a irmã chefe de oração. Raimunda nunca usou calça comprida; sua roupa era sempre um vestido folgado em cima e bem apertado nos quadris. Minha humilde pessoa, por vezes, pensou que o vestido de Raimunda se rasgaria quando ela se sentasse no banco da igreja.
- Olhe pastor, não devemos imitar o mundo! Falou com tom grave o evangelista Luís – um ex – gay que cuidava do grupo de adolescentes “Jovens transformados”. O pastor Felisbelo ficou muito irritado com a reação da igreja, contudo, o amor pelas as almas, o fez continuar seu projeto. Em sete meses, a igreja tinha sessenta jovens matriculados na classe de catecúmenos. Mas, o irmão Zé se entristeceu novamente com o que via e ouvia. Essa geração de crente não lia a Bíblia, e nem orava. De fato, eles queriam viver os mesmos costumes de antes. O que mudava era a forma. Zé foi orar na beira do Rio Jabiberi. “Senhor, eu estou vendo que está tudo mudando; meu Pai, o que está acontecendo?” A jumenta chega de mansinho e dá um susto em Zé.
- Oxente jumenta profeta! Tá me fazendo medo?
- Num é assim que chega o tentador? De pontinha de pé?
- É dona Jumenta. Estou muito triste com que estou vendo. Agora tem de tudo na casa de Deus, menos Ele. Se eu vier para beira do rio eu num vou puder falar com Ele.
- Meu filho, é sabido que seria assim, mas, o fiel persevera até o fim. A jumenta falou e saiu rinchando dando uns pinotes com as patas traseiras. “Oxente!” “O que houve com ela?” Zé olhou adiante e viu a loca da cobra.
A igreja cresceu e com seu crescimento veio o interesse dos políticos: “Felisbelo devia sair vereador pelo nosso partido, num é Dr. Frank? – o médico da família” “É, sim, senhor”. Felisbelo foi eleito vereador. A igreja virou alvo das antipatias e simpatias políticas do município. Com isso Zé tornou a orar a deus e disse: “Senhor, para o mundo eu num volto, mas, aqui, num fico, não!” Após a oração contrita em sua residência, O fiel pega no sono, e acorda no outro dia com um rinchado de uma jumenta à sua porta. “Com a paciência salvareis vossas almas”. O animal irracional roçou a testa no peito de Zé. Dona Sebastiana, crente de Sambaíba há muitos anos disse: “Zé tá de chamego com uma jumenta esquisita”. “Tá vendo, diz que ora; crente safado!” Sete dias se passaram, durante os mesmos, o povo de Tobias e de Sambaíba comentava o caso do chamego entre Zé e uma jumenta. Até que a caluniadora teve um engasgo com um osso de galinha e bateu as botas. Diz o povo que a língua dela estufou saindo da boca mais de um palmo. Zé suportou a calúnia jejuando todos os dias até 5 da tarde. No final dos mesmos a bendita jumenta veio novamente.
- Zé, disseram que o mestre foi caluniado e suportou tudo. Ele falava até com as putas. Sua pessoa está muito mimada.
- Mas dona jumenta está escrito que “longe de vós toda aparência do mal”. Acho que eu e sua pessoa num pode mais se ver não. A jumenta saiu triste e desceu para as bandas de Riachão. Passou um tempão até que Felisbelo teve um chamado do Senhor para ter um programa de radio: “Ministério Vencedores”. A igreja comprou, primeiramente, uma hora, depois, duas horas, depois, três horas. Quanto mais horas; mais o povo dava oferta e mais a igreja crescia, e mais Felisbelo ficava rico. A igreja cresceu tanto que os antigos crentes desapareceram no meio dos novos; estes trouxeram cada um seus terrores. “A irmã Carla está prenha do irmão Francisco!” “Rapaz, num acredito não!” “Hoje à noite no culto, olhe para o bucho dela!” De fato, a mulher estava escondendo seu pecado, mas, não teve jeito. Alguns irmãos saíram escandalizados da igreja: “Pregam uma coisa e a gente vê outra”. Zé tentou desfazer a coisa, contudo, o povo tinha a prova material da contradição. “Vou falar com a jumenta e ver o que ela tem a dizer”. Pensou o homem de Deus.
- Dona jumenta qual o motivo da contradição?
- Que contradição, Zé?
- Na pregação dizemos que as pessoas aceitem a Cristo, mas, uma ou duas num universo de centenas vivem mais ou menos alguma coisa.
- É por que as igrejas têm seu foco na quantidade. Veja que o Mestre só teve doze discípulos, e mesmo assim, perdeu um. Já pensou se ele tivesse cinquenta milhões?
- Então, dona jumenta eu vou deixar de ser crente!
- E você é crente?
- Eu pensei que você era cristão.
- É só um modo de dizer dona jumenta.
- Mas os modos de dizer refletem os modos ou os modelos da sociedade. Você está vendo a igreja como um crente, um membro de uma seita religiosa.
- Dona jumenta sabe muito! Zé se aproximou para passar a mão na testa do bicho. Em uma moita de macambira estavam três diáconos da igreja para flagrarem Zé no ato de adultério com um animal irracional, uma verdadeira abominação ao Senhor. No outro dia à noite, Zé foi chamado para uma reunião extraordinária de membros da igreja:
- Zé Jesus durante muito tempo foi um servo leal ao senhor. Pregou a Palavra e nada quis para si. De que o acusai vós.
- Flagramos o irmão alisando uma jumenta com a qual ele mantinha encontros regulares. O povo a uma só voz fizeram “Ohhhhhh!” Alguns diziam; “Isso é crente nada!”
- Zé Jesus, o que tens tu a dizer a teu favor? Zé pensou no texto de Pedro que diz que o Mestre ficou calado.
- Teu silêncio é tua condenação, no entanto, minha esposa teve, ontem, um sonho que Jesus entrava aqui montado num jumento. Eu lavo minhas mãos! Mas o povo dizia: “Expulse Zé da igreja!” Zé foi expulso da igreja acusado de ter coito com animal.
“Irmã, Zé orava tanto!”
“Num é mulher, como o diabo é sujo!”
“Mas, logo, uma jumenta!”
“Por que ele não procurou uma mulher!”
“Num foi!”
“Que coisa feia!”
Zé ficou triste; e envergonhado na cidade. Não se falava noutra coisa: “O crente que papou a jumenta” Muitos foram os meses que Zé comia raízes, e frutos silvestres. O homem virou um João Batista.
“Raimundo, Zé tá doido; ele fica nos pastos, lá em baixo, perto da barragem. Dizem que ele rincha, mas, sua namorada não aparece”. Por quarenta dias Zé se alimentou de raízes e mel de abelha. Aqui e ali ela encontrava frutos do campo. Zé orava a Deus e Deus não o respondia, nem a jumenta sabida aparecia. Zé, em desespero, na agonia de sua fé diz para si: “Tornarei a igreja e vou dizer tudo que vejo e penso”. Ao dizer assim, sopra o vento quente do sertão; as folhas secas são erguidas do chão pela força do mesmo. Numa terça feira à noite, Zé Jesus entra na igreja no horário da pregação.
“Hipócritas, arrependei-vos!” “Vixe, o homem tá doido mesmo!” Disse Cleo de Andrade. Uma mulher trajada de roupa bem sensual, que mostrava os contornos da calcinha disse respondendo ao profeta: “Vá se tratar rapaz!” “Vocês pregam o amor entanto, condenam uns aos outros; cada um só pensa em si; vossos pastores só pensam em ouro e prestígio”. Replicou Zé. Felisbelo chamou os diáconos Manfredo, 187cm e Segal, 191cm para acalmarem o irmão possesso. Tentaram expulsar o demônio de Zé pressionando-lhe a cabeça, e segurando-lhe os braços. Zé tentava reagir dizendo: “Eu sou lavado no sangue do Cordeiro”, Os diáconos diziam: “Sai dele satanás!” Quando subitamente ouve-se um rinchado dentro do santuário. Dona Euclides, mulher de Demétrio que era tio de Felisbelo gritou: “A rapariga dele acabou de entrar na casa de Deus!” Todos pararam, os diáconos soltaram Zé que estava exausto e machucado. A jumenta solta um pum e sai pinoteando dentro do santuário. O povo dizia: “Até a jumenta dele está com o cão nos couros!” Chamaram a polícia que veio como um raio. Ao ver o bicho solto na igreja, os policiais disseram: “Chamem os bombeiros, esse não é serviço nosso”. Chamaram os bombeiros que prontamente atendeu aos apelos de Felisbelo. Ao chegarem os bombeiros pediram o formulário do ibama. O pastor, então, disse: “Pelo amor de Deus, parem o bicho, pois, hoje Deus vai falar com a igreja”. “Sem formulário, não podemos fazer nada pastor, lamento”. Disse o tenete José de Arimatéia dos Santos. Um irmão novo convertido perde a paciência e saca um revolver calibre 38 que estava escondido em suas calças. Foi um tiro só; bem no meio da testa do bicho. Zé quando ver sua amiga de fé numa poça de sangue, ouve o bicho dizer: “Em tuas mãos eu entrego o meu espírito”. A jumenta morreu dentro da casa de Deus. O silencio era imenso, se caísse um simples alfinete, ele podia ser ouvido. Por um instante houve paz. Zé Jesus continuava abraçado com a jumenta morta e dava-lhe beijos na testa. As mulheres crentes, embora, emocionadas viram o carinho de Zé pelo animal. Três horas após a morte do animal algo muito estranho aconteceu. A jumenta vai lentamente se transformando em algo diferente. “Mulher, o que é isso?” “Num sei não!” “Rapaz, a jumenta está virando gente”. A jumenta virou um carpinteiro, em suas mãos estavam as chagas sagradas que perdoaram o mundo inteiro. O seu lado direito tinha uma ferida de lança e dela escorria sangue e água. Em sua cabeça uma coroa de espinhos, mas, em seus braços, sim, em seus braços estava Zé de Jesus que acabara de falecer de infarto pela tristeza de ver sua jumenta profeta morta.
Meu humilde espírito se despertou com o estalado dos foguetes na Avenida João Alves. Olhei em todas as direções e o homem que falava comigo havia sumido. Perguntei as horas. O dono do bar me respondeu que eram nove horas da noite. Paguei a conta e fui dar mais uma volta pela cidade. Fui ao cemitério. Não havia ninguém vigiando o lugar. Andei por suas ruas até que achei um túmulo onde estava escrito num pedra de mármore: “Sem profecia o povo se corrompe; descanse em paz irmão Zé de Jesus”.
FARIAS E A MOÇA
Minha pessoa acorda cedo todos os dias. Isso ocorre há tanto tempo que nem me lembro de quando começou. Às vezes me recordo de meu finado pai à porta do quarto me chamando: “Farias vá para a escola já passam das sete”. Seu Clovis foi um pai acima de qualquer crítica, e assim deve ter sido minha educação. A primeira comunhão, a crisma e outras ações religiosas, embora sob os cuidados de minha mãe Dona Tamísia da Barroca foram todas acompanhadas pelo velho Clóvis: “Tamísia esse menino foi para a catequese?” Dias bons aqueles, que Deus os tenha em um bom lugar.
Acordar cedo e ir para a repartição têm sido a rotina de meus dias nesses anos abençoados de 1998. Meu chefe, seu Antenor, um dia me disse: “Farias, é o trabalho que dignifica o homem”. Bem, eu não concordo muito não, pois, em nosso país, a classe trabalhadora nada tem. Mas deixa isso pra lá. Antenor é um sexagenário muito rigoroso, contudo, devo ter caído em sua graça. Nunca mais cheguei às sete e meia. Todo mundo reclama, mas, Antenor diz: “Deixa o homem quieto”.
Com a cumplicidade de Antenor, por vezes caminhei de manhã cedo na linda Aracaju ao desabrochar do dia. Parece que as pessoas estão melhor pela manhã. Todo mundo diz bom dia. Os sorrisos nos lábios são muitos. O calçadão da Rua da Frente fica cheio de pessoas com os cabelos pintados de preto. Elas vão e voltam como que esperassem um milagre. Lembro-me do dia que encontrei uma conterrânea de Campos. A mulher estava entrando nos setentas, no entanto, sua lucidez me deixou de boca bem aberta.
- Mas Dulce, quanto tempo!
- Quanto tempo o que? Farias tenha fé em Deus! Isso num se faz! A moça te espera até hoje!
- E ela me espera?
- Não, num espera não! Rapaz, que coisa feia!
- Ora, Dulce! São coisas da vida! Não dava para eu ficar com uma menina daquelas, né.
- Então não enchesse a cabeça dela de esperança! Farias, você foi sem vergonha! Tentei mudar o rumo da conversa, mas, a velha Dulce foi impiedosa. O caso é que há dez anos quando minha pessoa tinha cinquenta e quatro, conheci uma moça durante uma visita a Vila de Campos, a atual Tobias Barreto...
Era época de missões. Tinha gente de todo canto do imenso sertão entre Tobias e Poço Verde. A cidade, em determinadas horas parecia mais um formigueiro gigante. Todo mundo queria a benção de Nossa Senhora Imperatriz dos Campos. A praça defronte a igreja matriz estava tomada de gente. Lembro-me muito bem de uma anãzinha, natural de Itabaianinha. Dizem que lá tem a cidade dos anões. A moça queria ver a celebração, mas, o povo eufórico não deixava a mulher passar adiante. A coitada dizia: “Com licença, com licença” e nada do povo atender. Fiquei um pouco indignado com isso e acompanhei a pobre mulher até o cruzeiro dizendo-lhe: “Suba na base de pedra e você vai ver melhor”. A mulher fez isso. Quando seus olhos miúdos e azuis viram a nave do santuário, a mulher passou a exalar alegria por todos os poros de seu pequeno e frágil corpo. Ela ficou para trás e eu segui meu destino em meio ao povo. Andei pela festa toda até o sino da igreja bater avisando o fim da missa. Decidi passar novamente pela Praça da igreja para ver como as coisas estavam. O local estava vazio, o chão da praça feito de pedras portuguesas estava coberto de lixo, sacos de pipoca, guardanapos, canudinhos etc. Parecia que uma imensa boiada havia passado no local. No canto, defronte a pousada “Sol Dourado” avistei duas pessoas que conversavam baixinho, ora riam, ora cochichavam. Uma delas eu já conhecia, era a anãzinha, a outra era uma moça de seus trinta e cinco anos. A menina tinha uma aparência ibérica muito bem desenhada pelo criador. Olhos verdes claros, cabelos loiros, mas não muito loiros, um metro e setenta e dois, uma cintura brasileira bem definida, e pele branquinha mediterrânea como o sol da Grécia.
Meus olhos castanhos claros caíram de cheio sob a moça que me correspondia com sorrisos pelo canto da boca e olhares de gatinha mansa, aqueles que as atrizes de televisão fazem para mostrar ao público que a cena vai esquentar. A anãzinha ao ver-me diz: “Olha, Bela, meu salvador!” Na verdade, cá entre nós, minha pessoa, digo, eu mesmo, sou ateu. Mas, o salvador estava ali na hora certa para socorrer uma pobre anãzinha e agora recebia, quem sabe, do divino mestre uma recompensa: Bela!
- Eu sou Maria das Dores. Apresentou-se a pequena mulher.
- E essa é Bela, minha sobrinha. Continuou o pequeno ser. Cocei a garganta e disse meu nome com dúvidas se estava fazendo a coisa certa.
- E o meu é Farias. Após apresentados acompanhei as duas mulheres até o bar Secos e Molhados onde elas esperariam o ônibus para o Povoado Ilha.
