O natal se aproximava. As pessoas estavam enternecidas com o espírito cristão que envolvia a sociedade aracajuana. As campanhas do natal sem fome, e do natal com roupa foram um sucesso. “É muito importante as pessoas participarem da solidariedade”. Asseverou o Bispo de Aracaju Dom Cosmerino de Souza Neto. Aracaju crescia feito uma mocinha. Ora, ela se estendia rumo ao sul, ora ela esticava para cima como que quisesse o seu lugar de cidade grande. Como as demais cidades brasileiras, Aracaju tem suas mazelas. Dizem os historiadores que esse problema é herança da colonização e da forma como foram fundadas as cidades do Brasil.
– Chega mulher! Chega!
– O que foi vó?
– Olha a TV! O sul está se desmanchando. A água encheu tudo!
– Graças a Deus que Aracaju não tem dessas coisas! Disse dona Dilza.
Dona Dilza conhecia todo mundo no “Costa e Silva” – Um bairro de classe média baixa de Aracaju. No Costa e Silva as coisas ainda estavam por acabar; bem diferente das coisas da zona sul. No Costa e Silva, o esgoto estava por acabar, no Costa e Silva as calçadas estavam por acabar, as ruas e os becos estavam por acabar. O que nunca acabava era a fé do povo.
– Graças a Deus que tenho minha casinha no Costa e Silva.
– Num é mulher? Já pensou se a gente morasse na “Terra dura?”
– Nem pensar! Dona Dilza bateu a mão na boca três vezes ao concluir seu comentário.
Na Avenida Osvaldo Aranha, na altura da entrada do Costa e Silva, estava em pé, próximo a uma pequena ponte que dar acesso ao emaranhado de ruelas, um homem mendigo, um João ninguém, totalmente desconhecido. O coitado não parava de dizer: “Vocês vão ver! Roubaram minha mulher e a esconderam aí dentro no Costa e Silva. Pois, vai chover antes do natal e vai todo mundo morrer!”. O homem repetia a mesma coisa todos os dias e noites em que ele fez ponto ali. O homem sumiu. Até hoje não se sabe seu paradeiro.
Maria filha de Judite, muito amiga de Dilza a contou do ocorrido. “Tem um profeta na Osvaldo Aranha. Ele diz que Deus vai castigar o Costa e Silva”. Dilza riu muito e depois disse: “Nunca se quer choveu em dezembro em Aracaju. Isso é coisa de cheira cola. A conversa foi esquecida e a vida continuou para quem podia pagar suas contas.
No Costa e Silva a comunidade, de forma quase que geral, era muito prestativa. Embora Aracaju fosse uma cidade com quase 600 mil habitantes, você ainda comprava na “caderneta”. As pessoas compravam fiado para pagar no final do mês. Todo o bairro era cheio de mercearias e botecos com mesa de sinuca e televisão com karaokê. Nos finais de semana as pessoas gostavam de tomar uma, e comer a maravilhosa “moqueca de sururu” – um prato muito estimado pela população de Aracaju. Parecia uma imensa orquestra. Em cada esquina da cidade, em cada bar, em cada casa havia música e pessoas se divertindo. Um suíço hospedado no Siqueira Campos descreveu Aracaju como uma cidade em festa – uma cidade polifônica.
– O que mais me admira no Brasil é essa alegria. Disse o gringo coçando a barba rala.
– Pois é, meu caro. Nosso povo é muito alegre e tornamos a vida melhor de ser vivida. Disse Osnário, um professor da rede pública.
O gringo desapareceu Brasil a fora. De vez em quando ele manda um e-mail com fotos para os amigos que ele fez na pracinha do Siqueira. Dizem que o cara arranjou uma namorada e está vivendo no Maranhão.
– Dilza! Dilza!
– O que foi mulher? Perguntou a mulher a sua colega pela mureta do quintal. O que separava a casa de Dilza da de sua melhor amiga era uma mureta de cimento e blocos. Logo atrás passava o canal. As duas famílias não suportavam o cheiro de esgoto e os pernilongos durante a noite.
– Sabe quem vai morar na baixada?
– Não!
– A viúva de Raimundo do ferro velho. Estão se mudando agora.
– Graças a Deus mulher! Vamos ter mais uma sofrida da vida para jogar buraco no sábado á noite. Concluiu Dilza.
A nova família do Costa e Silva trazia uma marca triste de sofrimento e dor. Isso fez com que mãe e filha se unissem como se fossem uma corda de duas dobras. Mariana era uma adolescente, filha de Natividade – a mulher de Raimundo do ferro velho.
– Mãe! A casa é boa mãe! Disse Mariana encantada com a nova casa.
– É minha filha. Graças a Deus, e a seu pai que nos deixou um dinheirinho, senão estávamos no meio da rua.
– Da rua não mãe! No meio da Osvaldo Aranha!
– Quem te disse isso?
– Ninguém! Os mendigos vão todos para lá. Por que mãe, por quê?
– Sei lá Mariana. Todos vão para lá, talvez por que tem muita gente, fica mais fácil ter uma esmola.
Enquanto as duas desfaziam os pacotes, e procurando arrumar a nova casa com uma nova decoração, a televisão anunciava as tragédias do sul do país.
“Niterói debaixo d’água: Mais de trinta casas soterradas. Três Pessoas faleceram no local”.
“Nova Friburgo chora seus filhos soterrados: A Defesa Civil estima mais de vinte mortes em Nova Friburgo!”
“Desabamento e morte nos morros de Salvador”.
Natividade e Mariana arrumam seu novo lar. As duas estavam muito alegres com a nova casa. O bairro não era ruim, e a casa não era de se jogar fora. As duas desfizeram os pacotes e a televisão anunciava o fim do mundo no Rio de Janeiro.
– Mãe, por que Deus deixa as pessoas morreram nas enchentes?
– Não sei minha filha! Mas, acredito que Ele sabe o que faz!
Em pouco tempo Natividade estava entrosada com os vizinhos. Mariana brincava com suas novas colegas. A vida seguia seu curso normal.
Em uma manhã de sábado, o dia nasceu cinzento. O tempo não ventava um instante. O povo da cidade sentia que estava em uma panela fervendo. O céu não tinha ar; era só vapor e mormaço naquela manhã do mês de dezembro. As mulheres do Costa e Silva aproveitaram o calor para lavarem roupa mesmo com o céu nublado. As nuvens não adiantavam de nada. A sombra parecia mais uma panela de pressão. Os noticiários avisavam que podia chover naquele dia a qualquer instante. Mas, não choveu aquele sábado, nem no domingo. A massa de água que tornava o céu escuro permanecia parada sobre a menina do Nordeste. Segunda feira chega e com ela a efervescência do comércio aracajuano. As ruas ficam lotadas de carro e de pessoas vindas das mais diversas partes do estado. A massa humana ocupa as ruas em busca do pão de cada dia – esta é Aracaju, e assim deve ser em toda parte do Brasil.
Mariana brinca com suas colegas no quintal de sua casa. A brincadeira estava animada até que Lucinha joga, sem querer, a boneca de Mariana por cima do muro dos fundos. A boneca cai no canal que passava no fundo das casas. Mariana pega uma cadeira para ver sua boneca.
– Mãe, mãe, venha aqui ver!
– O que Mariana?
– Veja! Tanta barata!
– O que menina?
– Baratas!
As baratas estavam mudando de morada. As pessoas foram para cima dos muros para ver as baratas saírem dos bueiros e buracos espalhados pela área. Elas saíam ao mesmo tempo formando um monte que depois se desfazia quando elas corriam em uma só direção – A Osvaldo Aranha. O povo do Costa e Silva nunca tinha visto tanta barata ao mesmo tempo. O estranho é que elas estavam apressadas e determinadas a deixarem o lugar.
– Mãe, até as baratas vão para a Avenida Osvaldo Aranha?
– Num sei Mariana! Estou sem entender! Deve ser o mesmo que aconteceu no Siqueira. As aranhas invadiram as casas próximas a Leste.
– E foi mãe?
– Foi.
– Mãe a Osvaldo Aranha fica lá em cima, não é?
– É.
A Avenida Osvaldo Aranha ficava em um nível mais alto de que a rua das casas onde Natividade e sua filha Mariana moravam. As baratas são sabias e diligentes. Quando elas sentem que algo está errado, elas fazem o que deve ser feito. Mas, isso é pensamento de baratas. Apesar do calor daquela segunda feira as pessoas cumpriram a rotina do dia normalmente. No final do dia foram beber a loirinha. Nesse horário, Aracaju se transforma. Existe um glamour na cidade. As pessoas se encontram com as outras para conversarem nos shoppings, nos bares e botecos espalhados por toda a cidade. É uma coisa tão agradável que as pessoas perdem a noção do tempo.
– Puxa! Minha mulher vai me matar! Disse o PM Freitas.
– Rapaz! Relaxa! Já tá ferrado mesmo! Completou o raciocínio Eduardo, funcionário do IML.
Os dois continuaram a conversa até as dez horas. A noite de Aracaju estava quente. O abafado do dia não havia dado uma trégua. Os rapazes se separaram cada com seu destino. O PM para casa, no bairro Costa e Silva, e Eduardo de volta para o necrotério. Freitas não conhecia sua nova vizinha, dona Natividade. Esta ficou viúva cedo. Vivia muito só, e fazia muito que ela não tinha um homem. Mariana dormia sono profundo quando estoura o transformador da rua. Natividade corre para a porta onde estavam outras pessoas. Entre elas o PM Freitas.
– Meu Deus! Que houve?
– Foi o transformador! Uma voz grossa responde a dona Natividade.
– E o que é isso?
– É aquele objeto pendurado no poste!
– Sei, vejo! Mas, menino como é que isso acontece?
– Deve ter sido o calor. Fez quase quarenta hoje. Parece que o som da palavra hoje fez Natividade se lembrar que deixou Mariana dentro de casa no escuro. Ela corre para dentro de casa, e o soldado Freitas fica em pé defronte ao portão da casa. As pessoas mataram a curiosidade, por isso voltaram para suas casas, e Freitas permanece na rua. Dona Natividade acende algumas velas e sai de casa novamente para fechar o portão. Quando ela se aproxima dele, percebe que havia um homem ali.
– É você? Onde estão as pessoas?
– Já foram. Eu acho que vou também. Um pingo d’água cai na cabeça de Freitas. Ele passa a mão e sorri para Natividade. Esta lhe responde o sorriso. Natividade toma o rumo de dentro de casa; um pingo d’água cai em sua testa. Ela sorri e entra se juntando a sua amada filha.
Freitas ficou com a imagem de Natividade em sua mente. Sua esposa dormia quando o soldado se levanta um pouco ansioso. Ele sentia vontade de voltar à casa da vizinha, nem que fosse para dar uma olhadinha. “Rapaz que coroa atraente!” Sua mente repetia isso o tempo inteiro. Tornou-se uma obsessão. “Rapaz que coroa bonita!” Seu pensamento ganhou força fazendo-o voltar à casa de dona Natividade. Ele bate no portão de ferro com uma pedra pequena. Repete o feito mais uma vez. Depois, novamente e novamente. A cada tentativa a ansiedade da mulher abrir a porta era grande, contudo, sua mulher estava, bem ali, na outra casa. Freitas cobra o juízo e toma a direção de sua casa de ombros caídos. A porta da casa de Natividade geme baixinho. O coração de Freitas estava certo.
O quarto de Mariana ficava na frente da casa. Dona Natividade foi para o quintal onde havia uma cobertura e uma rede cearense. O casal ficou ali, despreocupadamente, até ser despertado pelo o som de um leve chuvisco que caía nas telhas. Natividade acendeu uma vela para procurar sua peça íntima, e se depara com um monte de baratas vivas que saíam determinadas do bueiro do fundo de sua residência. Freitas ficou assustado com tantas baratas ao mesmo tempo e começou a espantá-las. Quanto mais o homem mexia, mais baratas apareciam.
– Mulher chame, amanhã, a defesa civil!
– Eles tiram as baratas? Perguntou a senhora do ferro velho.
– Sim, basta fazer a denúncia. Eles vêm imediatamente.
Os dois conversaram até perto das três. A chuva havia ficado mais forte; Freitas temia que sua mulher acordasse e notasse sua ausência e se retirou. Natividade voltou para seu quarto com uma música em sua mente. Fazia muito tempo que a pobre mulher não sentia a vida tão viva.
– Mãe! Mãe! A casa está cheia de baratas!
– O que foi menina! Fale mais alto! A chuva ficara forte e as duas mal conseguiam se ouvir.