- Quando é que você aparece lá, Farias? No sertão é assim, depois que se quebra o gelo, o sol aparece e esquenta as relações.
- Nesse final de semana. E foi assim durante uns dois meses. Com o tempo, eu passei a dormir na casa de Bela, com todo o respeito é claro.
As noites dormidas na casa de Bela e sua tia foram marcadas pelo misto de tensão e prazer. Primeiro, a anãzinha não me dava chances de realizar meu intento, secundo, quando Bela tocava em mim, eu me desmanchavam de prazer. Convenhamos um homem na minha idade viver um caso de amor com uma moça de trinta e cinco é, no mínimo, algo fora da regularidade. Os meses passavam, e minha pessoa fiel aos finais de semana na casa da anãzinha. Tudo que eu queria era uma chance de ficar sozinho com Bela.
- Farias e Bela venham cá!
- Pois não tia! Disse Bela como que soubesse o conteúdo da conversa.
- Vou passar esse final de semana em Campos. Vocês se comportem!
- Nos comportaremos tia, num é Farias?
- É. Não sei muito bem o que estava na minha cabeça, mas, no íntimo eu sabia que algo estava acontecendo.
- Num se preocupe, cuidarei de Bela como se fosse minha filha! A anãzinha entrou no ônibus e acenava com sua mãozinha para nós. No seu semblante estava um ar de “Deu a louca no mundo”. Tudo isso minha humilde pessoa viu, mas, não se importou!
Liguei a televisão para ver alguma novidade. Enquanto isso a jovem moça estava no banheiro a banhar-se. A televisão era aquele velho tédio de todas as manhãs e tardes dos finais de semana. Nada tinha de bom, exceto, os programas e shows tão batidos que todo mundo já sabia o que ia passar “Retrato da Vida”, “Roda da Esperança”. Eu sabia que meu alento àquele final de semana seria a jovem Bela. Eu precisava me sentir novo de novo. A menina saiu do banheiro enrolada numa toalha rosa. Passou pelo corredor onde pude ver sua silhueta: “Sensacional”. E finalmente, entrou em seu quarto, de onde ela me chamou: “Farias”.
- Farias, você pode ajudar?
- Claro, Bela!
- Passe esse hidratante em mim. Ela me estendeu a mão esquerda. Nela estava o pequeno frasco de hidratante. A pele da moça era macia como seda. Adorei cada centímetro umedecido pelo hidratante. Em certo ponto eu parei. Às vezes, é embaraçante um homem tocar numa mulher. Disse eu a mim mesmo: “Seria uma sensação indizível tocar nela toda, mas, devo manter mina compostura”. Com discrição a devolvi o creme. Ela o recebeu sem me dizer uma palavra, o silêncio entre nós dois falava muito. Seu peito, um pouco ofegante, clamava a mim que fazia de conta nada entender.
- Bela, vou ver se já acabou o show.
- Certo, meu cavalheiro! Essa palavra, por um instante, me causou arrependimento de não ter sido ousado. Fui novamente para a sala. Olhei para o relógio de parede; eram nove e trinta da manhã. Minha mente pensou na velocidade da luz: “Já” Passa rápido. Gritei para Bela perguntando-lhe a que horas sua tia voltaria. Bela disse com um tom sério: “Depois de meio dia”. Bela saiu do quarto e veio para junto de mim. A moça estava um tanto calada, mas, isso não lhe impediu de me fazer uma proposta maravilhosa: “Farias, vamos para o quintal deitar na rede!” Não sou cearense, todavia, depois que experimentei a rede da anãzinha me apaixonei.
Bela usava uma bermuda jeans e uma camiseta fina de algodão. Havia um pequeno desenho bem meio da mesma; era um pássaro beijando uma flor. Seu cabelo fino e bem cuidado estava preso, e o seu perfume me deixou um pouco tonto. Eu o sinto até hoje, parece que ele impregnou-se em mim. A camiseta de Bela seguia o curso dos movimentos de seu corpo franzino e esbelto. Ora, ela me dava a visão de seu umbigo bem talhado naquela tábua chamada barriga. A visão de um simples umbigo fazia meu coração cinquentão acelerar e o suor escorrer pelo pescoço como uma tênue cascata. Ora, era a pequena bermuda jeans que me permitia ver aquelas penas bem trabalhadas e que me inspiravam muitos desejos. Pensei comigo: “Aos cinquenta eu vivo um momento único!” “Mas, que mulher!” De fato, Bela era um bom exemplar da mulher sergipana.
A conversa fluía, porém, Bela nada me perguntava sobre meu passado. A jovem moça se concentrava apenas no momento presente. Para ser verdadeiro, até hoje não entendi o porquê dela se envolver com um homem bem mais velho como eu. A rede balançava e com ela ia o casal em descobertas e descobertas. Seus lábios eram doces como mel, e seu hálito aumentava em cem vezes minha libido. Parece que suas entranhas eram abençoadas. Mas, algo estava faltando: “Vê-la totalmente nua!”
O relógio da sala bateu onze e meia. O tempo passava e nós dois nem via. Bela se levantou da rede e foi preparar alguma coisa. Eu a acompanhei até a cozinha; ora ou outra eu lhe abraçava e lhe beijava. Nós dois preparamos a comida; comemos juntos, e depois voltamos para o quintal: “Bela não se preocupe, eu lavo os pratos”. Um homem quando quer impressionar uma mulher diz de tudo!
Ficamos na rede a conversar sem se preocupar mais com nada, para nós dois o tempo era aquele; juntos o tempo era nosso! Bela pegou no sono eu resolvi explorar seu corpo fazendo-lhe pequenas carícias. O sono da menina era tão profundo que descobri seu corpo em poucos minutos, minha mão ficava de vez em quando dormente tamanha era a força que eu fazia para torna-la leve como uma pluma. Agradeci a mãe natureza por conhecer aquele corpo divino. Lentamente tirei-lhe a camisa. O que é muito estranho é que não tive dificuldade para fazê-lo parecia até que a camisa sabia do próximo movimento. Depois abri os botões de sua bermuda, e lentamente fui vendo o que estava do lado de dentro: “Meu Deus!” Embora ateu, mas foi essa a palavra que eu disse. Bela era toda linda!
Tirei sua roupa toda, depois tirei a minha. Sentei-me na rede e puxei seu corpo adormecido até mim de forma que eu ficasse entre suas pernas. Aí, a coisa pegou, meu coração batia tão rápido que parecia que ia sair pela boca. A respiração da menina ficou de imediato ofegante; a pobre moça mordia os lábios o que me fazia ficar ainda mais vivo. Alguns gemidos saiam ritmados de sua boca. E isso aumentava a quantidade de gotas de suor no meu rosto. Nós dois estávamos banhados de suor! Fizemos a mesma coisa uma; duas vezes, até eu me cansar. Devo admitir, a velhice é uma parte bonita da vida humana, mas, nada se compara a força da juventude.
A anãzinha nos pegou nus na rede. Ambos adormecidos. A mulher me pôs para fora de casa. Desde então nunca mais a vi. Dona Dulce, a vizinha, depois ao encontrar-se comigo na feira me contou que a moça me esperava. Mas, eu achei que foi o bastante para nós dois.
Acordar cedo e ir para a repartição têm sido a rotina de meus dias nesses anos abençoados de 1998. Meu chefe, seu Antenor, um dia me disse: “Farias, é o trabalho que dignifica o homem”. Bem, eu não concordo muito não, pois, em nosso país, a classe trabalhadora nada tem. Mas deixa isso pra lá. Antenor é um sexagenário muito rigoroso, contudo, devo ter caído em sua graça. Nunca mais cheguei às sete e meia. Todo mundo reclama, mas, Antenor diz: “Deixa o homem quieto”.
Com a cumplicidade de Antenor, por vezes caminhei de manhã cedo na linda Aracaju ao desabrochar do dia. Parece que as pessoas estão melhor pela manhã. Todo mundo diz bom dia. Os sorrisos nos lábios são muitos. O calçadão da Rua da Frente fica cheio de pessoas com os cabelos pintados de preto. Elas vão e voltam como que esperassem um milagre. Lembro-me do dia que encontrei uma conterrânea de Campos. A mulher estava entrando nos setentas, no entanto, sua lucidez me deixou de boca bem aberta.
- Mas Dulce, quanto tempo!
- Quanto tempo o que? Farias tenha fé em Deus! Isso num se faz! A moça te espera até hoje!
- E ela me espera?
- Não, num espera não! Rapaz, que coisa feia!
- Ora, Dulce! São coisas da vida! Não dava para eu ficar com uma menina daquelas, né.
- Então não enchesse a cabeça dela de esperança! Farias, você foi sem vergonha! Tentei mudar o rumo da conversa, mas, a velha Dulce foi impiedosa. O caso é que há dez anos quando minha pessoa tinha cinquenta e quatro, conheci uma moça durante uma visita a Vila de Campos, a atual Tobias Barreto...
Era época de missões. Tinha gente de todo canto do imenso sertão entre Tobias e Poço Verde. A cidade, em determinadas horas parecia mais um formigueiro gigante. Todo mundo queria a benção de Nossa Senhora Imperatriz dos Campos. A praça defronte a igreja matriz estava tomada de gente. Lembro-me muito bem de uma anãzinha, natural de Itabaianinha. Dizem que lá tem a cidade dos anões. A moça queria ver a celebração, mas, o povo eufórico não deixava a mulher passar adiante. A coitada dizia: “Com licença, com licença” e nada do povo atender. Fiquei um pouco indignado com isso e acompanhei a pobre mulher até o cruzeiro dizendo-lhe: “Suba na base de pedra e você vai ver melhor”. A mulher fez isso. Quando seus olhos miúdos e azuis viram a nave do santuário, a mulher passou a exalar alegria por todos os poros de seu pequeno e frágil corpo. Ela ficou para trás e eu segui meu destino em meio ao povo. Andei pela festa toda até o sino da igreja bater avisando o fim da missa. Decidi passar novamente pela Praça da igreja para ver como as coisas estavam. O local estava vazio, o chão da praça feito de pedras portuguesas estava coberto de lixo, sacos de pipoca, guardanapos, canudinhos etc. Parecia que uma imensa boiada havia passado no local. No canto, defronte a pousada “Sol Dourado” avistei duas pessoas que conversavam baixinho, ora riam, ora cochichavam. Uma delas eu já conhecia, era a anãzinha, a outra era uma moça de seus trinta e cinco anos. A menina tinha uma aparência ibérica muito bem desenhada pelo criador. Olhos verdes claros, cabelos loiros, mas não muito loiros, um metro e setenta e dois, uma cintura brasileira bem definida, e pele branquinha mediterrânea como o sol da Grécia.
Meus olhos castanhos claros caíram de cheio sob a moça que me correspondia com sorrisos pelo canto da boca e olhares de gatinha mansa, aqueles que as atrizes de televisão fazem para mostrar ao público que a cena vai esquentar. A anãzinha ao ver-me diz: “Olha, Bela, meu salvador!” Na verdade, cá entre nós, minha pessoa, digo, eu mesmo, sou ateu. Mas, o salvador estava ali na hora certa para socorrer uma pobre anãzinha e agora recebia, quem sabe, do divino mestre uma recompensa: Bela!
- Eu sou Maria das Dores. Apresentou-se a pequena mulher.
- E essa é Bela, minha sobrinha. Continuou o pequeno ser. Cocei a garganta e disse meu nome com dúvidas se estava fazendo a coisa certa.
- E o meu é Farias. Após apresentados acompanhei as duas mulheres até o bar Secos e Molhados onde elas esperariam o ônibus para o Povoado Ilha.
- Quando é que você aparece lá, Farias? No sertão é assim, depois que se quebra o gelo, o sol aparece e esquenta as relações.
- Nesse final de semana. E foi assim durante uns dois meses. Com o tempo, eu passei a dormir na casa de Bela, com todo o respeito é claro.
As noites dormidas na casa de Bela e sua tia foram marcadas pelo misto de tensão e prazer. Primeiro, a anãzinha não me dava chances de realizar meu intento, secundo, quando Bela tocava em mim, eu me desmanchavam de prazer. Convenhamos um homem na minha idade viver um caso de amor com uma moça de trinta e cinco é, no mínimo, algo fora da regularidade. Os meses passavam, e minha pessoa fiel aos finais de semana na casa da anãzinha. Tudo que eu queria era uma chance de ficar sozinho com Bela.
- Farias e Bela venham cá!
- Pois não tia! Disse Bela como que soubesse o conteúdo da conversa.
- Vou passar esse final de semana em Campos. Vocês se comportem!
- Nos comportaremos tia, num é Farias?
- É. Não sei muito bem o que estava na minha cabeça, mas, no íntimo eu sabia que algo estava acontecendo.
- Num se preocupe, cuidarei de Bela como se fosse minha filha! A anãzinha entrou no ônibus e acenava com sua mãozinha para nós. No seu semblante estava um ar de “Deu a louca no mundo”. Tudo isso minha humilde pessoa viu, mas, não se importou!
Liguei a televisão para ver alguma novidade. Enquanto isso a jovem moça estava no banheiro a banhar-se. A televisão era aquele velho tédio de todas as manhãs e tardes dos finais de semana. Nada tinha de bom, exceto, os programas e shows tão batidos que todo mundo já sabia o que ia passar “Retrato da Vida”, “Roda da Esperança”. Eu sabia que meu alento àquele final de semana seria a jovem Bela. Eu precisava me sentir novo de novo. A menina saiu do banheiro enrolada numa toalha rosa. Passou pelo corredor onde pude ver sua silhueta: “Sensacional”. E finalmente, entrou em seu quarto, de onde ela me chamou: “Farias”.
- Farias, você pode ajudar?
- Claro, Bela!
- Passe esse hidratante em mim. Ela me estendeu a mão esquerda. Nela estava o pequeno frasco de hidratante. A pele da moça era macia como seda. Adorei cada centímetro umedecido pelo hidratante. Em certo ponto eu parei. Às vezes, é embaraçante um homem tocar numa mulher. Disse eu a mim mesmo: “Seria uma sensação indizível tocar nela toda, mas, devo manter mina compostura”. Com discrição a devolvi o creme. Ela o recebeu sem me dizer uma palavra, o silêncio entre nós dois falava muito. Seu peito, um pouco ofegante, clamava a mim que fazia de conta nada entender.
- Bela, vou ver se já acabou o show.
- Certo, meu cavalheiro! Essa palavra, por um instante, me causou arrependimento de não ter sido ousado. Fui novamente para a sala. Olhei para o relógio de parede; eram nove e trinta da manhã. Minha mente pensou na velocidade da luz: “Já” Passa rápido. Gritei para Bela perguntando-lhe a que horas sua tia voltaria. Bela disse com um tom sério: “Depois de meio dia”. Bela saiu do quarto e veio para junto de mim. A moça estava um tanto calada, mas, isso não lhe impediu de me fazer uma proposta maravilhosa: “Farias, vamos para o quintal deitar na rede!” Não sou cearense, todavia, depois que experimentei a rede da anãzinha me apaixonei.
Bela usava uma bermuda jeans e uma camiseta fina de algodão. Havia um pequeno desenho bem meio da mesma; era um pássaro beijando uma flor. Seu cabelo fino e bem cuidado estava preso, e o seu perfume me deixou um pouco tonto. Eu o sinto até hoje, parece que ele impregnou-se em mim. A camiseta de Bela seguia o curso dos movimentos de seu corpo franzino e esbelto. Ora, ela me dava a visão de seu umbigo bem talhado naquela tábua chamada barriga. A visão de um simples umbigo fazia meu coração cinquentão acelerar e o suor escorrer pelo pescoço como uma tênue cascata. Ora, era a pequena bermuda jeans que me permitia ver aquelas penas bem trabalhadas e que me inspiravam muitos desejos. Pensei comigo: “Aos cinquenta eu vivo um momento único!” “Mas, que mulher!” De fato, Bela era um bom exemplar da mulher sergipana.
A conversa fluía, porém, Bela nada me perguntava sobre meu passado. A jovem moça se concentrava apenas no momento presente. Para ser verdadeiro, até hoje não entendi o porquê dela se envolver com um homem bem mais velho como eu. A rede balançava e com ela ia o casal em descobertas e descobertas. Seus lábios eram doces como mel, e seu hálito aumentava em cem vezes minha libido. Parece que suas entranhas eram abençoadas. Mas, algo estava faltando: “Vê-la totalmente nua!”
O relógio da sala bateu onze e meia. O tempo passava e nós dois nem via. Bela se levantou da rede e foi preparar alguma coisa. Eu a acompanhei até a cozinha; ora ou outra eu lhe abraçava e lhe beijava. Nós dois preparamos a comida; comemos juntos, e depois voltamos para o quintal: “Bela não se preocupe, eu lavo os pratos”. Um homem quando quer impressionar uma mulher diz de tudo!
Ficamos na rede a conversar sem se preocupar mais com nada, para nós dois o tempo era aquele; juntos o tempo era nosso! Bela pegou no sono eu resolvi explorar seu corpo fazendo-lhe pequenas carícias. O sono da menina era tão profundo que descobri seu corpo em poucos minutos, minha mão ficava de vez em quando dormente tamanha era a força que eu fazia para torna-la leve como uma pluma. Agradeci a mãe natureza por conhecer aquele corpo divino. Lentamente tirei-lhe a camisa. O que é muito estranho é que não tive dificuldade para fazê-lo parecia até que a camisa sabia do próximo movimento. Depois abri os botões de sua bermuda, e lentamente fui vendo o que estava do lado de dentro: “Meu Deus!” Embora ateu, mas foi essa a palavra que eu disse. Bela era toda linda!
Tirei sua roupa toda, depois tirei a minha. Sentei-me na rede e puxei seu corpo adormecido até mim de forma que eu ficasse entre suas pernas. Aí, a coisa pegou, meu coração batia tão rápido que parecia que ia sair pela boca. A respiração da menina ficou de imediato ofegante; a pobre moça mordia os lábios o que me fazia ficar ainda mais vivo. Alguns gemidos saiam ritmados de sua boca. E isso aumentava a quantidade de gotas de suor no meu rosto. Nós dois estávamos banhados de suor! Fizemos a mesma coisa uma; duas vezes, até eu me cansar. Devo admitir, a velhice é uma parte bonita da vida humana, mas, nada se compara a força da juventude.
A anãzinha nos pegou nus na rede. Ambos adormecidos. A mulher me pôs para fora de casa. Desde então nunca mais a vi. Dona Dulce, a vizinha, depois ao encontrar-se comigo na feira me contou que a moça me esperava. Mas, eu achei que foi o bastante para nós dois.
domingo, 28 de janeiro de 2018
POSSESSÃO
POSSESSÃO
Por Roosevelt Vieira Leite
- Eu nunca faria uma coisa dessas! Isso não faz o meu estilo. Entendeu?
- Você pode estar certo, mas, também pode estar errado. Você tem certeza do que diz?
- Meu caro doutor. Eu estava na Praça da Matriz próximo ao trem quando eu vi Lucia com Gerinaldo. Não suportei e fiz o que fiz...
“Eu fui trabalhar aquele dia normalmente. Fiz as minhas obrigações cotidianas até que tudo desabou com um telefonema estranho. “Sua mulher está na praça com Gerinaldo”. Eu saí do trabalho e fui até a praça. Andei uns quatro quarteirões. De longe eu os avistei encostados no trem. Os dois estavam conversando. Aproximei-me. Eles nem perceberam minha presença. Continuaram a conversar. Lucia contava para Gerinaldo que deseja minha morte e que se soubesse de alguém ela pagaria para me matar. Gerinaldo a aconselhava que não, que entregasse tudo nas mãos de Deus.
- Ah, se eu soubesse de alguém. Eu mandava matar o Anderson. Anderson é um cara muito egoísta. Eu não suporto mais esse cara mandando em mim.
- Lucia, tenha fé em Deus. Existem outros caminhos.
- Eu sei, mas, dói muito amigo!”
Lucia era uma moça muito tímida e inibida. A menina tinha muito medo e insegurança sobre a sinceridade das pessoas para com ela. Desde nova que ela era assim: “Menina!” Deixa de ser complexada!” Era assim que Etelvina, sua finada mãe, dizia baixinho, perto de seu ouvido. Lucia amava muito seus pais. Primeiro foi Etelvina, o diabetes não perdoou. Depois foi Henry Clay, seu pai. O homem fumava muito, a doença braba nos pulmões o levou alguns anos após a morte de sua mulher. Lucia casou com Anderson aos dezessete anos. O casal foi morar na Rua Santa Catarina quase esquina com a Rua Acre.
- Aqui é tão bom meu amor!
- Sim, a gente tem acesso a todas as comodidades que o Siqueira oferece. Só precisamos ir ao centro em casos muito urgentes, pois, aqui, temos tudo por perto.
Por um bom tempo, o casal viveu as bênçãos de Deus. Anderson parecia ser um marido muito honesto. Um homem íntegro, cumpridor de seu dever.
- Mãe! Tenho que agradecer muito a Deus por Anderson, minha mãe!
- Sim, minha filha! Viva Deus! Seu marido é um homem bom.
O povo comenta que nos dias atuais, um casamento feliz é muito raro. As varas de família atestam a veracidade dessa suposição. As famílias estão em crise, mas, segundo Frederico, o filósofo do Siqueira: “O casamento é uma tortura necessária. Ruim com ele, pior sem ele”. Frederico tinha o costume de tomar umas, todas as noites, em um barzinho na esquina da praça mais famosa do Siqueira.
- Sim, minha mãe, Anderson é um anjo de marido!
- Vá por mim! Trate bem o rapaz, pois, esse rapaz é de ouro!
O eco da voz de sua finada mãe a acompanhava nos momentos de crise. Uma noite, Anderson chegou tarde. O moço cheirava a álcool.
- Anderson, meu amor, o que aconteceu?
- Você não sabe? Os ônibus estão em greve. Tive que vir a pé do trabalho. Tudo bem, vir a pé explica o horário, mas, o cheiro de cerveja dizia que houve mais coisa. No entanto, a menina Lucia, agora com vinte e cinco, preferia por uma pedra sobre o assunto.
- Vá tomar banho querido! Tem comida quente. Quer que eu ponha para você?
A moça era prendada como são a maioria das fêmeas nordestinas – Lucia fora criada para o lar definitivamente. Quando ela terminou o curso de Assistente Social ela dedicou tempo integral ao lar. Embora sem filhos, Lúcia se comportava como se fosse uma mãe cheia de crianças ao redor.
- Anderson você gosta de cortina rosa com babados brancos? Eu achei que a gente podia ir preparando o quarto de Alice.
- Que Alice?
- A nossa Alice!
- Lúcia, nós não temos filhos. E eu não quero ter filhos ainda. Tenho tanta coisa para fazer primeiro. Todas as vezes que seu marido dizia: “Tanta coisa para fazer primeiro”. Lúcia entrava em crise de ansiedade e depressão. A coisa começava com uma dor nas têmperas que com o tempo subia para o chacra coronário. Quando no chacra, a dor se transformava em um peso forte, uma enxaqueca quase insuportável.
- Mãe, graças a Deus que você veio, eu estou tão deprimida. Discuti com Anderson. Mãe, por que os homens não querem ter filhos?
- Filha, os homens não gostam de compromissos domésticos. Eles preferem a liberdade. Eles não têm o instinto de maternidade.
Lúcia tinha as crises constantemente. A casa estava acostumada com o quadro da moça. À vezes, ela se trancava no quarto e passava o dia inteiro sem fazer nada. À noite, quando seu marido voltava, a discussão explodia. Lúcia chorava e ia se deitar. O casal tinha a vida sexual reprimida em virtude dos problemas de temperamento. O tempo passou. Os pais da menina bateram as botas. Lúcia agora estava sozinha no mundo. Anderson começou a chegar cada vez mais tarde. A situação em casa piorava:
- Meu amor, eu não sirvo para você não, é?
-Não é nada disso Lucia! Estou fazendo hora extra no serviço! As horas extras demoraram meses para terminarem. Lúcia estava muito estranha.
Certo dia, Lúcia arrumava as coisas em casa. A calça bege de Anderson estava caída, quase escondida atrás do guarda-roupas. Ela encontrou um bilhete no bolso esquerdo, o bilhete dizia assim: “Anderson, preciso falar com você em particular, pois, não suporto mais a situação”.
A leitura do pequeno texto foi como uma bomba atômica para Lúcia: “Meu marido está me traindo”. Esse passou a ser o pensamento dominante na mente da jovem Lúcia. Um pensamento triste, por vezes, de agonia e muita ansiedade. O quadro da moça piorou. Agora, quando seu marido saía para o trabalho, a moça do Siqueira ia ao cemitério da Leste, e lá passava boa parte da tarde. Era assim que a moça aliviava as tensões de seu coração ferido. Lúcia passou a gostar da morte. Viu muitos enterros; viu muitas famílias chorando a perca de seus entes. Um dia, ela encontrou um rapaz amigo de Anderson no sepultamento de um moço que morrera de dengue. Seu nome era Gerinaldo. Este estivera na casa de Lúcia muitos sábados para assistir os jogos do Campeonato Brasileiro. Gerinaldo gostava muito de Anderson, era um amigo leal e sempre presente. Anderson, por vezes, mencionou seu nome para sua esposa. “Amor, eu estava com Gerinaldo”. “Querida, vou passar na casa de Gerinaldo”.
- Gerinaldo! Que bom que te encontrei!
- Oi, Lúcia, que satisfação, embora no cemitério! Que fazes aqui?
- Vim para o sepultamento dos ossos de papai e mamãe.
- Ah, meus sentimentos!
- Você não foi trabalhar hoje não? Já viu Anderson?
- Ele está lá trabalhando. Quanto a mim, eu pedi para dar uma saidinha rápida.
- Sei. Vocês gostam muito de umas saidinhas rápidas não é? Gerinaldo riu e continuou a conversa com a amiga de seu melhor amigo.
- Hoje em dia, para se resolver as coisas, precisamos muito dessas saidinhas no horário de trabalho.
- Preciso de uma saidinha sua. Disse Lúcia com um tom de tristeza. O rapaz percebeu de imediato que havia problema. Anderson, por vezes, comentara com seu colega sobre a depressão de sua mulher.
- Sim amiga Lúcia conte sua história.
- É que preciso muito, muito mesmo conversar com alguém sobre Anderson. Gerinaldo preferiu não contar ao seu colega que estava se encontrando com Lúcia para falar dele. Os encontros se repetiram. Lúcia abriu o coração para Geri. Gerinaldo se tornara Geri – uma pessoa de casa.
- Sabe meu amor, em seu aniversário vou chamar seu melhor amigo.
- Quem?
- Gerinaldo, ora, será que você não sabe que ele é seu amigo de verdade?
- Amigo somente Deus. Tenho conhecidos apenas.
- E eu? Não sou sua amiga não?
- Claro, meu amor, você é muito mais que isso!
Lúcia e Gerinaldo se encontraram algumas vezes no centro da cidade. A Praça da Matriz sempre foi linda e um ótimo lugar para se conversar mais a vontade. Anderson soube de tudo por meio de um telefonema anônimo, mas, não contou nada a sua esposa. O rapaz, muito desconfiado decidiu vigiar a menina.
- Rapaz, bem que meu pai dizia: “Amigo é Deus!”
- Procure ajuda especializada, Anderson. Você sabe que você nunca superou a cena que você viu no passado. Anderson viu sua amada genitora fazendo amor com um homem de etnia africana, que respondia pelo nome Djamal. Ele nunca esquecera os gemidos de prazer de sua santa mãe nem a situação em que ela se encontrava no momento da visão. Isso foi um trauma muito forte.
- Sim, acho que preciso. Anderson sentia cala frios por todo o corpo. Suava muito e tinha dores nos ombros. De manhã ele acordava com os dentes serrados. Estava sob tensão. Não mais dialogava com Lúcia. E esta pensava que tudo era por que seu marido tinha outra mulher.
- Gerinaldo! Preciso falar com você.
- O que foi Lucia?
- É Anderson. Ele está mais estranho! Gerinaldo atende a voz nervosa de Lúcia e marca um encontro na Praça da Igreja Matriz.
Lúcia estava tensa o tempo inteiro. Ela confessou que sua revolta era grande. Implorou que seu amigo Gerinaldo lhe contasse sobre o caso de Anderson. Gerinaldo nada disse e nada sabia na verdade. Tudo não passava de um mal entendido.
- Eu vou perder a cabeça Gerinaldo! Primeiro foi a falta de sexo, depois, hora extra, agora, bilhetes nos bolsos. Tá tudo muito estranho! Gerinaldo procurava amenizar as coisas. Mas, não obtinha sucesso. Foi nesse instante que Anderson chega e escuta a conversa de sua amada esposa. Ela confessa para seu amigo que desejava matar seu esposo. Ela pedia forças e apoio. Gerinaldo a abraçou para confortá-la. Seu marido, com os olhos esbugalhados via e ouvia tudo. Anderson vai para casa e espera sua mulher chegar.
O relógio da cozinha bate nove horas da noite. Lúcia chega à sua casa. A moça usava uma calça jeans azul desbotado, uma tomara que caia preta e sandálias pretas de couro. Seu rosto estava sujo de areia preta, seus cabelos desarrumados. Havia em sua aparência um ar de desespero. Quando o casal se encontra na penumbra da cozinha, Anderson pergunta ironicamente:
- Como vai o seu namorado Gerinaldo? Eu ouvi alguém dizer que me mataria! A voz do homem sobe muito a ponto de chamar a atenção da vizinhança. Contudo ninguém aparece. Lúcia responde a seu marido; os dois discutem por alguns segundos. Anderson empurra sua mulher contra a parede. Bate a cabeça dela na parede algumas vezes. Lúcia desfalece nos braços de seu amor. “E agora?” “Será que morreu?” “Eu ... eu ... não queria fazer isso!” “Meu Deus!” Anderson deita sua mulher no piso da cozinha e se senta ao lado de seu “corpo”. Por alguns segundos, o homem realmente pensa que Lúcia está morta. Ela respira e tosse. Isso foi um alívio para seu marido. Lúcia recobra os sentidos e passa novamente a agredir com socos a seu esposo. “Eu vou matar você!” Anderson se lembra da cena dela com Gerinaldo e de suas palavras ameaçadoras: “Eu devia matá-lo, tenho vontade de mata-lo”. Os dois iniciam uma luta corporal onde não se sabia quem seria o vencedor. Ela segura o pescoço de seu amor com as duas mãos tentando enforcá-lo. O mesmo ele faz com ela. O silêncio da casa foi quebrado com pancadas na porta. Anderson continua apertando o pescoço de sua amada. Seu rosto estava tão transfigurado quanto o dela, no entanto, Lúcia rendeu os braços esticando-os ao lado de seu corpo. Anderson deixa Lúcia no chão da cozinha e vai até a porta da frente. O vizinho ouviu a briga e veio perguntar se tudo estava bem.