– Mãe! As baratas tomaram a casa toda! Tem um monte de baratas por toda a casa. De fato, a quantidade de baratas havia aumentado consideravelmente. À proporção que a chuva aumentava, mais baratas desesperadas e agitadas apareciam. Mãe e filha se empenham na missão de livrar sua casa das baratas. Com álcool e fósforo nas mãos elas enfrentavam os insetos até que ouviram uma explosão abafada vindo das casas mais altas. A rua era quase uma ladeira que terminava no canal. Logo em seguida outra explosão e agora o som de água. As duas correm para pôr os móveis em locais altos. A reação foi quase instintual. As duas mulheres ficaram com muito medo; nada podiam ouvir das outras casas. Não sabiam o que estava acontecendo. A chuva aumentava ainda mais. E a água dentro de casa também. Muitas baratas boiavam mortas na água suja corrente. Seu cheiro era fétido. O cheiro das baratas pode ficar em seu nariz por muito tempo, mas, o cheiro da água do canal ninguém esquece!
Aracaju estava debaixo de uma bomba d’água. A massa de água decidiu cair de uma só vez. Os córregos da cidade inundaram, a maré aumentou fazendo os canais vomitarem suas águas. Uma enchente sem precedentes na história de Aracaju estava se configurando. Freitas percebe o perigo e pede sua mulher para ir à casa da mãe. Quando o casal decide sair de casa era tarde demais. Ninguém mais podia usar as vias públicas. Postes caídos, fios elétricos vivos, bueiros arrebentados, redemoinhos em toda parte. A cena era aterradora. A água descia em direção as casas à margem do canal que transbordava seu conteúdo letal. A primeira casa caiu, a segunda, a terceira, finalmente a casa de Natividade. As duas ficaram em baixo de um pedaço de laje. Parecia um milagre: “Natividade, eu vou chamar ajuda!” Disse Freitas. Não houve respostas.
– Mãe! Mãe!
– Fique quieta Mariana, em breve vão nos pegar! Tenha fé em Deus!
– Mãe! Não sinto mais as pernas!
– Menina, menina, espere mais um pouco!
A água subiu e cobriu toda a margem do canal. Freitas voltou com os bombeiros, mas, era muito tarde. Morreram Mariana, Natividade, e um mendigo que dormia no fundo das casas beirando o canal. As águas duraram três dias para baixar. Acharam os corpos de mãos dadas, mãe e filha. O mendigo foi levado para o necrotério ao lado das duas. Dizem que seu ventre ao ser aberto revelou-se estar cheio de baratas.
Após a enchente do Costa e Silva nenhuma providência foi tomada. As coisas estão como sempre foram. Os mendigos vão para a Avenida Osvaldo Aranha, e se alguma barata resolve correr para lá. As pessoas olham para as nuvens…
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sexta-feira, 23 de junho de 2017
quinta-feira, 12 de janeiro de 2017
VENTANIA E MARIANA
VENTANIA E MARIANA
Laranjeiras era parada obrigatória de muitos vendedores de escravos. A antiga terra de Sergipe Del Rei era lugar de muito dinheiro e de movimento de muita gente. As pessoas passavam por lá vindo de muitos outros lugares. Algumas delas deixaram suas vidas, outras nem souberam por que ficaram por lá. Laranjeiras era também parada de muitos contadores de histórias. Dona Marocas era uma delas. Dona Marocas viveu na Laranjeiras do início do século vinte. Era filha de agricultores que juntaram uns trocados e foram morar na sede. Dona Marocas estudou o curso normal em Aracaju e depois foi ser professora na rede pública. Maroquinha, como muitos a chamavam, era uma contadora de Histórias de todos os tipos e para todas as idades. Ninguém nunca soube ao certo como tudo começou. Diz-se que ela sentiu uma forte dor de cabeça e, depois de quatro dias de cama, saiu contando de tudo.
- Marocas, mulher, tenha fé em deus! Pare de falar tanta coisa! Estou sem suportar!
- Você sabia o que houve no alto da igreja do Bonfim em 1882?
- O que é que eu tenho a ver com isso? - respondeu irritada sua irmã mais velha. - Foi o Ventania, mulher! Ele beijou Mariana lá no alto na noite da missa de Reis.
- Sabe Marocas não suporto mais tuas histórias imbecis.
O tempo passou e Marocas tornou-se Maroquinha da tapioca. Da tapioca porque seu finado esposo vendia requeijão e outros produtos, dentre eles, a tão falada tapioca de dona Maroquinha, agora uma senhora aposentada da sala de aula. Dona Marocas era uma mulher fora de qualquer suspeita. Uma professora que se dedicou à educação de jovens e adultos por toda sua juventude. De volta a sua terra, em meados de 1964, em uma praça de sua cidade natal, ela se deparou com um grupo de jovens jogando capoeira.
- Meninos já contei para vocês a estória de Ventania?
- Não, tia Marocas, ainda não!
- Vocês querem que eu conte um dia?
- Sim, sim, dona Maroquinha! Conte hoje de tardinha!
- Tá bom, tá combinado, de tardinha eu volto aqui e conto, mas juntem mais rapazes.
- Certo! Dona Marocas continuou sua estrada até a casa velha do engenho. Era estranho, mas a velha gostava demais daquele lugar. Ali ela passou a manhã, lendo e olhando o tempo, depois foi para casa. Próximo ao prédio que hoje é a Universidade, Marocas tombou ao chão, virou-se em torno de seu corpo e olhou para cima. Todos estavam lá lhe olhando os olhos. Uns diziam uma coisa, outros diziam outras coisas. E havia aqueles que nada diziam, eram apenas curiosos.
- O que houve com a velha professora?
- Não sei. Eu estava aqui, e ela caiu sozinha.
- E foi, parece coisa feita!
- Uma mulher idosa, mas cheia de saúde.
- É sim, veja como ela está corada!
- Pois num é mulher? E se ela morrer? Vamos ficar sem a tapioca dela.
- O pior é que eu gosto muito de suas histórias.
- Dona Marocas, dona Marocas! Marocas acordou falando sobre o que viu perto do engenho. Dizia ela que Ventania se encontrava com Mariana nas ruínas do engenho velho. Os dois se amavam muito. Um amor que custou muito caro a ambos. Os negros sempre levavam seus donos nas costas. Um dia Ventania levava o coronel Zé Maria e sua mulher, Catarina, à Igreja do Bonfim. Era missa de Reis. No alto, bem no oitão da Igreja, Ventania beijou Mariana a primeira vez. Os dois já estavam se olhando há tempo. Quando Mariana viu que o negro havia chegado com seus pais no alto do morro, e sabendo que ele iria dar uma descansada atrás da Igreja, furtivamente, a moça passou por todos e chegou ao moço. Este estava de cabeça baixa olhando a silhueta da cidade lá embaixo. Ela disse:
- José?
- Sim.
- É você? Tá bem?
- Sinhazinha, já viu argum negro bem?
- Não se revolte, Ventania! Tem gente aqui que gosta muito de você. Os olhos de Mariana se entregaram na primeira olhada. O rapaz hesitou por um pouco, mas depois assumiu seu amor. Ele a beijou com intensa paixão. O desejo de ambos extrapolava o limite que a vida lhes dava. Os dois estavam presos um ao outro pela força do amor.
- Dona Marocas, continue a nos contar esta história!
- Qual? Meus filhos.
- A de Seu Ventania e Mariana.
- Ah, sim. Era noite em Laranjeiras, e todos estavam na Santa Missa de Reis. Era o ano de 1879. Laranjeiras estava cheia de filhos ilustres que haviam voltado de outras terras. O coronel Zé Maria discutia com seus amigos sobre não abolir os escravos. A cidade tomaria um baque muito grande.
- O que vamos fazer com a lavoura? Esses abolicionistas!
- Eh, seu coronel, o senhor fala em nome de todos nós, homens de bem desta terra. O que será do Cotinguiba sem a mão escrava?
- Pois é. Por isso é preciso eleger logo um deputado que lute junto ao Imperador, mostrando-lhe os perigos que estamos correndo, nós e seu império. O Brasil sempre será escravista, e pronto. As coisas sempre foram assim, e nós da lavoura, nós que produzimos as riquezas deste país, dizemos não a José do Patrocínio e sua corja. Falou o coronel com muita firmeza. Ventania e Mariana não se deram conta de que algumas pessoas que estavam na Missa dos Reis os viram a beijar-se. Pouco tempo depois, a história correu pela pequena Laranjeiras. “A filha de Zé Maria estava a beijar-se com um de seus escravos, chamado Ventania. Dizem que este é um capoeira muito perigoso. Isso lhe justifica o nome”.
- Eu não garanto porque não vi, mas dizem que dona Mariana namora um negro do coronel.
- Também escutei isso, Floresval. Mas, e qual é o problema? O amor é lindo.
- Não sei não, acho que vai sobrar para o negro. Ventania foi preso na quarta-feira da outra semana, após a festa dos Reis. Dois jagunços do coronel foram à senzala e trouxeram o rapaz. Zé Maria colocou o negro três dias no tronco. Enquanto isso pensaria no que era mais justo. Mariana nada sabia até que seu pai a chamou.
- Mariana, minha filha. Chamou o coronel Zé Maria a sua filha.
- Sim, meu pai, o senhor me chamou?
- Você está crescendo, eu acho melhor providenciar um marido para você. Seu pai estava preocupado.
- O senhor está preocupado com uma coisa que eu nem me lembro. Não penso em casar agora. Penso em estudar.
- Mariana! Não seja tola! Você acha que estudar é coisa de mulher?
- Acho que todos são iguais, homens e mulheres, negros e brancos.
- De preferência, o da senzala de seu pai não é? Mariana ficou sem jeito perante o pai e sentou-se de cabeça baixa. Zé Maria havia ferido sua presa no ponto fraco. Mariana amava José, o Ventania, e agora ela sabia que seu pai os separaria.
- O que o senhor vai fazer com ele?
- Isso não é de sua conta, mas vocês não se verão mais, entendeu?
- Sim, certo.
Aquele dia fora o pior da vida daquela princesinha. Mariana era uma princesa em Laranjeiras. Era isso que o povo dizia. Seu coração era bom, e seu jeito amável de ser conquistava logo as pessoas. O povo dividiu-se em torno da história de amor proibido. Mariana casa ou não com o José Ventania? Enquanto dona Marocas contava a história, o povo ficava embriagado com suas palavras, e as pessoas aos poucos iam procurando um lugar perto da velhinha contadora de histórias. “Agora, essa parte de nossa estória se torna mais triste. Eu comparo isso ao sofrimento de Nosso Senhor”. O coronel mandou pôr o Zé Ventania na praça principal para ser punido em público como exemplo, e teve o apoio do padre e do juiz da comarca. “A disciplina deve ser severa para que este caso não se repita com outras pessoas”. Ventania apanhou por sete minutos sob o olhar de toda a cidade, brancos e negros. As prostitutas da casa de bordel que ficava atrás do mercado choravam e gritavam enquanto Ventania agoniza ante o peso da chibata. Após o açoite, os homens do coronel o levaram de volta para a senzala. A mente de Ventania manteve firme a imagem do momento do beijo. O cheiro da moça ainda enchia o olfato do rapaz.
- Parece que o amor não tem cor, você não acha, dona Marocas - perguntou um rapaz magro, de cabelo ruivo.
- É, meu filho. O amor uniu os dois mesmo estando em lados opostos. Agora a sina do destino os alcançaria no fim de 1882.
- Como assim, tia Marocas? O ano passou. Mariana não casou e foi estudar com as freiras. Ventania foi vendido para uma fazenda em Alagoas, uma fazenda de um amigo de Zé Maria. Era o tal coronel Manoel Ferreira. Um homem muito poderoso em Alagoas e aliado dos monarquistas. Ventania passou esses três anos pensando em um jeito de fugir e roubar Mariana da casa do coronel. Não sei como, essa parte da estória nunca foi bem contada. Mas, o povo mais velho dizia que Ventania fez pacto com o coisa ruim. Havia na senzala um Babalaô; Babalaô é um tipo especial de sacerdote do culto negro. O seu nome era Joaquim. Pai Joaquim, como todos o chamavam. Pai Joaquim havia visto nos olhos de Ifá que Ventania veria Mariana novamente, “e o destino seguia seu curso como a corrente de um rio”.
- Bem, eu não sei de nada, mas o tal Joaquim era um feiticeiro velho, mexia com o coisa - falou espantada dona Marocas.
- Não fale sem saber mulher - respondeu seu Martins, um umbandista morador de Laranjeiras. Ventania sumiu da senzala de Ferreira. Foi morar em um quilombo perto da barra dos coqueiros. O tempo passou, e o capoeira resolveu visitar Laranjeiras. Era noitinha de 22 de outubro de 1882. Ventania, de barba grande e cabelo de tranças, caminha pelas calçadas de Laranjeiras. Ele segue em direção à igreja do Bonfim. No meio do caminho, ele rouba um cavalo preto como a sua cor e tão forte quanto ele. Dois outros rapazes o acompanha. Havia um culto lá no alto. Ventania sobe a ladeira e fica à espreita para ver se encontra Mariana. Mariana estava dentro do santuário. Sua alma estava em paz na presença de Deus, mas sua intuição dizia que algo muito bom estava para acontecer, de fato, aconteceu, Ventania entra santuário adentro montado em um cavalo e aproxima-se de Mariana e diz à moça: “Mariana, venha comigo, e seremos felizes”. A jovem moça foi embora com o negro na frente de seus pais e de toda a sociedade. Nunca se sabe o que um coração apaixonado pode fazer. Ventania deixou dois amigos do lado de fora caso houvesse tiros, e de fato, um dos capangas do coronel atirou para cima porque temeu acertar o tiro em Mariana. Na mesma noite, os dois tomaram uma condução para São Cristóvão. Pernoitaram lá e depois desapareceram no mundo como fugitivos. Zé Maria chorou muito a perda de sua filha, principalmente pela forma como tudo aconteceu. A mãe de Mariana se apegou com o seu santo até o dia que o divino a levou de volta para o lar celestial.
- O que aconteceu com Mariana, dona Marocas?
- Ah, meu filho, você não perde por esperar, mas essa história é muito bela. Mariana e Ventania foram morar em Rio Real. Naquela época a cidade era acanhada, mas a semelhança de Laranjeiras tinha muito o que se fazer lá, mesmo para um negro recém- alforriado como Ventania, digamos, alforriado por imposição. Ventania colocava água nas casas e Mariana costurava para as pessoas. Fazia remendos a princípio, depois o povo se apegou ao seu trabalho e foram procurando a moça. O lar deles, apesar das diferenças várias entre eles, era feliz. Os filhos foram aparecendo. Deus, o divino, os abençoou com três filhos. Duas mulheres e um rapaz. O rapaz nasceu primeiro, era o Leandro, e as meninas eram Juliana e Beatriz. A vida de Mariana e Ventania foi como a de todos. Os anos passam e com eles o implacável peso da idade chega. Ventania morreu primeiro. Deu uma dor nas costas e dessa dor, o negro arriou. Mariana ainda viveu uns dias. Quando Juliana, sua filha, teve o primeiro neto, Mariana ainda pensava em José Ventania. Ela morreu, e nunca se arrependeu do que fez.
- Que estória esquisita, dona Marocas! Chega me arrepiei toda. Disse a menina Flavinha, filha de seu Amarante.
- É, minha filha, quando eu tinha sua idade, eu costumava ver um velho contando essa história. Um dia me aproximei dele e perguntei qual era o nome dele. Então ele disse:
- Por que vosmercê pergunta meu nome?
- Porque acho que já te vi em algum lugar.
- Fia, carece saber o que?
- Só o seu nome.
- Olhe, minha fia, no dia que Ventania chegou à senzala de Manoel Ferreira, eu sabia que ele era filho de Ogum. Sua mãe era Oxum. Então, ele estava com a espada de Ogum e o amor de Oxum com ele. Eu entreguei a ele o oráculo e disse que sua vida seria como qualquer uma sobre a terra. E não foi assim? Ninguém espere nada além do que a terra pode dar, pois o que é, é isso. A cidade de Laranjeiras cresceu. Muita coisa mudou. Não tem mais dona Marocas. A igreja do Bonfim ainda está lá. As ruínas do engenho velho também.
ROOSEVELT VIEIRA LEITE, 19/04/11
Laranjeiras era parada obrigatória de muitos vendedores de escravos. A antiga terra de Sergipe Del Rei era lugar de muito dinheiro e de movimento de muita gente. As pessoas passavam por lá vindo de muitos outros lugares. Algumas delas deixaram suas vidas, outras nem souberam por que ficaram por lá. Laranjeiras era também parada de muitos contadores de histórias. Dona Marocas era uma delas. Dona Marocas viveu na Laranjeiras do início do século vinte. Era filha de agricultores que juntaram uns trocados e foram morar na sede. Dona Marocas estudou o curso normal em Aracaju e depois foi ser professora na rede pública. Maroquinha, como muitos a chamavam, era uma contadora de Histórias de todos os tipos e para todas as idades. Ninguém nunca soube ao certo como tudo começou. Diz-se que ela sentiu uma forte dor de cabeça e, depois de quatro dias de cama, saiu contando de tudo.
- Marocas, mulher, tenha fé em deus! Pare de falar tanta coisa! Estou sem suportar!
- Você sabia o que houve no alto da igreja do Bonfim em 1882?
- O que é que eu tenho a ver com isso? - respondeu irritada sua irmã mais velha. - Foi o Ventania, mulher! Ele beijou Mariana lá no alto na noite da missa de Reis.
- Sabe Marocas não suporto mais tuas histórias imbecis.
O tempo passou e Marocas tornou-se Maroquinha da tapioca. Da tapioca porque seu finado esposo vendia requeijão e outros produtos, dentre eles, a tão falada tapioca de dona Maroquinha, agora uma senhora aposentada da sala de aula. Dona Marocas era uma mulher fora de qualquer suspeita. Uma professora que se dedicou à educação de jovens e adultos por toda sua juventude. De volta a sua terra, em meados de 1964, em uma praça de sua cidade natal, ela se deparou com um grupo de jovens jogando capoeira.
- Meninos já contei para vocês a estória de Ventania?
- Não, tia Marocas, ainda não!
- Vocês querem que eu conte um dia?
- Sim, sim, dona Maroquinha! Conte hoje de tardinha!
- Tá bom, tá combinado, de tardinha eu volto aqui e conto, mas juntem mais rapazes.
- Certo! Dona Marocas continuou sua estrada até a casa velha do engenho. Era estranho, mas a velha gostava demais daquele lugar. Ali ela passou a manhã, lendo e olhando o tempo, depois foi para casa. Próximo ao prédio que hoje é a Universidade, Marocas tombou ao chão, virou-se em torno de seu corpo e olhou para cima. Todos estavam lá lhe olhando os olhos. Uns diziam uma coisa, outros diziam outras coisas. E havia aqueles que nada diziam, eram apenas curiosos.
- O que houve com a velha professora?
- Não sei. Eu estava aqui, e ela caiu sozinha.
- E foi, parece coisa feita!
- Uma mulher idosa, mas cheia de saúde.
- É sim, veja como ela está corada!
- Pois num é mulher? E se ela morrer? Vamos ficar sem a tapioca dela.
- O pior é que eu gosto muito de suas histórias.
- Dona Marocas, dona Marocas! Marocas acordou falando sobre o que viu perto do engenho. Dizia ela que Ventania se encontrava com Mariana nas ruínas do engenho velho. Os dois se amavam muito. Um amor que custou muito caro a ambos. Os negros sempre levavam seus donos nas costas. Um dia Ventania levava o coronel Zé Maria e sua mulher, Catarina, à Igreja do Bonfim. Era missa de Reis. No alto, bem no oitão da Igreja, Ventania beijou Mariana a primeira vez. Os dois já estavam se olhando há tempo. Quando Mariana viu que o negro havia chegado com seus pais no alto do morro, e sabendo que ele iria dar uma descansada atrás da Igreja, furtivamente, a moça passou por todos e chegou ao moço. Este estava de cabeça baixa olhando a silhueta da cidade lá embaixo. Ela disse:
- José?
- Sim.
- É você? Tá bem?
- Sinhazinha, já viu argum negro bem?
- Não se revolte, Ventania! Tem gente aqui que gosta muito de você. Os olhos de Mariana se entregaram na primeira olhada. O rapaz hesitou por um pouco, mas depois assumiu seu amor. Ele a beijou com intensa paixão. O desejo de ambos extrapolava o limite que a vida lhes dava. Os dois estavam presos um ao outro pela força do amor.
- Dona Marocas, continue a nos contar esta história!
- Qual? Meus filhos.
- A de Seu Ventania e Mariana.
- Ah, sim. Era noite em Laranjeiras, e todos estavam na Santa Missa de Reis. Era o ano de 1879. Laranjeiras estava cheia de filhos ilustres que haviam voltado de outras terras. O coronel Zé Maria discutia com seus amigos sobre não abolir os escravos. A cidade tomaria um baque muito grande.
- O que vamos fazer com a lavoura? Esses abolicionistas!
- Eh, seu coronel, o senhor fala em nome de todos nós, homens de bem desta terra. O que será do Cotinguiba sem a mão escrava?
- Pois é. Por isso é preciso eleger logo um deputado que lute junto ao Imperador, mostrando-lhe os perigos que estamos correndo, nós e seu império. O Brasil sempre será escravista, e pronto. As coisas sempre foram assim, e nós da lavoura, nós que produzimos as riquezas deste país, dizemos não a José do Patrocínio e sua corja. Falou o coronel com muita firmeza. Ventania e Mariana não se deram conta de que algumas pessoas que estavam na Missa dos Reis os viram a beijar-se. Pouco tempo depois, a história correu pela pequena Laranjeiras. “A filha de Zé Maria estava a beijar-se com um de seus escravos, chamado Ventania. Dizem que este é um capoeira muito perigoso. Isso lhe justifica o nome”.
- Eu não garanto porque não vi, mas dizem que dona Mariana namora um negro do coronel.
- Também escutei isso, Floresval. Mas, e qual é o problema? O amor é lindo.
- Não sei não, acho que vai sobrar para o negro. Ventania foi preso na quarta-feira da outra semana, após a festa dos Reis. Dois jagunços do coronel foram à senzala e trouxeram o rapaz. Zé Maria colocou o negro três dias no tronco. Enquanto isso pensaria no que era mais justo. Mariana nada sabia até que seu pai a chamou.
- Mariana, minha filha. Chamou o coronel Zé Maria a sua filha.
- Sim, meu pai, o senhor me chamou?
- Você está crescendo, eu acho melhor providenciar um marido para você. Seu pai estava preocupado.
- O senhor está preocupado com uma coisa que eu nem me lembro. Não penso em casar agora. Penso em estudar.
- Mariana! Não seja tola! Você acha que estudar é coisa de mulher?
- Acho que todos são iguais, homens e mulheres, negros e brancos.
- De preferência, o da senzala de seu pai não é? Mariana ficou sem jeito perante o pai e sentou-se de cabeça baixa. Zé Maria havia ferido sua presa no ponto fraco. Mariana amava José, o Ventania, e agora ela sabia que seu pai os separaria.
- O que o senhor vai fazer com ele?
- Isso não é de sua conta, mas vocês não se verão mais, entendeu?
- Sim, certo.
Aquele dia fora o pior da vida daquela princesinha. Mariana era uma princesa em Laranjeiras. Era isso que o povo dizia. Seu coração era bom, e seu jeito amável de ser conquistava logo as pessoas. O povo dividiu-se em torno da história de amor proibido. Mariana casa ou não com o José Ventania? Enquanto dona Marocas contava a história, o povo ficava embriagado com suas palavras, e as pessoas aos poucos iam procurando um lugar perto da velhinha contadora de histórias. “Agora, essa parte de nossa estória se torna mais triste. Eu comparo isso ao sofrimento de Nosso Senhor”. O coronel mandou pôr o Zé Ventania na praça principal para ser punido em público como exemplo, e teve o apoio do padre e do juiz da comarca. “A disciplina deve ser severa para que este caso não se repita com outras pessoas”. Ventania apanhou por sete minutos sob o olhar de toda a cidade, brancos e negros. As prostitutas da casa de bordel que ficava atrás do mercado choravam e gritavam enquanto Ventania agoniza ante o peso da chibata. Após o açoite, os homens do coronel o levaram de volta para a senzala. A mente de Ventania manteve firme a imagem do momento do beijo. O cheiro da moça ainda enchia o olfato do rapaz.
- Parece que o amor não tem cor, você não acha, dona Marocas - perguntou um rapaz magro, de cabelo ruivo.
- É, meu filho. O amor uniu os dois mesmo estando em lados opostos. Agora a sina do destino os alcançaria no fim de 1882.
- Como assim, tia Marocas? O ano passou. Mariana não casou e foi estudar com as freiras. Ventania foi vendido para uma fazenda em Alagoas, uma fazenda de um amigo de Zé Maria. Era o tal coronel Manoel Ferreira. Um homem muito poderoso em Alagoas e aliado dos monarquistas. Ventania passou esses três anos pensando em um jeito de fugir e roubar Mariana da casa do coronel. Não sei como, essa parte da estória nunca foi bem contada. Mas, o povo mais velho dizia que Ventania fez pacto com o coisa ruim. Havia na senzala um Babalaô; Babalaô é um tipo especial de sacerdote do culto negro. O seu nome era Joaquim. Pai Joaquim, como todos o chamavam. Pai Joaquim havia visto nos olhos de Ifá que Ventania veria Mariana novamente, “e o destino seguia seu curso como a corrente de um rio”.