- Seu Anderson tudo bem?
- Oh, Florivaldo, satisfação, rapaz! Como tudo bem?
- Minha mulher escutou uns gritos aqui. E...
- Ah, é a televisão do quarto que estava alta. Florivaldo tomou a direção do sofá e se senta. O mesmo faz Anderson. A conversa de vizinhos dura uns quinze minutos. Quando Anderson retorna a cozinha para ver sua mulher ela estava pálida e com manchas de sangramento interno no pescoço. Anderson sufocara sua mulher sem sentir. Ele entra em pânico. Pensa em chamar os vizinhos. Mas via que não podia confiar em ninguém. “Foi só um acidente”. Pensava ele. Ao mesmo tempo ele via que nunca mais teria sua mulher com ele. Lágrimas de saudade, tristeza e arrependimento caíam de seus olhos. “E agora meu Deus!” “Vou ligar para Gerinaldo!” “Não!” Ele se senta ao lado do corpo toma sua mão e a beija. Ao lado do cadáver, Anderson se lembra dos momentos juntos, no tempo em que eles eram felizes. Ele decide fazer amor com o corpo de sua mulher. Anderson tira-lhe as roupas e se serve do corpo de sua esposa morta. Com o corpo suado, Anderson se deita ao lado dela como se ela estivesse viva. Anderson pega no sono.
O barulho dos carros acordou a Anderson quase oito horas da manhã. O sol estava um pouco quente. Anderson se levanta e decide o destino do corpo. Ele decidiu cortar sua mulher em pedaços e guardá-la no freezer. De noite ele levaria os pedaços para algum lugar. Ele retalhou o corpo em pedaços pequenos. Os pedaços foram colocados em sacos plásticos pretos. A cabeça foi colocada numa caixa de papelão e enterrada no quintal.
A noite chegou e Anderson não levou os sacos. Mais um dia foi embora, e os sacos continuavam guardados. Anderson não saia de casa. Alguns vizinhos bateram na porta e não sentiram, ou viram nada. Anderson continuou em casa com o corpo congelado da mulher.
Numa manhã de terça feira, dia de Nosso Senhor, Anderson joga os sacos de lixo no container da rua. Eram sacos pretos pequenos. Os cães latiam muito. Então, me aproximei do local após sua saída e vi um pedaço de língua humana, eu acho. Um gato cinza lambia o dedo pequeno de uma mulher. Senti uma dor no peito forte. Lembrei-me da vizinha. Ela não mais apareceu pela rua ou pela casa. A polícia fez investigações sobre o paradeiro dela. Nada encontrou que incriminasse o rapaz ou elucidasse o caso. Depois do acontecido, Gerinaldo foi embora para Belém: “Tá louco, jamais voltarei para perto daquele canibal”. Anderson foi para a academia para ver se emagrecia um pouco. Seu psiquiatra, Doutor Belenildo, tem tentado descobrir alguma coisa, mas, nada sai da cabeça de Anderson.
- Doutor Belenildo!
- Sim, investigador Freitas.
- Anderson é louco?
- Não! Na psiquiatria ele não é doido, mesmo, que as pessoas no senso comum digam que ele é.
- E ele é o que então?
- Ele é um homem possuído pelas suas próprias fantasias.
- Então ele é um possesso?
- Sim, muito provavelmente!
Anderson chegou à sua casa às oito horas da noite. Comeu um pedaço de coxinha, assistiu um pouco tevê e foi para o quarto. Limpou a boneca que agora lhe fazia companhia e se deitou abraçado com ela.
terça-feira, 16 de janeiro de 2018
O MACUMBEIRO
O MACUMBEIRO
Soraia saiu do trabalho na “Avenida dos Boxes” seguiu direto para casa. Sentia cólica, a moça filha de Agenor, “O louco”, aquele que nas segundas feiras ia para o meio do povo dizer que se arrependesse de seus pecados. A feira de Tobias era grande. Um mar de gente. Muitos sonhos, poucas certezas. O povo vinha de todos os lugares do município, e até de outras cidades e estados. A fé de Agenor era maior que a feira de Tobias. Por isso o homem pregava a Salvação.
Contudo Soraia, sua Filha do meio, pois, ela era a segunda filha do casal, a que nascera quando seu pai se convertera, ou enlouquecera, estava namorando um rapaz que era macumbeiro. Isso a dava muita dores de cabeça. Seu pai não aceitava o romance.
- Menina, você não sabe que os feiticeiros não herdarão o Reino de Deus! Disse Agenor com ar de quem sabe o que diz.
- Eu sei meu pai, mas, eu gosto de Venceslau. Não consigo tirá-lo da cabeça! Disse a menina com os olhos marejados.
- Então, se você já conhece a verdade, ela vai te libertar dessa paixão do diabo. Concluiu teologicamente seu Agenor.
Enquanto os dois conversavam, um rato de grande porte entra em um buraco cavado na parede de blocos da casa velha de Agenor. Os ratos aproveitavam quando as pessoas estavam na calçada para fazerem a festa com o que sobrava da refeição da família. Acho que toda casa deve ter ratos. Eles estão a onde os homens vivem.
- Pai, e se ele se convertesse? Se de repente ele visse o erro, e deixasse a macumba, e se tornasse um de nós?
- Seria uma benção minha filha! Mas, este caso é muito raro. Os feiticeiros tem parte com o demônio. E este não os deixa livres. Quando eu prego na feira, vejo quantos estão perdidos, sem rumo, sem direção. Só a nossa fé tem a verdade de Jesus. Os evangélicos são a verdadeira Igreja de Cristo porque obedecemos as Escrituras. Um rato miúdo, do tipo calunguinha foi até perto dos dois e deu uma olhada rápida. O rato, logo correu de volta para o seu buraco. Parecia apavorado.
Era uma sexta feira, o dia em que pai e filha estavam sós em casa e conversaram na calçada como é o costume da terra. Todavia a conversa com Agenor não convenceu a jovem Soraia de deixar o rapaz esotérico. Naquela mesma noite quando seu Agenor se recolhia com sua esposa, Soraia foi até a Praça do Cruzeiro ver o seu amor.
- Venceslau, por que você não deixa a macumba e vem comigo para a igreja?
- Meu bem, eu te amo, mas, não posso deixar meu Pai de Santo na mão. Eu tenho compromissos no terreiro e não posso abandoná-los.
- Que compromissos são esses, Venceslau! Isso é tudo macumba! É feitiçaria! Gritou a menina desconsolada. Aquela noite os dois não se beijaram, nem trocaram afetos. A noite foi sem graça, apenas a tristeza e a expectativa de uma separação.
No sábado pela manhã Venceslau tinha um amaci para aprontar com seu Pai de Santo. Seu Domingos era um negro que viera de Feira de Santana tentar a vida em Tobias. Os negócios fracassaram e restando-lhe somente a fé nos Orixás para sobreviver. Era um homem de caridade. Sua idade avançada não dificultava o seu trabalho, no entanto, isso não lhe desobrigava da necessidade de ter alguém de sua confiança para passar os conhecimentos de sua religião. O homem não tinha filhos. Sua mulher era idosa e cega. Passava o tempo inteiro rezando pelas almas aflitas.
- Meu véio! Dona Maria Conga tem uma palavra.
- E é minha véia?
Venceslau chegou cedo ao terreiro, fez as obrigações e foi ter com seu Domingos.
- Seu Domingos: Estou triste com uma situação.
- Qual meu filho? Perguntou seu Domingos com sua voz doce. A voz de seu Domingos parecia com a voz de um preto velho vivo, encarnado. O povo da redondeza dizia que o velho era “um preto velho vivo”.
- Minha namorada é evangélica e quer que eu deixe o terreiro para ficar com ela. Estou triste, pois, considero a religião dela legítima. Então, por que a minha não é? Dizem que servimos ao diabo.
- Meu fio: A forma como as pessoas julgam as coisa e as outras pessoas nem sempre vê com clareza. Passa muitos sentidos que lhes são obscuros. Deus é um só. Ele é a fonte suprema de onde emanam todas as virtudes e bondades possíveis. Ele é o arquiteto do Universo.
- Eu sei meu pai. Desde criança que sua pessoa me conta das lendas dos orixás. De Deus emanam sete raios. E estes raios são as manifestações de Deus para os homens e toda a natureza.
- Então, meu fio.
Venceslau saiu mais em paz. Não podemos dizer o mesmo da pequena Soraia. Seu pai a aguardava para saber qual foi a decisão do rapaz.
- Minha filha, o rapaz decidiu aceitar Jesus?
- Não meu pai. Ele nada prometeu.
Soraia foi para seu quarto. A menina queria ficar a sós. Em seu quarto ela orou a Deus e decidiu deixar Venceslau.
“Meu Senhor, muito obrigado pela força que o Senhor me dar nesse momento para esquecer Venceslau. Eu o entrego em suas mãos. Se ele for para ser meu, converte-o para ti”. Soraia se deitou para descansar e pegou no sono.
Enquanto isso seu pai sai para o mercado comprar algumas coisas. Sua mulher dona Anita o pediu para comprar algumas verduras. Anita era a segunda mulher de Agenor. A primeira morrera do vento. Dizem que o vento passa e a pessoa morre. Seu Agenor aproveitou o ensejo para abrir a Bíblia defronte às barracas da “Feira da Verdura” às dez da manhã. Seu Agenor alertava o povo sobre a Volta de Cristo quando um homem forte e alto tombou nele no meio da rua caindo sobre seu frágil corpo. Seu Agenor fez muita força para sair de debaixo do homem. Acho que esse esforço agravou as condições do profeta de Tobias, Agenor dos Anjos. Agenor dizia aleluia, aleluia, e aí, aí, aí. A dor era grande. O povo teve piedade e levou o homem para o Hospital de Caridade.
“A situação do homem é grave; atingiu a cabeça. Foi traumatismo craniano. Estamos aguardando para leva-lo para Aracaju”.
Foi isso que Dona Anita, Sorai, Francisca, e Antenor ouviram dos médicos quando chegaram para ver o pobre Agenor. Venceslau soube do ocorrido e foi ao hospital consolar sua amada.
- Meu bem, como está seu Agenor?
- Vão levá-lo para Aracaju.
- Não sei, a coisa parece grave.
- Não tema Oxalá não nos desampara.
- Como? Venceslau, como foi que você disse?
- Eu disse que Jesus vai nos abençoar e seu pai vai ficar bom. Dona Anita ouvia a conversa e se meteu no meio com a intenção de constranger o rapaz. “Eu não te disse minha filha? Namorar macumbeiro é coisa séria. Olha seu pai! Como foi isso? Ele fica invocando os demônios dele, sei lá?” Venceslau ficou tão envergonhado que saiu do hospital sem ser percebido. Isso o feriu muito. Naquele dia Venceslau viu que aquele amor era impossível. O jovem retornou ao terreiro e pediu a sua mãe de cabeça Oxum para tirar a jovem Soraia de seu coração.
- Por que está chorando Venceslau? Perguntou o velho Babalorixá.
- É Soraia, seu Domingos. A coisa ficou preta. A família dela não me aceita.
- Meu filho nada é impossível quando os Orixás tem um plano.
- O senhor acha que Zambi quer esse amor?
- Zambi quer todo amor do mundo. Todo amor é bem-vindo aos olhos de Zambi. Ele é todo amor. Espere e veja o que Oxum fará.
- Seu Domingos está tendo uma vidência?
- Digamos que tenho uma intuição. Concluiu seu Domingos.
Toda a família desceu com Agenor para Aracaju. O estado dele se agravara durante a viagem. Os médicos acharam por bem colocá-lo nos aparelhos em uma UTI.
- Soraia o diabo é astuto. Seu pai, um pregador do Evangelho nessa situação que ocorreu do nada. Agora vou perder meu marido. Disse Anita com os olhos cheios de lágrimas.
- Você está me culpando?
- Não Soraia. Apenas, estou pensando como as coisas são.
- Não! Você quis dizer que foi por causa do meu romance com o macumbeiro que isso ocorreu.
- Não foi bem assim...
As duas foram interrompidas pelo o médico que se aproximava: “Lamento, mas, o paciente não está reagindo à medicação. Ele tem plano de saúde?” Soraia e seus irmãos entraram em pranto.
- Não fiquem assim! Disse o médico tentando amenizar as coisas.
- Como doutor? Nós somos pobres!
- Lamento, mas, ele terá que ir para um hospital público. No domingo, levaram seu Domingos para o Hospital João Alves. Não havia leitos disponíveis; o homem teve que esperar no corredor. A situação de seu Agenor seu agravou com a espera. Quando foram cuidar do homem , ele já estava sem sentir as pernas e a boca havia entortado. O pregador de Cristo agora não mais poderia falar desse nome.
Os meses passaram. Seu Agenor não se conformava com sua nova vida. Sua mulher Anita nunca parara de fazer sua fé no jogo do bicho. Havia uma barraca de jogo no final da Avenida Luiz Alves. Era lá que ela tinha um compromisso todos os dias: “Paz do Senhor irmã!”
- Deixe de brincadeira Otávio! Você num sabe que isso é coisa séria. Cuidado Deus pode te castigar!
- Se ele me castigar, castigará a você também sua danada! Vai fazer uma fé em que hoje?
- Na cobra! Disse sorrindo dona Anita.
- As sete? Combinado?
- Certo!
Anita e Otávio estavam tendo um caso desde o dia que seu Agenor recebera o chamado de Cristo para pregar. O homem tinha que se santificar para sua missão e evitava a mulher constantemente. O celibato era quase uma rotina em sua vida. Com isso, sua mulher, uma baixinha dos cabelos lisos e feições europeias, não resistiu a seca, e se envolveu com o vendedor de bilhetes do jogo do bicho – O Otávio. Este nada fazia na terra, exceto, vender jogo e beber com mulheres de família. O homem era de porte e chamava a atenção das mulheres mal servidas.
Seu Agenor padecia sem aceitar a sua nova condição. Não podia andar e mal abria a boca para falar. Falava com muita dificuldade o pobre homem de Deus. Ele dizia: “Assim como Deus provou a Jó, está me provando também”. Venceslau e Soraia nunca mais se viram. O rapaz continuou freqüentando o terreiro de seu Domingos. “O moço aprende rápido!”Dizia seu Domingos. Quanto a moça Soraia a doença do pai tirou Venceslau um pouco de sua cabeça. Anita saia quase toda noite, e Soraia era única que ficava em casa. Ela tinha terminado o ensino médio e trabalhava pela manhã como caixa de supermercado. Aquela noite os ratos estavam agitados. Começaram a andar pela casa cedo. Qualquer fragmento de alimento era motivo de festa para a ratarada. A casa de Agenor tinha muitos ratos. Todas as casas devem ter ratos.
- Será meu véio?
- Deve ser minha véia, deve ser.
Aquela noite Soraia sonhou que entrava na casa de Pai Domingos. Ela chegou a pé ao centro. Abriu o portão de madeira e entrou um pouco tímida. Ela ouvia à proporção que ia vendo as plantas e as árvores do jardim da casa uma canção que lhe despertava lembranças de algo que não tinha consciência que vivera: “cheira cravo, cheira rosa, cheira flor de laranjeira... oh, abre a porta deixa as almas trabalhar...” Do lado de fora do barracão ela avista Venceslau dançando com uma espada na mão. A dança era muito bonita; era uma dança marcial. O rapaz em transe se vira e olha para Soraia. Seus olhos como que distantes não encontram o foco do olhar da moça. Apenas diz aquele que estava nele: “Deus é maior que o mundo!” Soraia ainda em seu sonho encontra uma cega sentada em um banco defronte a entrada da casa do casal. A velha fumava um cachimbo de madeira e chamou a moça para uma prosa.