- Bem, eu não sei de nada, mas o tal Joaquim era um feiticeiro velho, mexia com o coisa - falou espantada dona Marocas.
- Não fale sem saber mulher - respondeu seu Martins, um umbandista morador de Laranjeiras. Ventania sumiu da senzala de Ferreira. Foi morar em um quilombo perto da barra dos coqueiros. O tempo passou, e o capoeira resolveu visitar Laranjeiras. Era noitinha de 22 de outubro de 1882. Ventania, de barba grande e cabelo de tranças, caminha pelas calçadas de Laranjeiras. Ele segue em direção à igreja do Bonfim. No meio do caminho, ele rouba um cavalo preto como a sua cor e tão forte quanto ele. Dois outros rapazes o acompanha. Havia um culto lá no alto. Ventania sobe a ladeira e fica à espreita para ver se encontra Mariana. Mariana estava dentro do santuário. Sua alma estava em paz na presença de Deus, mas sua intuição dizia que algo muito bom estava para acontecer, de fato, aconteceu, Ventania entra santuário adentro montado em um cavalo e aproxima-se de Mariana e diz à moça: “Mariana, venha comigo, e seremos felizes”. A jovem moça foi embora com o negro na frente de seus pais e de toda a sociedade. Nunca se sabe o que um coração apaixonado pode fazer. Ventania deixou dois amigos do lado de fora caso houvesse tiros, e de fato, um dos capangas do coronel atirou para cima porque temeu acertar o tiro em Mariana. Na mesma noite, os dois tomaram uma condução para São Cristóvão. Pernoitaram lá e depois desapareceram no mundo como fugitivos. Zé Maria chorou muito a perda de sua filha, principalmente pela forma como tudo aconteceu. A mãe de Mariana se apegou com o seu santo até o dia que o divino a levou de volta para o lar celestial.
- O que aconteceu com Mariana, dona Marocas?
- Ah, meu filho, você não perde por esperar, mas essa história é muito bela. Mariana e Ventania foram morar em Rio Real. Naquela época a cidade era acanhada, mas a semelhança de Laranjeiras tinha muito o que se fazer lá, mesmo para um negro recém- alforriado como Ventania, digamos, alforriado por imposição. Ventania colocava água nas casas e Mariana costurava para as pessoas. Fazia remendos a princípio, depois o povo se apegou ao seu trabalho e foram procurando a moça. O lar deles, apesar das diferenças várias entre eles, era feliz. Os filhos foram aparecendo. Deus, o divino, os abençoou com três filhos. Duas mulheres e um rapaz. O rapaz nasceu primeiro, era o Leandro, e as meninas eram Juliana e Beatriz. A vida de Mariana e Ventania foi como a de todos. Os anos passam e com eles o implacável peso da idade chega. Ventania morreu primeiro. Deu uma dor nas costas e dessa dor, o negro arriou. Mariana ainda viveu uns dias. Quando Juliana, sua filha, teve o primeiro neto, Mariana ainda pensava em José Ventania. Ela morreu, e nunca se arrependeu do que fez.
- Que estória esquisita, dona Marocas! Chega me arrepiei toda. Disse a menina Flavinha, filha de seu Amarante.
- É, minha filha, quando eu tinha sua idade, eu costumava ver um velho contando essa história. Um dia me aproximei dele e perguntei qual era o nome dele. Então ele disse:
- Por que vosmercê pergunta meu nome?
- Porque acho que já te vi em algum lugar.
- Fia, carece saber o que?
- Só o seu nome.
- Olhe, minha fia, no dia que Ventania chegou à senzala de Manoel Ferreira, eu sabia que ele era filho de Ogum. Sua mãe era Oxum. Então, ele estava com a espada de Ogum e o amor de Oxum com ele. Eu entreguei a ele o oráculo e disse que sua vida seria como qualquer uma sobre a terra. E não foi assim? Ninguém espere nada além do que a terra pode dar, pois o que é, é isso. A cidade de Laranjeiras cresceu. Muita coisa mudou. Não tem mais dona Marocas. A igreja do Bonfim ainda está lá. As ruínas do engenho velho também.
ROOSEVELT VIEIRA LEITE, 19/04/11
quinta-feira, 24 de novembro de 2016
O POVO ME QUER
“Há três espécies de cérebros: uns entendem por si próprios; os outros discernem o que os primeiros entendem; e os terceiros não entendem nem por si próprios nem pelos outros; os primeiros são excelentíssimos; os segundos excelentes; e os terceiros totalmente inúteis”. (Nicolau Maquiavel).
Leonardo sempre foi carismático. Desde menino que ele se deu bem no trato social e nas relações interpessoais. Leonardo era magrinho, branquinho, e bonitinho. As moças de sua idade diziam dele: “Leonardo só tem um defeito, a bunda um pouco batida, o resto a gente aproveita”. Leonardo estudou no Comendador Saturnino, aqui, na cidade de Pampas. Fez o fundamental, se formando com muito sucesso, depois foi fazer o ensino científico em Aracaju, pois, em Pampas, não havia escolas para isso naquela época. Leonardo fez o ensino científico, e depois fez vestibular para direito. Não passou na primeira vez, fez novamente o vestibular, não passando na segunda vez. Então, Leonardo decidiu voltar a sua terra para seguir a carreira de seus antepassados. Na verdade, sua família tinha muito prestígio por essas bandas. Seu tataravô conheceu o Barão de Jeremoabo, seu avô, foi político forte na época de Getúlio Vargas, e seu pai, o famoso Zé das Galinhas, prefeito da cidade por dois mandatos.
A câmara Municipal de Pampas muito se alegrou com a candidatura de Leonardo a Prefeito da cidade. Os vereadores mais antigos se emocionaram quando viram o rapaz entrar com o terno que pertenceu a seu finado pai.
– Leonardo tá com o terno de Zé. É meu filho, quem tem nome vai longe, e você o tem.
– Mas, eu num quero que o povo vote em mim por causa de meu pai. Eu o admiro muito, mas, eu sou eu!
– Assim é que se diz macho véio!
O pessoal do “Partido dos Vencedores” se reuniu para estudar a candidatura de Leonardo. O nome “vencedores” era um tanto estranho, mas, em Pampas tem até escola com esse nome. Aqui o povo só pensa em vencer; o povo de Pampas é muito trabalhador.
– Acho que Leonardo deve esperar um pouco mais. O pessoal do brejo num vai gostar.
– Rapaz, quem tem fidelidade com o grupo acompanha o grupo. Ele num quer ver o futuro da família dele, então, obedeça à direção do partido!
– Isso mesmo Cegonha! Interrompeu Toinho do tabaco, “o vereador que sempre leva você em paz”. Todo mundo tem que se unir e formar a base para Leonardo seguir seu destino que seus pais traçaram.
– Num é bem assim, Toinho. Eu quero representar meu povo e administrar essa cidade. Ademais, para não discordar de você totalmente; acho que a política está no meu sangue. Cegonha coçou o invólucro escrotal, levou o dedo indicador às narinas e fungou um pouquinho antes de continuar:
– Vejam que muitos interesses existem nos Pampas, mas, aqui, a decisão final sempre foi de gente honesta. E o Partido dos Vencedores é um partido de gente honesta. Leonardo deve ser apoiado por todos porque ele representa a geração futura que emerge de um passado glorioso. Todos os presentes se levantaram e aplaudiram o vereador Cegonha – Aquele que não te deixa na estrada.
A cidade de Pampas tinha 15 povoados e 10 vereadores. O prefeito anterior havia se envolvido com algumas coisas erradas e estava entregando o mandato sem força para uma reeleição. Ele já havia sido vereador por dois mandatos em épocas anteriores, seu finado pai também foi vereador. Sua família tinha um latifúndio que comportava 60% de todas as terras do município; ele ainda foi presidente da Câmara e do Rotary Clube, e dizem que o mesmo tinha uma rapariga em Olindina. Em Pampas, a moralidade é muito elevada, contudo, as contradições aparecem aqui e ali.
– Meus filhos, a igreja é santa e profana. Disse o pároco Norberto. O velho repetia isso em todos os seus sermões. Em sua mente, esse paradoxo era legítimo, e legitimador da conduta geral.
– O padre disse novamente aquilo, Solange!
– Foi? Nem percebi, meu celular tinha mensagem, me desconcentrei para lê-la. Mas, a gente se criou ouvindo nosso padre dizendo isso. O que é que ele estava falando mesmo?
– Mulher, ele estava se referindo ao que o povo faz depois da devoção quando é festa na cidade. Mas, num é verdade mesmo, o povo vem falar com Deus, e depois vai para os braços do capeta e tome cerveja!
– Se fosse só cerveja! Minha filha, Pampas tá perigoso! As duas mulheres conversavam dentro do santuário no final do culto. Quando Solange levanta o olhar, Leonardo estava saindo sendo acompanhado por uma senhora idosa.
– Mulher, aquela é Dona Francisca?
– É!
– Mas, espie comadre, como está velhinha! Meu Deus! Será que ela vai ver Leonardo ser eleito?
– Num vai o que rapaz! O homem tá eleito!
As forças políticas de direita do município praticamente não tinham oposição, no entanto, o partido da oposição ganhava certa credibilidade porque o povo reclamou muito do São João do atual prefeito.
– Rapaz, o cara trabalha que só uma besta, ganha mal, come mal, vive mal, e depois, o prefeito faz um São João desses! É um cabrunco esse cara, rapaz!
– Cabrunco é pouco Cosminho! Essa porra tinha era que tomar…
– Num é Damião? Ah, se eu tivesse uma escopeta!
– Tu é de nada fio da peste! Vamos tomar umas que é melhor!
Naquele tempo, em Pampas não tinha radio. O debate político era feito no centro social, e transmitido pelo carro de som. Vinha gente de todos os lugares para espiar, ouvir e dizer alguma coisa. Nunca teve morte por isso, o povo de Pampas é da paz. Embora o povo fosse dócil, o debate foi um pouco quente. Os candidatos, como é costume do lugar, se prenderam às denúncias e, às vezes, levantavam assuntos pessoais, e quando o pessoal aparecia, as pessoas Pampenses arregalavam os olhos e abriam bem os ouvidos.
– Posso ser um homem de família humilde, meu pai ter morrido por causa de uma hemorroida estrangulada, como alegou o candidato da mesmice, Leonardo, mas, sou honesto, nem empregarei parentes na prefeitura. Disse o candidato da oposição professor Adelson Nunes do sindicado, ou como o povo costumava chamar “Delsinho do sindicato”.
– Delsinho tá dizendo que nosso partido tem pessoas na máquina pública. Vejam que barbaridade! É como o povo diz, com uma calúnia dessas, só Deus para repetir a história triste do pai – Hemorroidas nele meu Pai! Quando o populacho ouviu o “Hemorroidas nele meu Pai”, o povo entrou em delírio, a gritaria foi grande, uns atiravam os chapéus para o alto, outros cuspiam e coçavam o saco repetidamente, outros davam cavalo de pau com suas bicicletas. A galera gritava uníssona “É de Leonardo!”
Leonardo ganhou e arrastou consigo os vereadores do prefeito anterior. Agora era esperar assumir e compor seu secretariado, o primeiro, o segundo, e o terceiro escalão, sobrando vagas, entram os acordados. São os cargos da raspa do tacho. Leonardo reuniu seu pessoal, agradeceu o apoio e passou para o que interessava.
– Olha gente tive que criar duas subsecretarias para caber todo mundo. O que prometi vou cumprir. Agora vamos mostrar trabalho! Sim, Cegonha, sua filha vai ter que esperar um pouquinho porque esse negócio aí depende do pessoal de Aracaju.
– Leonardo, palavra é palavra! Você prometeu que ela ia para a secretaria de agricultura em Aracaju. Rapaz, eu preciso muito dela nesse cargo!
– Companheiro! Tenha fé, a gente vai ajeitar! A reunião terminou; todos já sabiam como seria o governo. O transporte escolar seria divido com três vereadores da base. A prefeitura faria as licitações e essas empresas ganhariam o serviço de transporte dos alunos. Em cada secretaria estavam empregados sob o regime de confiança os parentes dos vereadores e dos secretários de governo. Algumas vezes, Leonardo teve que aumentar a folha devido a mais um inimigo que virou a casaca para o lado dele. O pobre ficou tão triste que desabafou com dona Francisca, sua tia e confidente.