- Minha fia que faz aqui?
- Num sei.
- Qual é o tamanho de Deus?
- Que pergunta besta senhora! Desculpe-me a franqueza.
- A sua pessoa acha que Deus só tem um tamanho. Será que Deus é igual na cabeça das pessoas? Num será que Deus é diferente em cada cabeça, contudo, ele é o mesmo Deus?
- Deve ser. Mas as Escrituras nos ensinam a verdade.
- Assim como as nossas consciências. Deus é um só em cabeças diferentes. Você verá que ele é maior que o mundo e não cabe dentro de uma casa só. Soraia acordou do sonho e Anita estava em pé do seu lado junto com seus irmãos. Ela não percebera, mas, durante o sono ela falava e sua língua como disseram estava “atrapalhada”. De manhã a menina saiu para comprar umas verduras e algo muito estranho aconteceu.
- Você viu seu Guilherme? Viu o vento?
- Claro que vi! Formou-se um redemoinho bem no meio da encruzilhada!
- Você ouviu a gargalhada alta?
- Não! Teve gargalhadas?
- Teve! eu ouvi! Como você não ouviu?
- Eu não ouvi gargalhada, não? Concluiu seu Guilherme com um tom de surpresa. Soraia saiu da barraca sob o olhar desconfiado das pessoas que passavam e das pessoas próximas que estavam escutando a prosa dos dois. Em Tobias é assim: “O particular logo se torna público”. Soraia caminha na direção da Avenida Luiz Alves, de longe a moça avista Anita dando risadas conversando com Otavio. Os dois estavam tão à vontade que nem perceberam a chegada da filha de Agenor.
- Anita o que você tem com Otavio? Eu estava vendo vocês de longe, e senti que havia algo. Vou dizer para meu pai!
- Deixe de ser histérica moça! Eu ia passando e Otavio, esse cretino, me chamou para apostar no bicho, e aí, você chegou. Soraia tentou falar novamente e caiu numa crise de risadas, sua fala estava toda atrapalhada. Levaram-na para a casa. Lá, seu Agenor e os irmãos da igreja oraram por ela: “Satanás! Sai desta vida em nome de Jesus! Seu Agenor queria gritar Aleluia, mas, sua voz não saia. Os outros crentes entoavam cânticos desafiando o demônio que estava no corpo da menina: “Sai, Sai, Sai, todo poder das trevas! Sai! “Mas, a minha fé você não leva...” A menina recobrou os sentidos. Uma irmã profetiza disse que ela estava com Exu.
- Tá vendo minha filha? Ainda vai andar com macumbeiro?
- Faz é tempo que não vejo Venceslau. A pergunta da crente profeta abriu uma ferida no peito de Soraia. Fazia tanto tempo. Os meses passaram sem piedade. Mesmo com a dor do pai, a menina nunca esqueceu seu amor. “Onde ele está? Será que pensa em mim?” Os ratos se multiplicaram na casa de Agenor. Agora eles andavam até de dia pela casa. Um rato calunga e sua namorada desfilavam pelas ripas da casa. Uma ratazana gorda amamentava os filhotes debaixo da peça que apoiava a televisão. As pessoas estavam tão preocupadas com o diabo que nem perceberam a festa dos ratos.
- Minha véia, as pessoas não entendem que o mundo tem tudo.
- Sim, sinhô, os ratos devem viver no seu lugar.
- Minha véia, por que os ratos gostam de morar na casa dos encarnados?
- Lá tem muita comida! Deve ser, num é?
No mês de Junho Tobias à noite vira uma geladeira. Todos foram dormir cedo. Anita voltou do culto as nove e foi direto para o quarto. As dez, a casa estava toda quieta. Somente o ronco de Agenor com as estripulias dos ratos quebravam o silêncio do lugar. Uma ratinha cinzenta muito danada foi brincar no quarto de Agenor. O pé do mesmo estava fora do cobertor. A ratinha pensando ser comida estragada por causa do cheiro deu uma mordidinha no dedão de Agenor. O homem parou o ronco assustando o animal. Os passarinhos cantaram cedo aquela manhã. O inchaço no pé de Agenor foi percebido logo: “Deve ter sido a posição de dormir”. Disse Anita. De tarde a febre tomou conta do pregador. O levaram para o hospital. Os médicos suspeitaram da mordida e disseram que era doença de rato. A cidade ficou alarmada: “Agenor meu Deus, tão bom; mordido pelo rato, e agora? Vai morrer”. O hospital de caridade estava cheio de curiosos para verem o coitado “louco” padecer do mal do rato. Venceslau soube do fato e foi até o hospital.
- Como vai Soraia? A menina Soraia quando viu seu amor correu para os seus braços. Sua alma se derreteu como manteiga apoiada em seu ombro.
- Não chore! Deus é maior que tudo. Soraia lembrou-se do sonho e pediu a Venceslau para levá-la a casa de seu Domingos. Eles mal conversaram no caminho devido à ansiedade da moça. Venceslau nada entendia, mas, acompanhava seu amor. Ele estava sem acreditar no que estava acontecendo. “Soraia, na casa de Pai Domingos?” A casa estava deserta. À porta estava uma cega sentada em um banco de madeira. Era a esposa de Domingos. Ela nunca saia de casa, mas, naquele dia ela estava do lado de fora como que esperando alguém.
- Você veio minha fia? Ontem muito padeci por tua causa.
- Como assim, senhora?
- Seu pai minha fia miorou?
- Não.
- Mas, vai miorá.
- Deus é grande. Ele é maior que nossas imaginações. O povo diz tudo dele. Uns de bem, outros de mal. No entanto, ela nada diz. Deus é maior que os nossos ditos, num é minha fia? Venceslau traz uma vela e faz um mingau para o Vovô comer! Dona Maria Conga rezou as orações dos pretos velhos, arriou a oferenda, e entrou em casa.
Seu Agenor se recuperou da doença do rato. Mas, não foi só isso. Ele voltou a andar e a falar. Em pouco tempo o velho estava pregando na feira. As pessoas que vinham de diversas localidades procuravam um lugar no meio dos outros para ouvir o “Louco de Tobias”. A igreja fez um culto de ações de graças pelo “Milagre de Deus” na vida de Agenor. Comentava-se na igreja que no próximo ano ele seria consagrado a obreiro. Os crentes falavam com muita alegria sobre a cura do homem, outros apenas falavam: “Está vendo mulher como a oração é forte?” “Também, tanta gente orando por ele, Deus só podia fazer um milagre!” “Que nada tudo isso é invenção!” As opiniões eram muitas. Contudo a opinião de seu Agenor não mudava sobre o jovem Venceslau.
- Tá vendo minha véia como Deus é bom?
- É.
- Dona Maria, e Venceslau com a moça? O que deu?
Venceslau e Soraia foram morar em Feira de Santana. Ela passou a receber uma Preta Velha que responde pelo nome de Maria Conga. Os dois abriram uma casa de axé. Venceslau se tornou Pai Jorge, e Soraia, dona Maria. Anita nunca deixou de ver o jogador de bicho. Agenor continuou pregando na feira. A cega, mulher de seu Domingos, morreu de dengue. Depois da partida de sua amada, seu Domingos perdeu a graça. Foi recolhido com os santos em Aruanda.
- Pois é meu véio, Deus é maior que o mundo.
- Num é...
Soraia saiu do trabalho na “Avenida dos Boxes” seguiu direto para casa. Sentia cólica, a moça filha de Agenor, “O louco”, aquele que nas segundas feiras ia para o meio do povo dizer que se arrependesse de seus pecados. A feira de Tobias era grande. Um mar de gente. Muitos sonhos, poucas certezas. O povo vinha de todos os lugares do município, e até de outras cidades e estados. A fé de Agenor era maior que a feira de Tobias. Por isso o homem pregava a Salvação.
Contudo Soraia, sua Filha do meio, pois, ela era a segunda filha do casal, a que nascera quando seu pai se convertera, ou enlouquecera, estava namorando um rapaz que era macumbeiro. Isso a dava muita dores de cabeça. Seu pai não aceitava o romance.
- Menina, você não sabe que os feiticeiros não herdarão o Reino de Deus! Disse Agenor com ar de quem sabe o que diz.
- Eu sei meu pai, mas, eu gosto de Venceslau. Não consigo tirá-lo da cabeça! Disse a menina com os olhos marejados.
- Então, se você já conhece a verdade, ela vai te libertar dessa paixão do diabo. Concluiu teologicamente seu Agenor.
Enquanto os dois conversavam, um rato de grande porte entra em um buraco cavado na parede de blocos da casa velha de Agenor. Os ratos aproveitavam quando as pessoas estavam na calçada para fazerem a festa com o que sobrava da refeição da família. Acho que toda casa deve ter ratos. Eles estão a onde os homens vivem.
- Pai, e se ele se convertesse? Se de repente ele visse o erro, e deixasse a macumba, e se tornasse um de nós?
- Seria uma benção minha filha! Mas, este caso é muito raro. Os feiticeiros tem parte com o demônio. E este não os deixa livres. Quando eu prego na feira, vejo quantos estão perdidos, sem rumo, sem direção. Só a nossa fé tem a verdade de Jesus. Os evangélicos são a verdadeira Igreja de Cristo porque obedecemos as Escrituras. Um rato miúdo, do tipo calunguinha foi até perto dos dois e deu uma olhada rápida. O rato, logo correu de volta para o seu buraco. Parecia apavorado.
Era uma sexta feira, o dia em que pai e filha estavam sós em casa e conversaram na calçada como é o costume da terra. Todavia a conversa com Agenor não convenceu a jovem Soraia de deixar o rapaz esotérico. Naquela mesma noite quando seu Agenor se recolhia com sua esposa, Soraia foi até a Praça do Cruzeiro ver o seu amor.
- Venceslau, por que você não deixa a macumba e vem comigo para a igreja?
- Meu bem, eu te amo, mas, não posso deixar meu Pai de Santo na mão. Eu tenho compromissos no terreiro e não posso abandoná-los.
- Que compromissos são esses, Venceslau! Isso é tudo macumba! É feitiçaria! Gritou a menina desconsolada. Aquela noite os dois não se beijaram, nem trocaram afetos. A noite foi sem graça, apenas a tristeza e a expectativa de uma separação.
No sábado pela manhã Venceslau tinha um amaci para aprontar com seu Pai de Santo. Seu Domingos era um negro que viera de Feira de Santana tentar a vida em Tobias. Os negócios fracassaram e restando-lhe somente a fé nos Orixás para sobreviver. Era um homem de caridade. Sua idade avançada não dificultava o seu trabalho, no entanto, isso não lhe desobrigava da necessidade de ter alguém de sua confiança para passar os conhecimentos de sua religião. O homem não tinha filhos. Sua mulher era idosa e cega. Passava o tempo inteiro rezando pelas almas aflitas.
- Meu véio! Dona Maria Conga tem uma palavra.
- E é minha véia?
Venceslau chegou cedo ao terreiro, fez as obrigações e foi ter com seu Domingos.
- Seu Domingos: Estou triste com uma situação.
- Qual meu filho? Perguntou seu Domingos com sua voz doce. A voz de seu Domingos parecia com a voz de um preto velho vivo, encarnado. O povo da redondeza dizia que o velho era “um preto velho vivo”.
- Minha namorada é evangélica e quer que eu deixe o terreiro para ficar com ela. Estou triste, pois, considero a religião dela legítima. Então, por que a minha não é? Dizem que servimos ao diabo.
- Meu fio: A forma como as pessoas julgam as coisa e as outras pessoas nem sempre vê com clareza. Passa muitos sentidos que lhes são obscuros. Deus é um só. Ele é a fonte suprema de onde emanam todas as virtudes e bondades possíveis. Ele é o arquiteto do Universo.
- Eu sei meu pai. Desde criança que sua pessoa me conta das lendas dos orixás. De Deus emanam sete raios. E estes raios são as manifestações de Deus para os homens e toda a natureza.
- Então, meu fio.
Venceslau saiu mais em paz. Não podemos dizer o mesmo da pequena Soraia. Seu pai a aguardava para saber qual foi a decisão do rapaz.
- Minha filha, o rapaz decidiu aceitar Jesus?
- Não meu pai. Ele nada prometeu.
Soraia foi para seu quarto. A menina queria ficar a sós. Em seu quarto ela orou a Deus e decidiu deixar Venceslau.
“Meu Senhor, muito obrigado pela força que o Senhor me dar nesse momento para esquecer Venceslau. Eu o entrego em suas mãos. Se ele for para ser meu, converte-o para ti”. Soraia se deitou para descansar e pegou no sono.
Enquanto isso seu pai sai para o mercado comprar algumas coisas. Sua mulher dona Anita o pediu para comprar algumas verduras. Anita era a segunda mulher de Agenor. A primeira morrera do vento. Dizem que o vento passa e a pessoa morre. Seu Agenor aproveitou o ensejo para abrir a Bíblia defronte às barracas da “Feira da Verdura” às dez da manhã. Seu Agenor alertava o povo sobre a Volta de Cristo quando um homem forte e alto tombou nele no meio da rua caindo sobre seu frágil corpo. Seu Agenor fez muita força para sair de debaixo do homem. Acho que esse esforço agravou as condições do profeta de Tobias, Agenor dos Anjos. Agenor dizia aleluia, aleluia, e aí, aí, aí. A dor era grande. O povo teve piedade e levou o homem para o Hospital de Caridade.
“A situação do homem é grave; atingiu a cabeça. Foi traumatismo craniano. Estamos aguardando para leva-lo para Aracaju”.
Foi isso que Dona Anita, Sorai, Francisca, e Antenor ouviram dos médicos quando chegaram para ver o pobre Agenor. Venceslau soube do ocorrido e foi ao hospital consolar sua amada.
- Meu bem, como está seu Agenor?
- Vão levá-lo para Aracaju.
- Não sei, a coisa parece grave.
- Não tema Oxalá não nos desampara.
- Como? Venceslau, como foi que você disse?
- Eu disse que Jesus vai nos abençoar e seu pai vai ficar bom. Dona Anita ouvia a conversa e se meteu no meio com a intenção de constranger o rapaz. “Eu não te disse minha filha? Namorar macumbeiro é coisa séria. Olha seu pai! Como foi isso? Ele fica invocando os demônios dele, sei lá?” Venceslau ficou tão envergonhado que saiu do hospital sem ser percebido. Isso o feriu muito. Naquele dia Venceslau viu que aquele amor era impossível. O jovem retornou ao terreiro e pediu a sua mãe de cabeça Oxum para tirar a jovem Soraia de seu coração.
- Por que está chorando Venceslau? Perguntou o velho Babalorixá.
- É Soraia, seu Domingos. A coisa ficou preta. A família dela não me aceita.
- Meu filho nada é impossível quando os Orixás tem um plano.
- O senhor acha que Zambi quer esse amor?
- Zambi quer todo amor do mundo. Todo amor é bem-vindo aos olhos de Zambi. Ele é todo amor. Espere e veja o que Oxum fará.
- Seu Domingos está tendo uma vidência?
- Digamos que tenho uma intuição. Concluiu seu Domingos.
Toda a família desceu com Agenor para Aracaju. O estado dele se agravara durante a viagem. Os médicos acharam por bem colocá-lo nos aparelhos em uma UTI.
- Soraia o diabo é astuto. Seu pai, um pregador do Evangelho nessa situação que ocorreu do nada. Agora vou perder meu marido. Disse Anita com os olhos cheios de lágrimas.