– Tia, num sobra dinheiro não! Tenho que empregar os aliados todos, já pensou que tradição!
– Meu filho, hoje tá melhor. Pior foi no tempo de teu pai e de teu avô. Veja, não mudou muito, mas, naquele tempo era pior.
– Tia Francisca; vou precisar de um coisa de você!
– O que meu filho? Você parece muito com sua mãe. É tão gentil.
– Os vales dos caminhões pipas é você quem vai administrar como era no tempo de pai.
– Pode deixar meu filho. Faço com muito gosto!
A seca chegou. Em Pampas de Sergipe, às vezes, a estiagem dura sete meses e os políticos sendo sabedores disso não preparam a população para enfrentar racionalmente e com dignidade a falta do líquido precioso. A solução era pedir a Francisca um caminhão d’água, dessa forma, o povo estava sempre devendo favor. A água e a saúde eram as forças que formavam o curral de Pampas. Durante os períodos de estiagem, mais pessoas dos povoados se filiavam ao partido de dona Francisca. A mulher, de muita sabedoria, virou uma santa, e seu carisma maior do que o de seu sobrinho, os dois eram imbatíveis.
A seca continuou castigando o sertão de Pampas. Uma menina foi picada por uma cobra e faleceu no posto de saúde por falta de um carro para leva-la a Aracaju. A emissora de radio da cidade vizinha noticiou o fato e cobrou de Leonardo medidas para sanar a situação do hospital.
– A situação nos Pampas é de urgência. Os cofres públicos devido à estiagem não têm muitos recursos. Vocês sabem a seca castiga, o gado fica fraco, e os negócios também. Disse o prefeito.
– Mas, todo ano não há estiagem nessa região? Por que vocês não fazem um planejamento para tanta gente não sofrer assim, afinal, quem vive em total dependência da natureza são os animais, os seres humanos pensam, fazem. Leonardo não gostou do repórter da radio.
– Moço, falar é fácil, difícil é fazer! E o amigo pensa que é o dono do mundo, é? Que tem o rei na barriga? Só porque tá falando aí? Leonardo tinha a Câmara toda nas mãos. A estiagem uniu os políticos, eles diziam que era “um pacto pela vida”. Quando a seca foi embora, um rapaz que sofria alucinações devido a uma pancada que levara na cabeça viu Pampas cheia de carros e gente comprando e gastando muito. Mas, é fato; o povo de Pampas, depois da seca, pareceu mais rico. Os comerciantes e políticos se queixavam sempre, mas, a prosperidade era grande. Na grande maioria foram pessoas da classe média para cima que ganharam com a seca: O dono do carro para transporte, o fazendeiro rico que cedeu pasto e ficou com o monopólio do gado; e aí e a coisa vai. Outra coisa que se podia ver era a quantidade de pessoas que venderam suas roças a preço de banana e vieram para Pampas, com isso a assistência social foi dobrada. Dona Francisca, também, tomava conta das cestas básicas.
– Solange, Graças a Deus que Leonardo convidou Francisca para trabalhar com ele, mulher! Ela atende a gente com tanto carinho! Dizem até que ela chorou com a morte da menina. Ela visitou a família e prometeu seis carros pipas para o povoado.
– É mulher, Francisca nasceu para servir ao pobre.
Um rapaz alto, de cabelos loiros e de olhos muito castanhos, que trajava um terno de linho marrom claro, que combinava com seu sinto e seu sapado de mesma cor, entrou no fórum da comarca de Pampas. O rapaz procurava o Promotor; em suas mãos havia documentos que seriam entregues ao Ministério Público.
– Boa tarde vossa Excelência, meu nome é Derneval, professor Derneval! Derneval nas horas vagas criava passarinhos, mas, a maior parte de seu tempo era dedicada à educação. O professor fez uma investigação e depois decidiu trazer o resultado ao Ministério Público.
– Boa tarde! Respondeu o Senhor Promotor de Justiça, Dr. Matias Fontes. Matias não era natural de Pampas. O homem veio de Aracaju fazer justiça no sertão. Ele era um homem íntegro, praticamente incorruptível. Sempre usava um terno verde abacate ou alternava com um velho terno cinza; ele gostava de cinto e sapato preto. O homem também gostava de sua arma próxima a seu peito esquerdo. Ele a guardava numa cartucheira de peito, tipo 007.
– Bem, acompanhei as ações políticas durante toda a estiagem e acompanhei o desenvolvimento econômico de algumas pessoas que estavam ligadas a máquina, e percebi que essas pessoas têm renda incompatível com o padrão de vida que ostentam. Derneval terminou sua fala e entregou os documentos ao agente da lei. O promotor ficou admirado com a denúncia respaldada e tratou de investigar.
Sete foram os meses de sigilo de justiça. Dr. Matias tinha provas para caçar o prefeito e 7 vereadores de sua bancada como também prender parentes e agregados de vossa excelência, contudo, nada escapa ao olhar de um bom político, o próprio povo o defende, ou o avisa. Todos querem ficar perto do poder.
– Leonardo, Clementina do fórum disse que tão investigando você? E parece que a coisa é séria!
– Calma Sisleide! Eu já sei o que é! Isso num dá em nada! Que ver? Espere!
Leonardo ligou para Brasília. O rapaz queria falar com um senhor muito amigo de seu finado pai. O homem era Senador. Depois ele ligou para seus amigos em Aracaju e externou sua preocupação com a base aliada que serviria para a reeleição do Governador. “Precisamos garantir a reeleição do homem porque nós não podemos ficar sem o apoio do Presidente”. Os políticos de Brasília e de Aracaju quando souberam ficaram preocupados e agradeceram a Leonardo e a dona Francisca por pensarem rápido. Pouco tempo depois a mídia noticia o desfalque em Pampas.
“Prefeito faz farra em Pampas”. Manchete do Jornal 9 horas. “Prefeito emprega até a rapariga do vereador”. Manchete do jornal Domingo Santo da Igreja Internacional do Bem de Cristo. A zoada durou uma semana, depois se acalmou. O promotor Matias foi transferido para outra Comarca deixando a bomba para um colega que nem tinha conhecimento do processo que foi misteriosamente para o fim da fila formada por centenas de processos. Leonardo foi reeleito a prefeito de Pampas. A seca continuou castigando o município, os carros pipas passeavam para lá e para cá. Dona Francisca sempre na calçada quando o sol esfriava. O povo que passava lhe agradecia as bênçãos. Matias nunca soube o motivo de sua remoção – tinha desconfianças, afinal, ele conhecia bem a história do Brasil.
– Sinhô! Sim Sinhô! Fale que nego escuta!
– Meu véio, e vai continuar assim? O velho ajeitou o cachimbo no canto da boca e disse soltando fumaça:
– Num libertaram os nego? Num foi? Tonce vão libertar vosmercês.
– Quando meu véio?
– Sinhôzinho pergunta muitxo. Mas, nego véio gosta de vosmercê. Tudo nesse mundo um dia muda. Nesse causo, a mudança é só quando a gente pobe entender o que lê e o que vê; aí o povo vai sabê quem é o dono dessa terra mermo. Se num é de quem trabaia nela! Num foi assim que Zambi deixô? …
Leonardo sempre foi carismático. Desde menino que ele se deu bem no trato social e nas relações interpessoais. Leonardo era magrinho, branquinho, e bonitinho. As moças de sua idade diziam dele: “Leonardo só tem um defeito, a bunda um pouco batida, o resto a gente aproveita”. Leonardo estudou no Comendador Saturnino, aqui, na cidade de Pampas. Fez o fundamental, se formando com muito sucesso, depois foi fazer o ensino científico em Aracaju, pois, em Pampas, não havia escolas para isso naquela época. Leonardo fez o ensino científico, e depois fez vestibular para direito. Não passou na primeira vez, fez novamente o vestibular, não passando na segunda vez. Então, Leonardo decidiu voltar a sua terra para seguir a carreira de seus antepassados. Na verdade, sua família tinha muito prestígio por essas bandas. Seu tataravô conheceu o Barão de Jeremoabo, seu avô, foi político forte na época de Getúlio Vargas, e seu pai, o famoso Zé das Galinhas, prefeito da cidade por dois mandatos.
A câmara Municipal de Pampas muito se alegrou com a candidatura de Leonardo a Prefeito da cidade. Os vereadores mais antigos se emocionaram quando viram o rapaz entrar com o terno que pertenceu a seu finado pai.
– Leonardo tá com o terno de Zé. É meu filho, quem tem nome vai longe, e você o tem.
– Mas, eu num quero que o povo vote em mim por causa de meu pai. Eu o admiro muito, mas, eu sou eu!
– Assim é que se diz macho véio!
O pessoal do “Partido dos Vencedores” se reuniu para estudar a candidatura de Leonardo. O nome “vencedores” era um tanto estranho, mas, em Pampas tem até escola com esse nome. Aqui o povo só pensa em vencer; o povo de Pampas é muito trabalhador.
– Acho que Leonardo deve esperar um pouco mais. O pessoal do brejo num vai gostar.
– Rapaz, quem tem fidelidade com o grupo acompanha o grupo. Ele num quer ver o futuro da família dele, então, obedeça à direção do partido!
– Isso mesmo Cegonha! Interrompeu Toinho do tabaco, “o vereador que sempre leva você em paz”. Todo mundo tem que se unir e formar a base para Leonardo seguir seu destino que seus pais traçaram.
– Num é bem assim, Toinho. Eu quero representar meu povo e administrar essa cidade. Ademais, para não discordar de você totalmente; acho que a política está no meu sangue. Cegonha coçou o invólucro escrotal, levou o dedo indicador às narinas e fungou um pouquinho antes de continuar:
– Vejam que muitos interesses existem nos Pampas, mas, aqui, a decisão final sempre foi de gente honesta. E o Partido dos Vencedores é um partido de gente honesta. Leonardo deve ser apoiado por todos porque ele representa a geração futura que emerge de um passado glorioso. Todos os presentes se levantaram e aplaudiram o vereador Cegonha – Aquele que não te deixa na estrada.
A cidade de Pampas tinha 15 povoados e 10 vereadores. O prefeito anterior havia se envolvido com algumas coisas erradas e estava entregando o mandato sem força para uma reeleição. Ele já havia sido vereador por dois mandatos em épocas anteriores, seu finado pai também foi vereador. Sua família tinha um latifúndio que comportava 60% de todas as terras do município; ele ainda foi presidente da Câmara e do Rotary Clube, e dizem que o mesmo tinha uma rapariga em Olindina. Em Pampas, a moralidade é muito elevada, contudo, as contradições aparecem aqui e ali.
– Meus filhos, a igreja é santa e profana. Disse o pároco Norberto. O velho repetia isso em todos os seus sermões. Em sua mente, esse paradoxo era legítimo, e legitimador da conduta geral.
– O padre disse novamente aquilo, Solange!
– Foi? Nem percebi, meu celular tinha mensagem, me desconcentrei para lê-la. Mas, a gente se criou ouvindo nosso padre dizendo isso. O que é que ele estava falando mesmo?
– Mulher, ele estava se referindo ao que o povo faz depois da devoção quando é festa na cidade. Mas, num é verdade mesmo, o povo vem falar com Deus, e depois vai para os braços do capeta e tome cerveja!
– Se fosse só cerveja! Minha filha, Pampas tá perigoso! As duas mulheres conversavam dentro do santuário no final do culto. Quando Solange levanta o olhar, Leonardo estava saindo sendo acompanhado por uma senhora idosa.
– Mulher, aquela é Dona Francisca?
– É!
– Mas, espie comadre, como está velhinha! Meu Deus! Será que ela vai ver Leonardo ser eleito?
– Num vai o que rapaz! O homem tá eleito!
As forças políticas de direita do município praticamente não tinham oposição, no entanto, o partido da oposição ganhava certa credibilidade porque o povo reclamou muito do São João do atual prefeito.
– Rapaz, o cara trabalha que só uma besta, ganha mal, come mal, vive mal, e depois, o prefeito faz um São João desses! É um cabrunco esse cara, rapaz!
– Cabrunco é pouco Cosminho! Essa porra tinha era que tomar…
– Num é Damião? Ah, se eu tivesse uma escopeta!
– Tu é de nada fio da peste! Vamos tomar umas que é melhor!
Naquele tempo, em Pampas não tinha radio. O debate político era feito no centro social, e transmitido pelo carro de som. Vinha gente de todos os lugares para espiar, ouvir e dizer alguma coisa. Nunca teve morte por isso, o povo de Pampas é da paz. Embora o povo fosse dócil, o debate foi um pouco quente. Os candidatos, como é costume do lugar, se prenderam às denúncias e, às vezes, levantavam assuntos pessoais, e quando o pessoal aparecia, as pessoas Pampenses arregalavam os olhos e abriam bem os ouvidos.