- Você está me culpando?
- Não Soraia. Apenas, estou pensando como as coisas são.
- Não! Você quis dizer que foi por causa do meu romance com o macumbeiro que isso ocorreu.
- Não foi bem assim...
As duas foram interrompidas pelo o médico que se aproximava: “Lamento, mas, o paciente não está reagindo à medicação. Ele tem plano de saúde?” Soraia e seus irmãos entraram em pranto.
- Não fiquem assim! Disse o médico tentando amenizar as coisas.
- Como doutor? Nós somos pobres!
- Lamento, mas, ele terá que ir para um hospital público. No domingo, levaram seu Domingos para o Hospital João Alves. Não havia leitos disponíveis; o homem teve que esperar no corredor. A situação de seu Agenor seu agravou com a espera. Quando foram cuidar do homem , ele já estava sem sentir as pernas e a boca havia entortado. O pregador de Cristo agora não mais poderia falar desse nome.
Os meses passaram. Seu Agenor não se conformava com sua nova vida. Sua mulher Anita nunca parara de fazer sua fé no jogo do bicho. Havia uma barraca de jogo no final da Avenida Luiz Alves. Era lá que ela tinha um compromisso todos os dias: “Paz do Senhor irmã!”
- Deixe de brincadeira Otávio! Você num sabe que isso é coisa séria. Cuidado Deus pode te castigar!
- Se ele me castigar, castigará a você também sua danada! Vai fazer uma fé em que hoje?
- Na cobra! Disse sorrindo dona Anita.
- As sete? Combinado?
- Certo!
Anita e Otávio estavam tendo um caso desde o dia que seu Agenor recebera o chamado de Cristo para pregar. O homem tinha que se santificar para sua missão e evitava a mulher constantemente. O celibato era quase uma rotina em sua vida. Com isso, sua mulher, uma baixinha dos cabelos lisos e feições europeias, não resistiu a seca, e se envolveu com o vendedor de bilhetes do jogo do bicho – O Otávio. Este nada fazia na terra, exceto, vender jogo e beber com mulheres de família. O homem era de porte e chamava a atenção das mulheres mal servidas.
Seu Agenor padecia sem aceitar a sua nova condição. Não podia andar e mal abria a boca para falar. Falava com muita dificuldade o pobre homem de Deus. Ele dizia: “Assim como Deus provou a Jó, está me provando também”. Venceslau e Soraia nunca mais se viram. O rapaz continuou freqüentando o terreiro de seu Domingos. “O moço aprende rápido!”Dizia seu Domingos. Quanto a moça Soraia a doença do pai tirou Venceslau um pouco de sua cabeça. Anita saia quase toda noite, e Soraia era única que ficava em casa. Ela tinha terminado o ensino médio e trabalhava pela manhã como caixa de supermercado. Aquela noite os ratos estavam agitados. Começaram a andar pela casa cedo. Qualquer fragmento de alimento era motivo de festa para a ratarada. A casa de Agenor tinha muitos ratos. Todas as casas devem ter ratos.
- Será meu véio?
- Deve ser minha véia, deve ser.
Aquela noite Soraia sonhou que entrava na casa de Pai Domingos. Ela chegou a pé ao centro. Abriu o portão de madeira e entrou um pouco tímida. Ela ouvia à proporção que ia vendo as plantas e as árvores do jardim da casa uma canção que lhe despertava lembranças de algo que não tinha consciência que vivera: “cheira cravo, cheira rosa, cheira flor de laranjeira... oh, abre a porta deixa as almas trabalhar...” Do lado de fora do barracão ela avista Venceslau dançando com uma espada na mão. A dança era muito bonita; era uma dança marcial. O rapaz em transe se vira e olha para Soraia. Seus olhos como que distantes não encontram o foco do olhar da moça. Apenas diz aquele que estava nele: “Deus é maior que o mundo!” Soraia ainda em seu sonho encontra uma cega sentada em um banco defronte a entrada da casa do casal. A velha fumava um cachimbo de madeira e chamou a moça para uma prosa.
- Minha fia que faz aqui?
- Num sei.
- Qual é o tamanho de Deus?
- Que pergunta besta senhora! Desculpe-me a franqueza.
- A sua pessoa acha que Deus só tem um tamanho. Será que Deus é igual na cabeça das pessoas? Num será que Deus é diferente em cada cabeça, contudo, ele é o mesmo Deus?
- Deve ser. Mas as Escrituras nos ensinam a verdade.
- Assim como as nossas consciências. Deus é um só em cabeças diferentes. Você verá que ele é maior que o mundo e não cabe dentro de uma casa só. Soraia acordou do sonho e Anita estava em pé do seu lado junto com seus irmãos. Ela não percebera, mas, durante o sono ela falava e sua língua como disseram estava “atrapalhada”. De manhã a menina saiu para comprar umas verduras e algo muito estranho aconteceu.
- Você viu seu Guilherme? Viu o vento?
- Claro que vi! Formou-se um redemoinho bem no meio da encruzilhada!
- Você ouviu a gargalhada alta?
- Não! Teve gargalhadas?
- Teve! eu ouvi! Como você não ouviu?
- Eu não ouvi gargalhada, não? Concluiu seu Guilherme com um tom de surpresa. Soraia saiu da barraca sob o olhar desconfiado das pessoas que passavam e das pessoas próximas que estavam escutando a prosa dos dois. Em Tobias é assim: “O particular logo se torna público”. Soraia caminha na direção da Avenida Luiz Alves, de longe a moça avista Anita dando risadas conversando com Otavio. Os dois estavam tão à vontade que nem perceberam a chegada da filha de Agenor.
- Anita o que você tem com Otavio? Eu estava vendo vocês de longe, e senti que havia algo. Vou dizer para meu pai!
- Deixe de ser histérica moça! Eu ia passando e Otavio, esse cretino, me chamou para apostar no bicho, e aí, você chegou. Soraia tentou falar novamente e caiu numa crise de risadas, sua fala estava toda atrapalhada. Levaram-na para a casa. Lá, seu Agenor e os irmãos da igreja oraram por ela: “Satanás! Sai desta vida em nome de Jesus! Seu Agenor queria gritar Aleluia, mas, sua voz não saia. Os outros crentes entoavam cânticos desafiando o demônio que estava no corpo da menina: “Sai, Sai, Sai, todo poder das trevas! Sai! “Mas, a minha fé você não leva...” A menina recobrou os sentidos. Uma irmã profetiza disse que ela estava com Exu.
- Tá vendo minha filha? Ainda vai andar com macumbeiro?
- Faz é tempo que não vejo Venceslau. A pergunta da crente profeta abriu uma ferida no peito de Soraia. Fazia tanto tempo. Os meses passaram sem piedade. Mesmo com a dor do pai, a menina nunca esqueceu seu amor. “Onde ele está? Será que pensa em mim?” Os ratos se multiplicaram na casa de Agenor. Agora eles andavam até de dia pela casa. Um rato calunga e sua namorada desfilavam pelas ripas da casa. Uma ratazana gorda amamentava os filhotes debaixo da peça que apoiava a televisão. As pessoas estavam tão preocupadas com o diabo que nem perceberam a festa dos ratos.
- Minha véia, as pessoas não entendem que o mundo tem tudo.
- Sim, sinhô, os ratos devem viver no seu lugar.
- Minha véia, por que os ratos gostam de morar na casa dos encarnados?
- Lá tem muita comida! Deve ser, num é?
No mês de Junho Tobias à noite vira uma geladeira. Todos foram dormir cedo. Anita voltou do culto as nove e foi direto para o quarto. As dez, a casa estava toda quieta. Somente o ronco de Agenor com as estripulias dos ratos quebravam o silêncio do lugar. Uma ratinha cinzenta muito danada foi brincar no quarto de Agenor. O pé do mesmo estava fora do cobertor. A ratinha pensando ser comida estragada por causa do cheiro deu uma mordidinha no dedão de Agenor. O homem parou o ronco assustando o animal. Os passarinhos cantaram cedo aquela manhã. O inchaço no pé de Agenor foi percebido logo: “Deve ter sido a posição de dormir”. Disse Anita. De tarde a febre tomou conta do pregador. O levaram para o hospital. Os médicos suspeitaram da mordida e disseram que era doença de rato. A cidade ficou alarmada: “Agenor meu Deus, tão bom; mordido pelo rato, e agora? Vai morrer”. O hospital de caridade estava cheio de curiosos para verem o coitado “louco” padecer do mal do rato. Venceslau soube do fato e foi até o hospital.
- Como vai Soraia? A menina Soraia quando viu seu amor correu para os seus braços. Sua alma se derreteu como manteiga apoiada em seu ombro.
- Não chore! Deus é maior que tudo. Soraia lembrou-se do sonho e pediu a Venceslau para levá-la a casa de seu Domingos. Eles mal conversaram no caminho devido à ansiedade da moça. Venceslau nada entendia, mas, acompanhava seu amor. Ele estava sem acreditar no que estava acontecendo. “Soraia, na casa de Pai Domingos?” A casa estava deserta. À porta estava uma cega sentada em um banco de madeira. Era a esposa de Domingos. Ela nunca saia de casa, mas, naquele dia ela estava do lado de fora como que esperando alguém.
- Você veio minha fia? Ontem muito padeci por tua causa.
- Como assim, senhora?
- Seu pai minha fia miorou?
- Não.
- Mas, vai miorá.
- Deus é grande. Ele é maior que nossas imaginações. O povo diz tudo dele. Uns de bem, outros de mal. No entanto, ela nada diz. Deus é maior que os nossos ditos, num é minha fia? Venceslau traz uma vela e faz um mingau para o Vovô comer! Dona Maria Conga rezou as orações dos pretos velhos, arriou a oferenda, e entrou em casa.
Seu Agenor se recuperou da doença do rato. Mas, não foi só isso. Ele voltou a andar e a falar. Em pouco tempo o velho estava pregando na feira. As pessoas que vinham de diversas localidades procuravam um lugar no meio dos outros para ouvir o “Louco de Tobias”. A igreja fez um culto de ações de graças pelo “Milagre de Deus” na vida de Agenor. Comentava-se na igreja que no próximo ano ele seria consagrado a obreiro. Os crentes falavam com muita alegria sobre a cura do homem, outros apenas falavam: “Está vendo mulher como a oração é forte?” “Também, tanta gente orando por ele, Deus só podia fazer um milagre!” “Que nada tudo isso é invenção!” As opiniões eram muitas. Contudo a opinião de seu Agenor não mudava sobre o jovem Venceslau.
- Tá vendo minha véia como Deus é bom?
- É.
- Dona Maria, e Venceslau com a moça? O que deu?
Venceslau e Soraia foram morar em Feira de Santana. Ela passou a receber uma Preta Velha que responde pelo nome de Maria Conga. Os dois abriram uma casa de axé. Venceslau se tornou Pai Jorge, e Soraia, dona Maria. Anita nunca deixou de ver o jogador de bicho. Agenor continuou pregando na feira. A cega, mulher de seu Domingos, morreu de dengue. Depois da partida de sua amada, seu Domingos perdeu a graça. Foi recolhido com os santos em Aruanda.
- Pois é meu véio, Deus é maior que o mundo.
- Num é...
segunda-feira, 15 de janeiro de 2018
A VIDENTE
“Eu não posso contar tudo que vi e tudo que senti. Só posso dizer que eu vi; e o que eu vi, mudou tudo...”
Para Agatha, desde doze anos, a menina morena, de cabelos pretos e pele branca européia caminhava para a pequena Igreja no centro da cidade. Ela era cristã protestante; congregava na Igreja do Evangelho Santo. A moça esperava a volta de Cristo a qualquer momento. Suas orações nunca cessavam, fosse pelos seus familiares, ou pelos seus amigos, ou inimigos. Talita era uma moça evangélica que tinha certeza de sua salvação; a palavra de Deus, em suas mãos, era descortinada diante de olhos escolados ou não. Diz o povo que um dia a moça portadora de uma grande e misteriosa sabedoria explanou o evangelho para um doutor da universidade. Seus pais enchiam o peito de orgulho por sua filha pequena. Eles davam glória a Deus por tudo todos os dias.
- Sabe Geraldo! Acho que Talita tem o chamado do Senhor.
- Eu também acho mulher. Mas deixa a coisa aflorar! Geraldo e sua mulher Zefinha eram pessoas de classe simples. Tinham o bastante, nada de riqueza. O casal também servia ao Deus vivo com todo o coração.
Tobias Barreto, nessa época, crescia muito rapidamente. O comercio crescia como as novas Igrejas. Em cada rua do município havia uma. O comercio de Tobias se expandia como a fé de seu povo. O Pastor Elenildo, um dia, disse: “A fé é tão necessária como o dinheiro. Com ela se abre as portas do Céu, e com ele, as portas da terra”.
Talita entrou na igreja naquele domingo como era de costume. Cumprimentou a todos, deu a Paz do Senhor a todos, e se dirigiu ao seu lugar nos bancos da mocidade. O culto logo iniciou com a oração do prelúdio. O pastor levantou a voz em prece pela congregação e por todos os tobienses. Em seguida um grupo de jovens toma a direção e conduz o louvor. Talita acompanhava tudo com reverência e temor ao Senhor. Para a moça aquele seria mais um culto a Deus em sua vida. O pastor Elenildo, um homem de bem, considerado por toda a comunidade, pega a palavra da pregação. O homem brilhava naquele púlpito. Sua testa branca suada refletia o suor de uma alma servindo a seu Deus.
“Meus caros, Em face do momento em que vivemos, urge fazermos um enfrentamento da realidade seguindo coordenadas evangélicas. O apostolo não falou, por acaso, que nos dias finais as pessoas zombariam da Palavra e escarneceriam do próprio Senhor. Vivemos esta hora, amados! Vivemos o tempo da apostasia...”
A pequena Talita de olhos fechados e contrita tem uma visão: A pequena via uma forma azul no céu da igreja. Como se do teto saísse uma pessoa cuja luz era azul da cor do céu. O ser divino descia em espiral até o meio do povo. Este sem nada saber dava glória a Deus repetida vezes e intercalavam a louvação com aleluias vigorosas que fizeram as paredes do santuário tremer; Talita se assusta ao abrir os olhos. Fecha novamente os olhos e nada mais ver. Seu coração ardia como uma tocha de fogo. Mas, nada disse para ninguém. Todos foram embora, e ela também. Em casa a menina pergunta ao Espírito Santo sobre aquela visão: “Meu Senhor o que eu vi veio de ti? Se foi, o que foi que eu vi? Pois não entendo!” Zefinha havia preparado um cuscuz. A família, unida e feliz, comi antes de ir para a cama. Na cama, a menina repassa sua visão: “Um ser parecendo do sexo feminino desce do céu com um sabre na mão. Ela fazia movimentos espirais. Sua cor era azul celeste. Sua presença no santuário fez o povo, mesmo sem nada ver, louvar a Deus”.
A Igreja do Evangelho Santo de Talita, embora, renovada tinha muitas restrições às manifestações do Espírito Santo. O Diácono Celestino quem o diga. Muitos pastores perderam seus pastorados na Igreja do Evangelho Santo. Todos que vieram com suas revelações do Espírito Santo foram perseguidos. Celestino presidia os diáconos há quase vinte anos. Ele nunca perdoou um místico de Deus. O homem cria na visão racional das escrituras e que a razão é o motor para a compreensão das verdades divinas.