– Posso ser um homem de família humilde, meu pai ter morrido por causa de uma hemorroida estrangulada, como alegou o candidato da mesmice, Leonardo, mas, sou honesto, nem empregarei parentes na prefeitura. Disse o candidato da oposição professor Adelson Nunes do sindicado, ou como o povo costumava chamar “Delsinho do sindicato”.
– Delsinho tá dizendo que nosso partido tem pessoas na máquina pública. Vejam que barbaridade! É como o povo diz, com uma calúnia dessas, só Deus para repetir a história triste do pai – Hemorroidas nele meu Pai! Quando o populacho ouviu o “Hemorroidas nele meu Pai”, o povo entrou em delírio, a gritaria foi grande, uns atiravam os chapéus para o alto, outros cuspiam e coçavam o saco repetidamente, outros davam cavalo de pau com suas bicicletas. A galera gritava uníssona “É de Leonardo!”
Leonardo ganhou e arrastou consigo os vereadores do prefeito anterior. Agora era esperar assumir e compor seu secretariado, o primeiro, o segundo, e o terceiro escalão, sobrando vagas, entram os acordados. São os cargos da raspa do tacho. Leonardo reuniu seu pessoal, agradeceu o apoio e passou para o que interessava.
– Olha gente tive que criar duas subsecretarias para caber todo mundo. O que prometi vou cumprir. Agora vamos mostrar trabalho! Sim, Cegonha, sua filha vai ter que esperar um pouquinho porque esse negócio aí depende do pessoal de Aracaju.
– Leonardo, palavra é palavra! Você prometeu que ela ia para a secretaria de agricultura em Aracaju. Rapaz, eu preciso muito dela nesse cargo!
– Companheiro! Tenha fé, a gente vai ajeitar! A reunião terminou; todos já sabiam como seria o governo. O transporte escolar seria divido com três vereadores da base. A prefeitura faria as licitações e essas empresas ganhariam o serviço de transporte dos alunos. Em cada secretaria estavam empregados sob o regime de confiança os parentes dos vereadores e dos secretários de governo. Algumas vezes, Leonardo teve que aumentar a folha devido a mais um inimigo que virou a casaca para o lado dele. O pobre ficou tão triste que desabafou com dona Francisca, sua tia e confidente.
– Tia, num sobra dinheiro não! Tenho que empregar os aliados todos, já pensou que tradição!
– Meu filho, hoje tá melhor. Pior foi no tempo de teu pai e de teu avô. Veja, não mudou muito, mas, naquele tempo era pior.
– Tia Francisca; vou precisar de um coisa de você!
– O que meu filho? Você parece muito com sua mãe. É tão gentil.
– Os vales dos caminhões pipas é você quem vai administrar como era no tempo de pai.
– Pode deixar meu filho. Faço com muito gosto!
A seca chegou. Em Pampas de Sergipe, às vezes, a estiagem dura sete meses e os políticos sendo sabedores disso não preparam a população para enfrentar racionalmente e com dignidade a falta do líquido precioso. A solução era pedir a Francisca um caminhão d’água, dessa forma, o povo estava sempre devendo favor. A água e a saúde eram as forças que formavam o curral de Pampas. Durante os períodos de estiagem, mais pessoas dos povoados se filiavam ao partido de dona Francisca. A mulher, de muita sabedoria, virou uma santa, e seu carisma maior do que o de seu sobrinho, os dois eram imbatíveis.
A seca continuou castigando o sertão de Pampas. Uma menina foi picada por uma cobra e faleceu no posto de saúde por falta de um carro para leva-la a Aracaju. A emissora de radio da cidade vizinha noticiou o fato e cobrou de Leonardo medidas para sanar a situação do hospital.
– A situação nos Pampas é de urgência. Os cofres públicos devido à estiagem não têm muitos recursos. Vocês sabem a seca castiga, o gado fica fraco, e os negócios também. Disse o prefeito.
– Mas, todo ano não há estiagem nessa região? Por que vocês não fazem um planejamento para tanta gente não sofrer assim, afinal, quem vive em total dependência da natureza são os animais, os seres humanos pensam, fazem. Leonardo não gostou do repórter da radio.
– Moço, falar é fácil, difícil é fazer! E o amigo pensa que é o dono do mundo, é? Que tem o rei na barriga? Só porque tá falando aí? Leonardo tinha a Câmara toda nas mãos. A estiagem uniu os políticos, eles diziam que era “um pacto pela vida”. Quando a seca foi embora, um rapaz que sofria alucinações devido a uma pancada que levara na cabeça viu Pampas cheia de carros e gente comprando e gastando muito. Mas, é fato; o povo de Pampas, depois da seca, pareceu mais rico. Os comerciantes e políticos se queixavam sempre, mas, a prosperidade era grande. Na grande maioria foram pessoas da classe média para cima que ganharam com a seca: O dono do carro para transporte, o fazendeiro rico que cedeu pasto e ficou com o monopólio do gado; e aí e a coisa vai. Outra coisa que se podia ver era a quantidade de pessoas que venderam suas roças a preço de banana e vieram para Pampas, com isso a assistência social foi dobrada. Dona Francisca, também, tomava conta das cestas básicas.
– Solange, Graças a Deus que Leonardo convidou Francisca para trabalhar com ele, mulher! Ela atende a gente com tanto carinho! Dizem até que ela chorou com a morte da menina. Ela visitou a família e prometeu seis carros pipas para o povoado.
– É mulher, Francisca nasceu para servir ao pobre.
Um rapaz alto, de cabelos loiros e de olhos muito castanhos, que trajava um terno de linho marrom claro, que combinava com seu sinto e seu sapado de mesma cor, entrou no fórum da comarca de Pampas. O rapaz procurava o Promotor; em suas mãos havia documentos que seriam entregues ao Ministério Público.
– Boa tarde vossa Excelência, meu nome é Derneval, professor Derneval! Derneval nas horas vagas criava passarinhos, mas, a maior parte de seu tempo era dedicada à educação. O professor fez uma investigação e depois decidiu trazer o resultado ao Ministério Público.
– Boa tarde! Respondeu o Senhor Promotor de Justiça, Dr. Matias Fontes. Matias não era natural de Pampas. O homem veio de Aracaju fazer justiça no sertão. Ele era um homem íntegro, praticamente incorruptível. Sempre usava um terno verde abacate ou alternava com um velho terno cinza; ele gostava de cinto e sapato preto. O homem também gostava de sua arma próxima a seu peito esquerdo. Ele a guardava numa cartucheira de peito, tipo 007.
– Bem, acompanhei as ações políticas durante toda a estiagem e acompanhei o desenvolvimento econômico de algumas pessoas que estavam ligadas a máquina, e percebi que essas pessoas têm renda incompatível com o padrão de vida que ostentam. Derneval terminou sua fala e entregou os documentos ao agente da lei. O promotor ficou admirado com a denúncia respaldada e tratou de investigar.
Sete foram os meses de sigilo de justiça. Dr. Matias tinha provas para caçar o prefeito e 7 vereadores de sua bancada como também prender parentes e agregados de vossa excelência, contudo, nada escapa ao olhar de um bom político, o próprio povo o defende, ou o avisa. Todos querem ficar perto do poder.
– Leonardo, Clementina do fórum disse que tão investigando você? E parece que a coisa é séria!
– Calma Sisleide! Eu já sei o que é! Isso num dá em nada! Que ver? Espere!
Leonardo ligou para Brasília. O rapaz queria falar com um senhor muito amigo de seu finado pai. O homem era Senador. Depois ele ligou para seus amigos em Aracaju e externou sua preocupação com a base aliada que serviria para a reeleição do Governador. “Precisamos garantir a reeleição do homem porque nós não podemos ficar sem o apoio do Presidente”. Os políticos de Brasília e de Aracaju quando souberam ficaram preocupados e agradeceram a Leonardo e a dona Francisca por pensarem rápido. Pouco tempo depois a mídia noticia o desfalque em Pampas.
“Prefeito faz farra em Pampas”. Manchete do Jornal 9 horas. “Prefeito emprega até a rapariga do vereador”. Manchete do jornal Domingo Santo da Igreja Internacional do Bem de Cristo. A zoada durou uma semana, depois se acalmou. O promotor Matias foi transferido para outra Comarca deixando a bomba para um colega que nem tinha conhecimento do processo que foi misteriosamente para o fim da fila formada por centenas de processos. Leonardo foi reeleito a prefeito de Pampas. A seca continuou castigando o município, os carros pipas passeavam para lá e para cá. Dona Francisca sempre na calçada quando o sol esfriava. O povo que passava lhe agradecia as bênçãos. Matias nunca soube o motivo de sua remoção – tinha desconfianças, afinal, ele conhecia bem a história do Brasil.
– Sinhô! Sim Sinhô! Fale que nego escuta!
– Meu véio, e vai continuar assim? O velho ajeitou o cachimbo no canto da boca e disse soltando fumaça:
– Num libertaram os nego? Num foi? Tonce vão libertar vosmercês.
– Quando meu véio?
– Sinhôzinho pergunta muitxo. Mas, nego véio gosta de vosmercê. Tudo nesse mundo um dia muda. Nesse causo, a mudança é só quando a gente pobe entender o que lê e o que vê; aí o povo vai sabê quem é o dono dessa terra mermo. Se num é de quem trabaia nela! Num foi assim que Zambi deixô? …
quarta-feira, 23 de novembro de 2016
A CIDADE VAZIA
Rodolfo pegou o ônibus na Rodoviária velha de Tobias Barreto no estado de Sergipe. O engenheiro civil que fiscalizava as obras do Governo Federal estava indo para Olindina no estado da Bahia. Naquele município baiano, o Governo Federal tinha muito dinheiro investido no projeto de construção de casas populares. Rodolfo, um rapaz de 43 anos, era um dos engenheiros responsável pelo bom andar da carruagem. O ônibus estava nem muito cheio, nem muito vazio, na verdade, como diz o povo dos Campos, estava ‘meiado’. As pessoas conversavam as trivialidades do dia a dia. A prosa seguia junto com o ônibus rumo a Olindina.
Rodolfo pensava em Mônica, sua filha mais velha; a moça se envolvera com álcool, e desde então sua vida desandou. Isso fazia o jovem engenheiro perder o foco de seu trabalho, pois, a preocupação com a jovem moça, muitas vezes, falava mais alto. “Meu Deus, o que será dela se ela não parar?” “Por que isso veio sobre nós?” Essas eram as perguntas que o engenheiro fazia quando o foco de seu trabalho cedia lugar ao rosto meigo e branco de sua amada filha.
O ônibus segue seu curso atravessando mansamente o Povoado “Lagoa Redonda”. Rodolfo olha de sua janela e vê as pessoas nas ruas; todos seguiam suas vidas; todos estavam ocupados, todos faziam alguma coisa. As barracas de carne do sol, cheias de gente, estavam dispostas nas calçadas como de costume; os vendedores ambulantes gritavam muito entusiasmados: “Olha o picolé” ou “Compre taiucaroba - o melhor remédio para a espinhela caída”. A Lagoa Redonda é o começo da viagem para Olindina, uma estrada que tem muitas estórias para contar. Próximo à curva do “S”, Rodolfo abre seu caderno de apontamentos e revisa seus planos para Olindina. Ele era um homem muito metódico; Rodolfo gostava de cada coisa em seu lugar e no tempo certo. O carro desce a ladeira da curva com os freios gritando, uma senhora magra e alta que segurava uma criança com uma das mãos e com a outra um cesto de verduras tenta se equilibrar. Por pouco a pobre mulher não saía pela janela da condução. No pé da ladeira o carro para, a dita senhora desce, junto com ela outras duas mulheres. Uma senhora de seus quarenta anos cuja barriga era imensa o que dificultava seu transito pelo veículo grita do fundo da condução: “Pera aí, vou descer também!” A mulher se espreme para conseguir chegar até a porta. “Isso é ridículo, esses carros são muito estreitos”. Resmungou a mulher durante o seu percurso horrendo. O ônibus ao chegar a Itapicuru estava quase vazio. O motorista esperou mais de meia hora na tentativa de conseguir mais passageiros, o que irritou a Rodolfo: “Moço, eu tenho horário para cumprir, paciência!” O motorista desceu a ladeira da Matriz da cidade do Barão de Jeremoabo e toma a direção da estrada que vai para Olindina. O veículo vazio irritava o motorista. Quando este avistava alguém no caminho buzinava para chamar a atenção, todavia, ninguém mais subiu no estranho carro. Em pouco tempo restou apenas Rodolfo e seus pensamentos que se alternavam entre o trabalho e a face de sua amada filha Mônica. “Ah, minha filha se você, pelo menos, me deixasse te internar!” Rodolfo não percebeu quando o carro parou. O sono o pegou no meio da estrada. O veículo estava vazio, o motorista, certamente, havia saído para falar com alguém. Foi o que pensou o engenheiro.
Rodolfo desceu do carro e procurou uma condução para o centro da cidade. Não havia ninguém na Rodoviária. As lojas estavam abertas, mas, as pessoas haviam sumido. “Estranho” disse Rodolfo. O moço tomou a direção do centro comercial da pequena cidade baiana. Desceu a pé. Não percebeu, mas, durante o caminho até o centro comercial não havia uma alma no mundo. A cidade estava como se fosse todo dia: Lojas, farmácias, mercadinhos, carros de som, bancos, tudo estava funcionando, mas, não havia uma só criatura naquele lugar. “Muito estranho!” “Pera aí, o que é isso?” Pensou Rodolfo – “A cidade está vazia!” Rodolfo foi ao banco principal do lugar. A agência estava vazia, o ar condicionado fazia uma zoada irritante, os computadores estavam funcionando, contudo, seus operadores haviam sumido. Rodolfo liga para sua casa. O telefone não atende. “Mas, que coisa é essa?” Perguntou novamente o engenheiro.
O calor lá fora era forte, Rodolfo decide ficar um pouco na agência para ver se alguém aparece. Tomou café, fez xixi, e depois voltou para a poltrona mais próxima do ar condicionado, embora barulhento. As horas passam, e com ela se foi a paciência do rapaz. “Isso é um absurdo, como deixam uma agencia bancária sem ninguém?” Rodolfo retorna para sua poltrona perto do ar condicionado e espera mais um pouco. Os minutos se transformam em horas, e nada. Definitivamente, o lugar estava abandonado. “E o cofre?” Se alguém roubar o dinheiro? Essas foram às indagações do rapaz, no entanto, nenhuma delas foi respondida.
O engenheiro civil andou por toda a cidade, não viu uma alma viva. A prefeitura estava aberta, todas as secretarias estavam abertas, mas, nada de um ser vivo. Apenas pombos nas calçadas; até os cachorros e gatos haviam sumido. “Mas, mas, o que é isso?” Agora, a agonia do engenheiro se torna crônica. Ele teve a certeza que não queria ter – estava só naquele lugar. Rodolfo entrou numa lanchonete, abriu o freezer, pegou uma cerveja, e a bebeu comendo uma coxinha – “Pelo menos tem uma vantagem, não preciso pagar a conta”. “Sim, o motorista, o motorista do ônibus deve estar em algum lugar!” Rodolfo caminhou a cidade gritando bem alto: “Motorista”.
Próximo ao cemitério, Rodolfo encontra o motorista, ou o que restou dele. O homem era somente ossos dentro de uma poça fétida de sangue coalhado. Alguns ratos passeavam tranquilamente pela a avenida principal do lugar santo. Era um guabiru muito arrogante cujo bigode podia ser visto de longe. “Será que os ratos comeram a todos?” Tão logo a pergunta é feita um grupo de ratazanas escondem os restos do motorista dentro do cemitério onde havia uma cova aberta a espera do finado. “Mas, mas, como?”
- Sim, moço. O que você vê é o que você vê. Disse um ratinho pequeno que subira o cruzeiro da calunga pequena.
- Desculpe-me, devo estar delirando. Devo voltar ao banco quem sabe alguém esteja lá agora.
- Não perca seu tempo Rodolfo! Falou forte o ratinho do cruzeiro.
- Como sabe o meu nome?
- Ora doutor, quem não te conhece aqui em Olindina! Até os ratos sabem o que fazes por essas terras. Será verdade o comentário do povo da praça, digo, os finados que se reuniam lá?
- O que? Como? Não entendi!
- Sua pessoa se deixou vender no projeto da caixa d’água?
- Que caixa d’água? Alias, nem sei o porquê de minha pessoa está falando com um rato.
- Quando os donos saem, os ratos tomam de conta, não é esse o ditado idiota de vocês?
- Deve haver alguma explicação coerente. Devo estar sonhando, é isso, quando acordar, tudo estará como sempre foi, ou melhor, como deve ser. O rato calunga deu uma cambalhota, desceu do cruzeiro e parou sobre um túmulo.
- Aqui está enterrada a finada Cipriana. Mulher imbecil, odiosa toda. Quando ela morreu, os ratos fizeram uma festa no esgoto que cai no rio aqui próximo. Você nem pode imaginar a alegria de sabermos que esse monte de carne está apodrecendo aqui embaixo. Não mais ratoeiras, amigo. São muito engraçados vocês humanos. Vocês comem o melhor e nós as sobras. Para nós sobra o lixo, o esgoto. As vacas gordas são para vocês. Os ossos ficam para os ratos roerem. Tudo isso porque somos roedores; é isso, amigo doutor?
- Não eu não acredito em nada disso! Deve ser uma alucinação! Eu, definitivamente, não estou falando com ratos, isso não é possível!
- Sim, amigo você está sim! Não duvide! Os ratos estão no controle agora. Quando o calunga disse isso surgiu dentre as covas uma multidão de roedores de diferentes espécies. Era rato que não se podia contar. Eles estavam enfurecidos. Um rato grande e forte de cor negra se aproxima do engenheiro. Range os dentes exibindo sua dentição perfeita, seus pelos pareciam espinhos.
- Quer dizer que o coroa ainda não sabe quem manda aqui? Somos nós! Bradou o rato com todas as forças de seu pulmão. Os demais ratos começaram a dançar funk. A ratarada caiu em delírio. Uma ratinha até simpática piscou um dos seus pequenos olhos para o engenheiro. A turma dançava sem parar, o engenheiro aproveitou o momento para tentar uma fuga do lugar. Quando Rodolfo se aproxima do portão principal do cemitério este estava tomado de ratos que gritavam eufóricos: “Comida!” Rodolfo para e diz consigo: “Quando eu vou acordar?” Mal parou seu pensamento e sentiu uma pancada forte na cabeça. Rodolfo cai ao lado de uma cova aberta. Quando ele acordou estava coberto de ratos.
As dores agudas no corpo eram intensas, eram como mordidas finas que ora ficavam fortes, ora se atenuavam. O engenheiro, de vez em quando, ouvia o calunga dizer: “Calma pessoal, vão com calma, esse é filé”. Lentamente, Rodolfo estava sendo consumido pelos ratos, contudo, sua cabeça havia sido poupada. A dor, o calor do sol em seu rosto o fez desmaiar. A mente de Rodolfo se volta para Aracaju onde estava Mônica sua filha. Sua pequena como ele dizia. Ele via a moça sã, sem nenhum sintoma de embriaguez, ela falava sem delírios, e dizia ao seu pai o quanto o amava.
- Pai, esse ano vou fazer o vestibular.
- Minha filha como me alegro em te ver assim.
- Pai, mainha me disse que o senhor vai trabalhar em Aracaju, somente em Aracaju, é verdade?
- Sim, minha filha. Agora não mais viagens. Estarei sempre por perto. Continue assim filha, papai te ama.
- Pai, tudo passou, agora sei o que quero de minha vida.
- Que bom querida! Finalmente, você encontrou o rumo. E o álcool, não sente mais a compulsão?
- Não pai. Hoje acordei e vi o quanto é bom estar sóbria. Quero lutar e ser como senhor.
Os ratos continuavam a devorar o engenheiro, um rato cinza, do tipo ratazana mordeu desavisadamente uma veia de Rodolfo. O sangue esguichou rapidamente. O calunga repreendeu o colega dizendo-lhe que gente de primeira classe deve morrer com respeito. Rodolfo desacordado nada mais sentia; nem dor, nem medo. Apenas a imagem de sua filha estava em sua mente. Ela corria num campo verde cheio de rosas e flores variadas. Ele podia até sentir o cheiro da natureza viva. Sua filha representava muito para ele.
- Pai, o bilhete que mamãe achou, fui eu quem escondeu. O senhor não devia ter feito aquilo.
- Aquilo o que?
- Ora, pai, eu tenho vergonha do senhor, não vou dizer.
- Diga filha! É bom que entre nós não haja mais mistérios.
- Eu sei que a filha de dona Cipriana que frequentava aqui é sua filha. Eu sei que o senhor teve um caso com ela. Rodolfo ficou muito nervoso, mas, preferiu confessar seu segredo de uma vez por todas: “Mônica, quando somos adultos escondemos dos filhos as coisas para lhes poupar os nervos; esperamos que eles cresçam para que sendo capazes de entender a vida possam saber a verdade dos adultos. Sim, minha filha, eu amei Cipriana. Mas isso foi antes de conhecer sua mãe. Na verdade, hoje eu amo tua mãe, mas, no início as coisas foram muitos difíceis. Eu casei com sua mãe por causa do curso de engenharia, sem a ajuda dela jamais eu teria me formado. Logo depois Cipriana engravidou, eu a pedi para esconder as coisas até tudo clarear. Sua mãe com o tempo terminou sabendo de tudo. Esse foi o nosso problema e o nosso segredo por anos. Deixei Cipriana e nunca mais a vi, isso eu prometo e juro perante Deus que é verdade! Tua mãe nunca me perdoou; essa é a causa da falência de nossa relação. Quero te dizer que te amo e amo também sua mãe, mas, a convivência entre nós se tornou muito difícil, contudo, estamos tentando ser felizes”. Após o pai abrir o coração, Mônica sai cantando no belo jardim da vidência do engenheiro. A menina desaparece de seus olhos entre girassóis e margaridas.
- Doutor!
- Hum!
- Chegamos.
- Tá. Rodolfo desceu do ônibus na Rodoviária de Olindina. O sol estava perto do meio dia. O povo passava para todos os lados. Era dia de feira, havia gente de todo lugar. No centro da cidade, perto da agencia bancária, Rodolfo encontra um telefone público e liga para casa.
- Alô!
- Meu amor como está Mônica?
- Rodolfo, ela ainda não chegou. Saiu ontem com o namorado e até agora nada. Acho que ela bebeu novamente.
- Tá bom. Vamos entregar nas mãos de Deus.
- E você? Como foi a viagem? Rodolfo procura palavras para dizer, passa um lenço na testa e cospe no chão. Um ratinho calunga safado passa correndo bem diante de seus olhos, e se esconde no bueiro da praça.
- Meu amor, hoje no Brasil, as coisas estão entregues aos ratos.
- É mesmo, meu bem, sabia que tem mais um escândalo em Brasília?
- É isso, esse país tá de cabeça para baixo.
- É mesmo querido! Os dois conversaram por alguns minutos. Depois o doutor Rodolfo seguiu caminho até a prefeitura...
Rodolfo pensava em Mônica, sua filha mais velha; a moça se envolvera com álcool, e desde então sua vida desandou. Isso fazia o jovem engenheiro perder o foco de seu trabalho, pois, a preocupação com a jovem moça, muitas vezes, falava mais alto. “Meu Deus, o que será dela se ela não parar?” “Por que isso veio sobre nós?” Essas eram as perguntas que o engenheiro fazia quando o foco de seu trabalho cedia lugar ao rosto meigo e branco de sua amada filha.
O ônibus segue seu curso atravessando mansamente o Povoado “Lagoa Redonda”. Rodolfo olha de sua janela e vê as pessoas nas ruas; todos seguiam suas vidas; todos estavam ocupados, todos faziam alguma coisa. As barracas de carne do sol, cheias de gente, estavam dispostas nas calçadas como de costume; os vendedores ambulantes gritavam muito entusiasmados: “Olha o picolé” ou “Compre taiucaroba - o melhor remédio para a espinhela caída”. A Lagoa Redonda é o começo da viagem para Olindina, uma estrada que tem muitas estórias para contar. Próximo à curva do “S”, Rodolfo abre seu caderno de apontamentos e revisa seus planos para Olindina. Ele era um homem muito metódico; Rodolfo gostava de cada coisa em seu lugar e no tempo certo. O carro desce a ladeira da curva com os freios gritando, uma senhora magra e alta que segurava uma criança com uma das mãos e com a outra um cesto de verduras tenta se equilibrar. Por pouco a pobre mulher não saía pela janela da condução. No pé da ladeira o carro para, a dita senhora desce, junto com ela outras duas mulheres. Uma senhora de seus quarenta anos cuja barriga era imensa o que dificultava seu transito pelo veículo grita do fundo da condução: “Pera aí, vou descer também!” A mulher se espreme para conseguir chegar até a porta. “Isso é ridículo, esses carros são muito estreitos”. Resmungou a mulher durante o seu percurso horrendo. O ônibus ao chegar a Itapicuru estava quase vazio. O motorista esperou mais de meia hora na tentativa de conseguir mais passageiros, o que irritou a Rodolfo: “Moço, eu tenho horário para cumprir, paciência!” O motorista desceu a ladeira da Matriz da cidade do Barão de Jeremoabo e toma a direção da estrada que vai para Olindina. O veículo vazio irritava o motorista. Quando este avistava alguém no caminho buzinava para chamar a atenção, todavia, ninguém mais subiu no estranho carro. Em pouco tempo restou apenas Rodolfo e seus pensamentos que se alternavam entre o trabalho e a face de sua amada filha Mônica. “Ah, minha filha se você, pelo menos, me deixasse te internar!” Rodolfo não percebeu quando o carro parou. O sono o pegou no meio da estrada. O veículo estava vazio, o motorista, certamente, havia saído para falar com alguém. Foi o que pensou o engenheiro.