Talita com muita cautela procura dona Vera, a presidente do grupo de oração da igreja. O povo dizia que Vera falava em línguas estranhas. Diz o povo que ela entrava em transe e falava com o Espírito Santo nas línguas dadas por Ele. A igreja estava nitidamente dividida nessa questão, a xenolália. Os que se diziam bereanos “os que conferem as escrituras”, e os pentecostais - os que acreditavam nos dons do Espírito Santo. No entanto, a igreja como um todo era considerada fundamentalista. O movimento renovado não criara raízes na Igreja do Evangelho Santo.
- Dona Vera eu gostaria de te contar uma coisa. Faz uma semana que tive uma experiência e estou sem entender. Disse Talita.
- Minha filha você é uma moça nova, ainda menina, o que foi que houve?
- Dona Vera, apesar de ter apenas doze anos, eu sei o que vejo e o que escuto.
- O que houve minha filha? O pastor brigou contigo? Foi algum irmão ou irmã da igreja? Conte!
- Eu estava no culto neste último sábado e vi algo; algo sobrenatural. Acho que foi o Espírito Santo.
- O Espírito Santo?
- Sim!
- Por que Ele falaria com você? Tão novinha! Acho que o Espírito Santo fala com o Pastor, não?
- Dona Vera eu vi descendo do teto do santuário a figura de uma mulher. Ela era toda azul celeste; tinha um sabre na mão. Quando a vi, o povo deu glória a Deus. Depois olhei; vi vários pastores sentados, uns a direita, outros a esquerda de nosso pastor. Uns subiam de suas cadeiras e depois desciam. Outros ficavam da mesma altura. Acho que o Espírito Santo está dizendo que nossa igreja precisa de humildade.
- Minha filha! Nossa cabeça imagina tanta coisa estranha. Você está gostando de algum garotinho de sua idade? Talita viu que a presidente do grupo de oração nada lhe acrescentaria. A mulher não conseguia ver ou sentir nada sobre o mundo do Espírito. A menina decidiu ir para a Igreja e orar a Deus para Ele aliviar sua alma, ou se fosse o caso, perdoar seu orgulho e vaidade.
“Senhor, Meu Deus, Quem é tua pequena serva para ter uma Palavra do Espírito Santo para tua Igreja? Perdoa-me meu Deus!” Nesse ponto Talita chorava pela sua experiência que ela não entendia. Nesse estado de profunda oração, a moça, com os olhos fechados, ver por toda a Igreja sapos, cobras, e outros animais. Os animais estavam espalhados pelos os cômodos da igreja. Defronte ao púlpito havia um macaquinho preto de cabeça branca. “Esse é aquele responsável pela estripulia do pastor. Ele deve, e seu débito não será pago. Isso será sua queda. Medite sobre os outros animais e saberás o que há”.
- Quem fala comigo? Quem fala comigo? Gritou Talita sem sucesso de respostas. A moça saiu do templo com o coração ardendo. O sol subia no céu. Era quase meio dia. Talita vai para o missionário refletir sobre o ocorrido. Nessa época o missionário que era um pequeno zoológico de Tobias recebia pessoas todos os dias. Talita estava só. A moça sentava debaixo de um pé de eucalipto, ao lado da jaula dos macacos.
“Meu Deus, O pastor vai cair e eu posso ajudá-lo, mas, quem vai acreditar em mim?” Um macaquinho danado deu uma risada forte. Parecia que ela dizia alguma coisa para a pequena.
O vento soprava forte no eucalipto. Saia um zumbido intenso e agudo. Era como se o tempo chorasse. Dizem que quando tempo tem as mãos cruzadas, ele chora. Às vezes alguém escuta o choro do tempo. Talita disse para si mesma: “Eu vou avisar o pastor”.
- Pastor Elenildo!
- Sim!
- Deus pode falar com uma criança de doze anos?
- Sim, pode!
- Então, Ele me disse que sua pessoa vai cair se não pagar sua dívida!
- Calma! Calma! Menininha! Eu devo, mas, o dinheiro será levantado! No momento já tenho a metade. O restante o diácono Celestino garantiu que me conseguiria. Então fique tranquila que seu pastor não vai escandalizar o nome da Igreja. Talita voltou para sua casa de cabeça baixa e não mais quis saber de suas visões. Dois anos passaram o pastor Elenildo foi chamado a depor na delegacia sobre três cheques sem fundo. O nome da Igreja foi parar nos jornais. O escândalo foi grande. Naquela época não havia políticos prontos para abafar as coisas. Talita sabia que suas visões faziam sentido, no entanto, decidiu esquecê-las.
A Igreja passou pouco tempo sem pastor. Fernando veio de Alagoas fazer a diferença no Senhor. Era um jovem solteiro cheio de vida e de vontade de trabalhar. “Irmãos, quando senti o chamado do Senhor para essa obra; eu orei muito; e o senhor me respondeu em sonho. Eu estava, aqui, em Tobias, e na minha frente estava essa Igreja. As pessoas entravam aos montes. Muitas almas serão salvas”. A Igreja quase que entrava em delírio de tanta alegria com o novo pastor.
- Mas, o homem é solteiro! A bíblia nos diz que devemos fugir de toda a aparência do mal. Como ele vai vencer a tentação da saia? Questionou o diácono Celestino aos outros diáconos. O tempo passou. A jovem Talita tinha somente quatorze anos agora. A menina foi ao culto da mocidade em um sábado de verão quente. A igreja estava cheia de jovens de várias religiões. Fernando era um bom pastor e fazia um excelente trabalho com a mocidade da Igreja. Novos instrumentos foram comprados e organizada foi uma banda de Jovens. Era chamada de “Banda Esperança”. O culto começou às sete e meia em ponto. O templo estava cheio. Fernando faz a oração inicial e passa a palavra para o dirigente dos louvores – a jovem Marilucia. O culto foi muito fervoroso. Em determinados momentos alguns jovens entravam em quase transe. Diziam eles que sentiam o Espírito Santo muito perto. A jovem Talita naquela noite de sábado viu uma cobra gigante rodando o oitão da igreja. A menina tomou um susto e gritou, isso fez o culto parar.
- O que houve Talita?
- Não sei. Disse Talita com muito medo.
O grupo de mocidade pediu a igreja para orar por Talita. Toda a igreja se ergueu em oração pela jovem. Durante a oração Talita via Fernando enrolado pela cobra. E esta mordia sua cabeça causando-lhe a morte. Talita entende que Fernando seria ferido por um sentimento profundo, isso seria sua ruína. “O que posso fazer?”
- Vera eu vi Fernando sendo engolido por uma cobra enorme.
- Menina! Deixe dessas coisas! Somos renovados, mas, não acreditamos em qualquer visão. Não será que você estar apaixonada pelo novo pastor e não sabe? Parece que as moças todas estão loucas por ele. Jovem, inteligente, bonito!
- Não é isso Vera! O que eu vi eu vi! Mas, uma vez Talita não era acreditada. A moça estava se acostumando com as coisas. Ela orou a Deus e pediu uma orientação. “Deus, se eu devo avisar teu servo, então, me fala pela Palavra”. Na manhã do outro dia, Talita abriu a bíblia e não encontrou resposta alguma. Leu alguns versículos, mas, nada que a remetesse a visão. “Deus me diz, então, que desta vez foi minha imaginação”. Talita agradeceu a Deus pela Sua resposta. Sete meses se passaram da data da visão ao dia do escândalo do novo pastor. Uma moça jovem apareceu grávida. A menina resistiu um tempo, depois contou tudo à direção da Igreja. Celestino aproveitou o ensejo para afinar seu discurso: “Pastor solteiro não pode dar certo”.
O novo pastor era um homem velho casado com uma mulher de etnia africana. O casal tinha dois filhos. Ambos eram formados e viviam no Rio de janeiro. O casal de idoso gozava da sabedoria e da graça divina. Soboto soube da jovem vidente da Igreja.
- Minha filha, você vê com os olhos abertos ou fechados?
- Não faz diferença. Eu vejo de todo jeito.
- Desde quando isso acontece?
- Desde criança.
- Você fala em línguas?
- Não. Mas, tudo que vejo acontece.
- Quando você vê algo depois você sabe o que viu?
- Às vezes eu sei, às vezes não.
- Entendo. A conversa com Soboto muito ajudou a jovem Talita. Ela entendeu que ela era dotada de faculdades dadas por Deus desde o seu nascimento, e que o que ela chamava de sobrenatural era a manifestação natural da natureza. Talita tinha na época dezoito anos. Nunca mais ela tivera visões. Isso durou muito tempo. Talita passou no concurso do estado, foi trabalhar como servente de uma escola estadual. Seu marido, um rapaz iluminado, era ajudante de pedreiro. O moço, embora, muito trabalhador, nunca gostou das letras. Mas, era um crente fiel.
- Talita! Talita!
- Sim!
- Celestino vai levantar a mão contra o pastor. Ele deseja ser pastor em seu lugar.
- Como? Quem fala? A voz falou-lhe três vezes. A menina estava lavando o banheiro da escola. Com a força do transe ela caiu inconsciente acordando em casa. Seus familiares nada sabiam. O médico do posto disse que o ocorrido foi por causa da gravidez. Todo mundo se aquietou, menos Talita. “E agora?” “O que vou fazer?” Essa se tornou sua preocupação. As visões da moça eram agora acompanhadas de vozes. A tudo ela atribuía à força do Divino Espírito Santo. “Eu sei que Ele está em mim”.
Celestino venceu o pastor e o expulsou da igreja. Convenceu a Associação a colocá-lo como pastor. O diácono velho e tarimbado, finalmente, chegara ao cargo que tanto cobiçara. “A igreja do Evangelho Santo terá o maior ministério de sua história”. Os diáconos estavam do seu lado. Coisa que não acontecera com os outros pastores. Sempre eles foram oposição a qualquer um que subisse ao púlpito. Seu Sandoval perguntou a Celestino na primeira reunião de obreiros: “O que você fará com os místicos e renovados da Igreja?” “Eles sentirão o peso de minha mão”. Essa foi a resposta do diácono pastor.
Três meses passaram. A barriga de Talita chamava a atenção de todos.
- Minha filha louvado seja Deus por ti.
- É minha mãe. O Senhor tem nos abençoado muito. Deus abençoe Celestino nessa nova missão.
No culto de quarta feira. A igreja estava reunida para ouvir a pregação do presidente regional da Associação. O pastor Honorato. Este discorreu sobre a importância dos dízimos e das ofertas anuais de missões. “Meus irmãos, O Brasil é o celeiro do mundo, a pátria do evangelho!” Enquanto o homem pregava, Talita sentiu a presença de Deus, como ela dizia. Ela via Celestino visitando Honorato no Hospital. O pobre pregador de missões estava muito ferido. Ele estava na UTI. Depois Celestino anunciava a Igreja a morte do homem. Ele seria seu sucessor. Talita num ímpeto se levanta e diz a Honorato que não viajasse aquela noite para Salvador. A mensagem parou, a igreja ensurdeceu, e todo muito olhava para cara do outro.
- O sangue de Jesus tem poder! Gritou Celestino.
- Foi o Senhor mesmo quem me falou! Respondeu Talita.
- Você deve estar possessa, minha filha! Isso não se diz!
- Eu devo dizer a palavra do Senhor! Continuou Talita.
- Deve estar possessa mesmo! Alguns diáconos foram até Talita e chamaram os fiéis para uma oração de intercessão pela vidente. O povo gritava, alguns falavam em línguas. E toda a congregação entrou em estado de loucura coletiva. Com a emoção Talita passou mal sendo levada ao hospital. A eclampse foi fulminante. A criança morta teve de ser retirada as pressas; a mãe ficou sob observação no hospital. Era noite quando um velho negro entra na enfermaria onde Talita estava.
- Minha filha Deus vê pelos olhos do homem?
- Então o homem vê pelos olhos de Deus? Respondeu Talita inconsciente.
- Sim, é certo. Mas, nem tudo que Deus mostra; o homem quer ver.
- Sim, eu sei; eu vi.
- Põe teu barraco e ora com o povo, e pelo povo. A oração muito pode. Teus olhos verão a bondade de Zambi.
Talita voltou à consciência. A lembrança daquele rosto negro e sereno não saía de sua cabeça. Ela decidiu não mais perguntar nada a dona Vera, a chefe do grupo de oração. Separou um horário em sua humilde casa e começou um grupo de oração. No início era ela e o marido. Depois o povo foi chegando. Uns vinham doentes, outros sem orientação, outros viciados, e muitos com a vida atrapalhada. A oração e a vidência de Talita atenderam a todos. A cidade de Campos sabia da oração da casa de Talita. “Leve um quilo de alimento senão ela não te atende. É para os pobres, mulher!”
- Menina, eu tive lá para saber se Cledson me amava. Pois, a mulher não disse que ele estava com outra, mas, que ele gostava de mim.
- E foi mulher?
- Foi.
- Eu soube da mãe do finado Flávio, a pobre nunca se conformava com a partida do filho, pois a vidente num recebeu o espírito do finado! Diz o povo que ele esteve em uma colônia que fica aqui perto da terra.
- E foi comadre?
- Foi.
- Será mesmo?
Talita se tornou mulher de oração. Uma vidente desse mundo de Deus. Sempre um velho negro rondava sua casa. Muitas vezes ela sonhava com ele, sentado em um toco, fumando seu cachimbo. O cheiro de alfazema enche seus pensamentos. Deus veio na forma de um bicho – uma pomba para João Batista. Para Talita, Deus apareceu na forma de um escravo, um Preto Velho...
Tobias Barreto, 27 de janeiro de 2012. Roosevelt Vieira Leite
Para Agatha, desde doze anos, a menina morena, de cabelos pretos e pele branca européia caminhava para a pequena Igreja no centro da cidade. Ela era cristã protestante; congregava na Igreja do Evangelho Santo. A moça esperava a volta de Cristo a qualquer momento. Suas orações nunca cessavam, fosse pelos seus familiares, ou pelos seus amigos, ou inimigos. Talita era uma moça evangélica que tinha certeza de sua salvação; a palavra de Deus, em suas mãos, era descortinada diante de olhos escolados ou não. Diz o povo que um dia a moça portadora de uma grande e misteriosa sabedoria explanou o evangelho para um doutor da universidade. Seus pais enchiam o peito de orgulho por sua filha pequena. Eles davam glória a Deus por tudo todos os dias.
- Sabe Geraldo! Acho que Talita tem o chamado do Senhor.
- Eu também acho mulher. Mas deixa a coisa aflorar! Geraldo e sua mulher Zefinha eram pessoas de classe simples. Tinham o bastante, nada de riqueza. O casal também servia ao Deus vivo com todo o coração.
Tobias Barreto, nessa época, crescia muito rapidamente. O comercio crescia como as novas Igrejas. Em cada rua do município havia uma. O comercio de Tobias se expandia como a fé de seu povo. O Pastor Elenildo, um dia, disse: “A fé é tão necessária como o dinheiro. Com ela se abre as portas do Céu, e com ele, as portas da terra”.
Talita entrou na igreja naquele domingo como era de costume. Cumprimentou a todos, deu a Paz do Senhor a todos, e se dirigiu ao seu lugar nos bancos da mocidade. O culto logo iniciou com a oração do prelúdio. O pastor levantou a voz em prece pela congregação e por todos os tobienses. Em seguida um grupo de jovens toma a direção e conduz o louvor. Talita acompanhava tudo com reverência e temor ao Senhor. Para a moça aquele seria mais um culto a Deus em sua vida. O pastor Elenildo, um homem de bem, considerado por toda a comunidade, pega a palavra da pregação. O homem brilhava naquele púlpito. Sua testa branca suada refletia o suor de uma alma servindo a seu Deus.
“Meus caros, Em face do momento em que vivemos, urge fazermos um enfrentamento da realidade seguindo coordenadas evangélicas. O apostolo não falou, por acaso, que nos dias finais as pessoas zombariam da Palavra e escarneceriam do próprio Senhor. Vivemos esta hora, amados! Vivemos o tempo da apostasia...”
A pequena Talita de olhos fechados e contrita tem uma visão: A pequena via uma forma azul no céu da igreja. Como se do teto saísse uma pessoa cuja luz era azul da cor do céu. O ser divino descia em espiral até o meio do povo. Este sem nada saber dava glória a Deus repetida vezes e intercalavam a louvação com aleluias vigorosas que fizeram as paredes do santuário tremer; Talita se assusta ao abrir os olhos. Fecha novamente os olhos e nada mais ver. Seu coração ardia como uma tocha de fogo. Mas, nada disse para ninguém. Todos foram embora, e ela também. Em casa a menina pergunta ao Espírito Santo sobre aquela visão: “Meu Senhor o que eu vi veio de ti? Se foi, o que foi que eu vi? Pois não entendo!” Zefinha havia preparado um cuscuz. A família, unida e feliz, comi antes de ir para a cama. Na cama, a menina repassa sua visão: “Um ser parecendo do sexo feminino desce do céu com um sabre na mão. Ela fazia movimentos espirais. Sua cor era azul celeste. Sua presença no santuário fez o povo, mesmo sem nada ver, louvar a Deus”.
A Igreja do Evangelho Santo de Talita, embora, renovada tinha muitas restrições às manifestações do Espírito Santo. O Diácono Celestino quem o diga. Muitos pastores perderam seus pastorados na Igreja do Evangelho Santo. Todos que vieram com suas revelações do Espírito Santo foram perseguidos. Celestino presidia os diáconos há quase vinte anos. Ele nunca perdoou um místico de Deus. O homem cria na visão racional das escrituras e que a razão é o motor para a compreensão das verdades divinas.
Talita com muita cautela procura dona Vera, a presidente do grupo de oração da igreja. O povo dizia que Vera falava em línguas estranhas. Diz o povo que ela entrava em transe e falava com o Espírito Santo nas línguas dadas por Ele. A igreja estava nitidamente dividida nessa questão, a xenolália. Os que se diziam bereanos “os que conferem as escrituras”, e os pentecostais - os que acreditavam nos dons do Espírito Santo. No entanto, a igreja como um todo era considerada fundamentalista. O movimento renovado não criara raízes na Igreja do Evangelho Santo.
- Dona Vera eu gostaria de te contar uma coisa. Faz uma semana que tive uma experiência e estou sem entender. Disse Talita.
- Minha filha você é uma moça nova, ainda menina, o que foi que houve?
- Dona Vera, apesar de ter apenas doze anos, eu sei o que vejo e o que escuto.
- O que houve minha filha? O pastor brigou contigo? Foi algum irmão ou irmã da igreja? Conte!
- Eu estava no culto neste último sábado e vi algo; algo sobrenatural. Acho que foi o Espírito Santo.
- O Espírito Santo?
- Sim!
- Por que Ele falaria com você? Tão novinha! Acho que o Espírito Santo fala com o Pastor, não?
- Dona Vera eu vi descendo do teto do santuário a figura de uma mulher. Ela era toda azul celeste; tinha um sabre na mão. Quando a vi, o povo deu glória a Deus. Depois olhei; vi vários pastores sentados, uns a direita, outros a esquerda de nosso pastor. Uns subiam de suas cadeiras e depois desciam. Outros ficavam da mesma altura. Acho que o Espírito Santo está dizendo que nossa igreja precisa de humildade.
- Minha filha! Nossa cabeça imagina tanta coisa estranha. Você está gostando de algum garotinho de sua idade? Talita viu que a presidente do grupo de oração nada lhe acrescentaria. A mulher não conseguia ver ou sentir nada sobre o mundo do Espírito. A menina decidiu ir para a Igreja e orar a Deus para Ele aliviar sua alma, ou se fosse o caso, perdoar seu orgulho e vaidade.
“Senhor, Meu Deus, Quem é tua pequena serva para ter uma Palavra do Espírito Santo para tua Igreja? Perdoa-me meu Deus!” Nesse ponto Talita chorava pela sua experiência que ela não entendia. Nesse estado de profunda oração, a moça, com os olhos fechados, ver por toda a Igreja sapos, cobras, e outros animais. Os animais estavam espalhados pelos os cômodos da igreja. Defronte ao púlpito havia um macaquinho preto de cabeça branca. “Esse é aquele responsável pela estripulia do pastor. Ele deve, e seu débito não será pago. Isso será sua queda. Medite sobre os outros animais e saberás o que há”.
- Quem fala comigo? Quem fala comigo? Gritou Talita sem sucesso de respostas. A moça saiu do templo com o coração ardendo. O sol subia no céu. Era quase meio dia. Talita vai para o missionário refletir sobre o ocorrido. Nessa época o missionário que era um pequeno zoológico de Tobias recebia pessoas todos os dias. Talita estava só. A moça sentava debaixo de um pé de eucalipto, ao lado da jaula dos macacos.
“Meu Deus, O pastor vai cair e eu posso ajudá-lo, mas, quem vai acreditar em mim?” Um macaquinho danado deu uma risada forte. Parecia que ela dizia alguma coisa para a pequena.
O vento soprava forte no eucalipto. Saia um zumbido intenso e agudo. Era como se o tempo chorasse. Dizem que quando tempo tem as mãos cruzadas, ele chora. Às vezes alguém escuta o choro do tempo. Talita disse para si mesma: “Eu vou avisar o pastor”.
- Pastor Elenildo!
- Sim!
- Deus pode falar com uma criança de doze anos?
- Sim, pode!
- Então, Ele me disse que sua pessoa vai cair se não pagar sua dívida!
- Calma! Calma! Menininha! Eu devo, mas, o dinheiro será levantado! No momento já tenho a metade. O restante o diácono Celestino garantiu que me conseguiria. Então fique tranquila que seu pastor não vai escandalizar o nome da Igreja. Talita voltou para sua casa de cabeça baixa e não mais quis saber de suas visões. Dois anos passaram o pastor Elenildo foi chamado a depor na delegacia sobre três cheques sem fundo. O nome da Igreja foi parar nos jornais. O escândalo foi grande. Naquela época não havia políticos prontos para abafar as coisas. Talita sabia que suas visões faziam sentido, no entanto, decidiu esquecê-las.
A Igreja passou pouco tempo sem pastor. Fernando veio de Alagoas fazer a diferença no Senhor. Era um jovem solteiro cheio de vida e de vontade de trabalhar. “Irmãos, quando senti o chamado do Senhor para essa obra; eu orei muito; e o senhor me respondeu em sonho. Eu estava, aqui, em Tobias, e na minha frente estava essa Igreja. As pessoas entravam aos montes. Muitas almas serão salvas”. A Igreja quase que entrava em delírio de tanta alegria com o novo pastor.
- Mas, o homem é solteiro! A bíblia nos diz que devemos fugir de toda a aparência do mal. Como ele vai vencer a tentação da saia? Questionou o diácono Celestino aos outros diáconos. O tempo passou. A jovem Talita tinha somente quatorze anos agora. A menina foi ao culto da mocidade em um sábado de verão quente. A igreja estava cheia de jovens de várias religiões. Fernando era um bom pastor e fazia um excelente trabalho com a mocidade da Igreja. Novos instrumentos foram comprados e organizada foi uma banda de Jovens. Era chamada de “Banda Esperança”. O culto começou às sete e meia em ponto. O templo estava cheio. Fernando faz a oração inicial e passa a palavra para o dirigente dos louvores – a jovem Marilucia. O culto foi muito fervoroso. Em determinados momentos alguns jovens entravam em quase transe. Diziam eles que sentiam o Espírito Santo muito perto. A jovem Talita naquela noite de sábado viu uma cobra gigante rodando o oitão da igreja. A menina tomou um susto e gritou, isso fez o culto parar.
- O que houve Talita?
- Não sei. Disse Talita com muito medo.
O grupo de mocidade pediu a igreja para orar por Talita. Toda a igreja se ergueu em oração pela jovem. Durante a oração Talita via Fernando enrolado pela cobra. E esta mordia sua cabeça causando-lhe a morte. Talita entende que Fernando seria ferido por um sentimento profundo, isso seria sua ruína. “O que posso fazer?”
- Vera eu vi Fernando sendo engolido por uma cobra enorme.
- Menina! Deixe dessas coisas! Somos renovados, mas, não acreditamos em qualquer visão. Não será que você estar apaixonada pelo novo pastor e não sabe? Parece que as moças todas estão loucas por ele. Jovem, inteligente, bonito!
- Não é isso Vera! O que eu vi eu vi! Mas, uma vez Talita não era acreditada. A moça estava se acostumando com as coisas. Ela orou a Deus e pediu uma orientação. “Deus, se eu devo avisar teu servo, então, me fala pela Palavra”. Na manhã do outro dia, Talita abriu a bíblia e não encontrou resposta alguma. Leu alguns versículos, mas, nada que a remetesse a visão. “Deus me diz, então, que desta vez foi minha imaginação”. Talita agradeceu a Deus pela Sua resposta. Sete meses se passaram da data da visão ao dia do escândalo do novo pastor. Uma moça jovem apareceu grávida. A menina resistiu um tempo, depois contou tudo à direção da Igreja. Celestino aproveitou o ensejo para afinar seu discurso: “Pastor solteiro não pode dar certo”.
O novo pastor era um homem velho casado com uma mulher de etnia africana. O casal tinha dois filhos. Ambos eram formados e viviam no Rio de janeiro. O casal de idoso gozava da sabedoria e da graça divina. Soboto soube da jovem vidente da Igreja.
- Minha filha, você vê com os olhos abertos ou fechados?
- Não faz diferença. Eu vejo de todo jeito.
- Desde quando isso acontece?
- Desde criança.
- Você fala em línguas?
- Não. Mas, tudo que vejo acontece.
- Quando você vê algo depois você sabe o que viu?
- Às vezes eu sei, às vezes não.
- Entendo. A conversa com Soboto muito ajudou a jovem Talita. Ela entendeu que ela era dotada de faculdades dadas por Deus desde o seu nascimento, e que o que ela chamava de sobrenatural era a manifestação natural da natureza. Talita tinha na época dezoito anos. Nunca mais ela tivera visões. Isso durou muito tempo. Talita passou no concurso do estado, foi trabalhar como servente de uma escola estadual. Seu marido, um rapaz iluminado, era ajudante de pedreiro. O moço, embora, muito trabalhador, nunca gostou das letras. Mas, era um crente fiel.
- Talita! Talita!
- Sim!
- Celestino vai levantar a mão contra o pastor. Ele deseja ser pastor em seu lugar.
- Como? Quem fala? A voz falou-lhe três vezes. A menina estava lavando o banheiro da escola. Com a força do transe ela caiu inconsciente acordando em casa. Seus familiares nada sabiam. O médico do posto disse que o ocorrido foi por causa da gravidez. Todo mundo se aquietou, menos Talita. “E agora?” “O que vou fazer?” Essa se tornou sua preocupação. As visões da moça eram agora acompanhadas de vozes. A tudo ela atribuía à força do Divino Espírito Santo. “Eu sei que Ele está em mim”.
Celestino venceu o pastor e o expulsou da igreja. Convenceu a Associação a colocá-lo como pastor. O diácono velho e tarimbado, finalmente, chegara ao cargo que tanto cobiçara. “A igreja do Evangelho Santo terá o maior ministério de sua história”. Os diáconos estavam do seu lado. Coisa que não acontecera com os outros pastores. Sempre eles foram oposição a qualquer um que subisse ao púlpito. Seu Sandoval perguntou a Celestino na primeira reunião de obreiros: “O que você fará com os místicos e renovados da Igreja?” “Eles sentirão o peso de minha mão”. Essa foi a resposta do diácono pastor.
Três meses passaram. A barriga de Talita chamava a atenção de todos.
- Minha filha louvado seja Deus por ti.
- É minha mãe. O Senhor tem nos abençoado muito. Deus abençoe Celestino nessa nova missão.
No culto de quarta feira. A igreja estava reunida para ouvir a pregação do presidente regional da Associação. O pastor Honorato. Este discorreu sobre a importância dos dízimos e das ofertas anuais de missões. “Meus irmãos, O Brasil é o celeiro do mundo, a pátria do evangelho!” Enquanto o homem pregava, Talita sentiu a presença de Deus, como ela dizia. Ela via Celestino visitando Honorato no Hospital. O pobre pregador de missões estava muito ferido. Ele estava na UTI. Depois Celestino anunciava a Igreja a morte do homem. Ele seria seu sucessor. Talita num ímpeto se levanta e diz a Honorato que não viajasse aquela noite para Salvador. A mensagem parou, a igreja ensurdeceu, e todo muito olhava para cara do outro.
- O sangue de Jesus tem poder! Gritou Celestino.
- Foi o Senhor mesmo quem me falou! Respondeu Talita.
- Você deve estar possessa, minha filha! Isso não se diz!
- Eu devo dizer a palavra do Senhor! Continuou Talita.
- Deve estar possessa mesmo! Alguns diáconos foram até Talita e chamaram os fiéis para uma oração de intercessão pela vidente. O povo gritava, alguns falavam em línguas. E toda a congregação entrou em estado de loucura coletiva. Com a emoção Talita passou mal sendo levada ao hospital. A eclampse foi fulminante. A criança morta teve de ser retirada as pressas; a mãe ficou sob observação no hospital. Era noite quando um velho negro entra na enfermaria onde Talita estava.
- Minha filha Deus vê pelos olhos do homem?
- Então o homem vê pelos olhos de Deus? Respondeu Talita inconsciente.
- Sim, é certo. Mas, nem tudo que Deus mostra; o homem quer ver.
- Sim, eu sei; eu vi.
- Põe teu barraco e ora com o povo, e pelo povo. A oração muito pode. Teus olhos verão a bondade de Zambi.
Talita voltou à consciência. A lembrança daquele rosto negro e sereno não saía de sua cabeça. Ela decidiu não mais perguntar nada a dona Vera, a chefe do grupo de oração. Separou um horário em sua humilde casa e começou um grupo de oração. No início era ela e o marido. Depois o povo foi chegando. Uns vinham doentes, outros sem orientação, outros viciados, e muitos com a vida atrapalhada. A oração e a vidência de Talita atenderam a todos. A cidade de Campos sabia da oração da casa de Talita. “Leve um quilo de alimento senão ela não te atende. É para os pobres, mulher!”
- Menina, eu tive lá para saber se Cledson me amava. Pois, a mulher não disse que ele estava com outra, mas, que ele gostava de mim.
- E foi mulher?
- Foi.
- Eu soube da mãe do finado Flávio, a pobre nunca se conformava com a partida do filho, pois a vidente num recebeu o espírito do finado! Diz o povo que ele esteve em uma colônia que fica aqui perto da terra.
- E foi comadre?
- Foi.
- Será mesmo?
Talita se tornou mulher de oração. Uma vidente desse mundo de Deus. Sempre um velho negro rondava sua casa. Muitas vezes ela sonhava com ele, sentado em um toco, fumando seu cachimbo. O cheiro de alfazema enche seus pensamentos. Deus veio na forma de um bicho – uma pomba para João Batista. Para Talita, Deus apareceu na forma de um escravo, um Preto Velho...
Tobias Barreto, 27 de janeiro de 2012. Roosevelt Vieira Leite
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