Rodolfo desceu do carro e procurou uma condução para o centro da cidade. Não havia ninguém na Rodoviária. As lojas estavam abertas, mas, as pessoas haviam sumido. “Estranho” disse Rodolfo. O moço tomou a direção do centro comercial da pequena cidade baiana. Desceu a pé. Não percebeu, mas, durante o caminho até o centro comercial não havia uma alma no mundo. A cidade estava como se fosse todo dia: Lojas, farmácias, mercadinhos, carros de som, bancos, tudo estava funcionando, mas, não havia uma só criatura naquele lugar. “Muito estranho!” “Pera aí, o que é isso?” Pensou Rodolfo – “A cidade está vazia!” Rodolfo foi ao banco principal do lugar. A agência estava vazia, o ar condicionado fazia uma zoada irritante, os computadores estavam funcionando, contudo, seus operadores haviam sumido. Rodolfo liga para sua casa. O telefone não atende. “Mas, que coisa é essa?” Perguntou novamente o engenheiro.
O calor lá fora era forte, Rodolfo decide ficar um pouco na agência para ver se alguém aparece. Tomou café, fez xixi, e depois voltou para a poltrona mais próxima do ar condicionado, embora barulhento. As horas passam, e com ela se foi a paciência do rapaz. “Isso é um absurdo, como deixam uma agencia bancária sem ninguém?” Rodolfo retorna para sua poltrona perto do ar condicionado e espera mais um pouco. Os minutos se transformam em horas, e nada. Definitivamente, o lugar estava abandonado. “E o cofre?” Se alguém roubar o dinheiro? Essas foram às indagações do rapaz, no entanto, nenhuma delas foi respondida.
O engenheiro civil andou por toda a cidade, não viu uma alma viva. A prefeitura estava aberta, todas as secretarias estavam abertas, mas, nada de um ser vivo. Apenas pombos nas calçadas; até os cachorros e gatos haviam sumido. “Mas, mas, o que é isso?” Agora, a agonia do engenheiro se torna crônica. Ele teve a certeza que não queria ter – estava só naquele lugar. Rodolfo entrou numa lanchonete, abriu o freezer, pegou uma cerveja, e a bebeu comendo uma coxinha – “Pelo menos tem uma vantagem, não preciso pagar a conta”. “Sim, o motorista, o motorista do ônibus deve estar em algum lugar!” Rodolfo caminhou a cidade gritando bem alto: “Motorista”.
Próximo ao cemitério, Rodolfo encontra o motorista, ou o que restou dele. O homem era somente ossos dentro de uma poça fétida de sangue coalhado. Alguns ratos passeavam tranquilamente pela a avenida principal do lugar santo. Era um guabiru muito arrogante cujo bigode podia ser visto de longe. “Será que os ratos comeram a todos?” Tão logo a pergunta é feita um grupo de ratazanas escondem os restos do motorista dentro do cemitério onde havia uma cova aberta a espera do finado. “Mas, mas, como?”
- Sim, moço. O que você vê é o que você vê. Disse um ratinho pequeno que subira o cruzeiro da calunga pequena.
- Desculpe-me, devo estar delirando. Devo voltar ao banco quem sabe alguém esteja lá agora.
- Não perca seu tempo Rodolfo! Falou forte o ratinho do cruzeiro.
- Como sabe o meu nome?
- Ora doutor, quem não te conhece aqui em Olindina! Até os ratos sabem o que fazes por essas terras. Será verdade o comentário do povo da praça, digo, os finados que se reuniam lá?
- O que? Como? Não entendi!
- Sua pessoa se deixou vender no projeto da caixa d’água?
- Que caixa d’água? Alias, nem sei o porquê de minha pessoa está falando com um rato.
- Quando os donos saem, os ratos tomam de conta, não é esse o ditado idiota de vocês?
- Deve haver alguma explicação coerente. Devo estar sonhando, é isso, quando acordar, tudo estará como sempre foi, ou melhor, como deve ser. O rato calunga deu uma cambalhota, desceu do cruzeiro e parou sobre um túmulo.
- Aqui está enterrada a finada Cipriana. Mulher imbecil, odiosa toda. Quando ela morreu, os ratos fizeram uma festa no esgoto que cai no rio aqui próximo. Você nem pode imaginar a alegria de sabermos que esse monte de carne está apodrecendo aqui embaixo. Não mais ratoeiras, amigo. São muito engraçados vocês humanos. Vocês comem o melhor e nós as sobras. Para nós sobra o lixo, o esgoto. As vacas gordas são para vocês. Os ossos ficam para os ratos roerem. Tudo isso porque somos roedores; é isso, amigo doutor?
- Não eu não acredito em nada disso! Deve ser uma alucinação! Eu, definitivamente, não estou falando com ratos, isso não é possível!
- Sim, amigo você está sim! Não duvide! Os ratos estão no controle agora. Quando o calunga disse isso surgiu dentre as covas uma multidão de roedores de diferentes espécies. Era rato que não se podia contar. Eles estavam enfurecidos. Um rato grande e forte de cor negra se aproxima do engenheiro. Range os dentes exibindo sua dentição perfeita, seus pelos pareciam espinhos.
- Quer dizer que o coroa ainda não sabe quem manda aqui? Somos nós! Bradou o rato com todas as forças de seu pulmão. Os demais ratos começaram a dançar funk. A ratarada caiu em delírio. Uma ratinha até simpática piscou um dos seus pequenos olhos para o engenheiro. A turma dançava sem parar, o engenheiro aproveitou o momento para tentar uma fuga do lugar. Quando Rodolfo se aproxima do portão principal do cemitério este estava tomado de ratos que gritavam eufóricos: “Comida!” Rodolfo para e diz consigo: “Quando eu vou acordar?” Mal parou seu pensamento e sentiu uma pancada forte na cabeça. Rodolfo cai ao lado de uma cova aberta. Quando ele acordou estava coberto de ratos.
As dores agudas no corpo eram intensas, eram como mordidas finas que ora ficavam fortes, ora se atenuavam. O engenheiro, de vez em quando, ouvia o calunga dizer: “Calma pessoal, vão com calma, esse é filé”. Lentamente, Rodolfo estava sendo consumido pelos ratos, contudo, sua cabeça havia sido poupada. A dor, o calor do sol em seu rosto o fez desmaiar. A mente de Rodolfo se volta para Aracaju onde estava Mônica sua filha. Sua pequena como ele dizia. Ele via a moça sã, sem nenhum sintoma de embriaguez, ela falava sem delírios, e dizia ao seu pai o quanto o amava.
- Pai, esse ano vou fazer o vestibular.
- Minha filha como me alegro em te ver assim.
- Pai, mainha me disse que o senhor vai trabalhar em Aracaju, somente em Aracaju, é verdade?
- Sim, minha filha. Agora não mais viagens. Estarei sempre por perto. Continue assim filha, papai te ama.
- Pai, tudo passou, agora sei o que quero de minha vida.
- Que bom querida! Finalmente, você encontrou o rumo. E o álcool, não sente mais a compulsão?
- Não pai. Hoje acordei e vi o quanto é bom estar sóbria. Quero lutar e ser como senhor.
Os ratos continuavam a devorar o engenheiro, um rato cinza, do tipo ratazana mordeu desavisadamente uma veia de Rodolfo. O sangue esguichou rapidamente. O calunga repreendeu o colega dizendo-lhe que gente de primeira classe deve morrer com respeito. Rodolfo desacordado nada mais sentia; nem dor, nem medo. Apenas a imagem de sua filha estava em sua mente. Ela corria num campo verde cheio de rosas e flores variadas. Ele podia até sentir o cheiro da natureza viva. Sua filha representava muito para ele.
- Pai, o bilhete que mamãe achou, fui eu quem escondeu. O senhor não devia ter feito aquilo.
- Aquilo o que?
- Ora, pai, eu tenho vergonha do senhor, não vou dizer.
- Diga filha! É bom que entre nós não haja mais mistérios.
- Eu sei que a filha de dona Cipriana que frequentava aqui é sua filha. Eu sei que o senhor teve um caso com ela. Rodolfo ficou muito nervoso, mas, preferiu confessar seu segredo de uma vez por todas: “Mônica, quando somos adultos escondemos dos filhos as coisas para lhes poupar os nervos; esperamos que eles cresçam para que sendo capazes de entender a vida possam saber a verdade dos adultos. Sim, minha filha, eu amei Cipriana. Mas isso foi antes de conhecer sua mãe. Na verdade, hoje eu amo tua mãe, mas, no início as coisas foram muitos difíceis. Eu casei com sua mãe por causa do curso de engenharia, sem a ajuda dela jamais eu teria me formado. Logo depois Cipriana engravidou, eu a pedi para esconder as coisas até tudo clarear. Sua mãe com o tempo terminou sabendo de tudo. Esse foi o nosso problema e o nosso segredo por anos. Deixei Cipriana e nunca mais a vi, isso eu prometo e juro perante Deus que é verdade! Tua mãe nunca me perdoou; essa é a causa da falência de nossa relação. Quero te dizer que te amo e amo também sua mãe, mas, a convivência entre nós se tornou muito difícil, contudo, estamos tentando ser felizes”. Após o pai abrir o coração, Mônica sai cantando no belo jardim da vidência do engenheiro. A menina desaparece de seus olhos entre girassóis e margaridas.
- Doutor!
- Hum!
- Chegamos.
- Tá. Rodolfo desceu do ônibus na Rodoviária de Olindina. O sol estava perto do meio dia. O povo passava para todos os lados. Era dia de feira, havia gente de todo lugar. No centro da cidade, perto da agencia bancária, Rodolfo encontra um telefone público e liga para casa.
- Alô!
- Meu amor como está Mônica?
- Rodolfo, ela ainda não chegou. Saiu ontem com o namorado e até agora nada. Acho que ela bebeu novamente.
- Tá bom. Vamos entregar nas mãos de Deus.
- E você? Como foi a viagem? Rodolfo procura palavras para dizer, passa um lenço na testa e cospe no chão. Um ratinho calunga safado passa correndo bem diante de seus olhos, e se esconde no bueiro da praça.
- Meu amor, hoje no Brasil, as coisas estão entregues aos ratos.
- É mesmo, meu bem, sabia que tem mais um escândalo em Brasília?
- É isso, esse país tá de cabeça para baixo.
- É mesmo querido! Os dois conversaram por alguns minutos. Depois o doutor Rodolfo seguiu caminho até a prefeitura...
sábado, 19 de novembro de 2016
A SANTA E A POMBA GIRA
Dizem que o sertão nos ensina a pensar. Seu Godofredo Cruz, um dia, disse para mim: “Meu filho, o sertão é uma escola cujo currículo é a vida”. Lembro-me muito bem desse dia, pois ao ouvir as palavras do homem fiquei um tempão pensando nelas. Devo confessar que não entendi bem as palavras de Godofredo, mas, as guardo até os dias atuais porque eu pude ver com os meus olhos que elas eram verdadeiras.
Godofredo depois do acidente de Chiquinho caiu em depressão. A figura robusta de um homem rosado e forte se transformara num esqueleto vivo que andava com muita dificuldade. Quando o via, mesmo sendo ainda um jovem púbere, minha alma chorava, pois, o velho Godofredo, embora severo em seus julgamentos, era um homem bom, não merecia aquilo.
O Riacho do Junco havia enchido muito por causa das trovoadas de Santana. Era costume do velho Godofredo pescar nessa época do ano. “A pescaria alegra meu homem” dizia dona Maria das Dores sua amada esposa.
Lembro-me de tê-lo visto descer para as bandas do Riacho do Junco. O velho levava sua tristeza e sua vara de pescar, e as iscas em um saco plástico. Ele passou defronte a janela de meu quarto, por isso pude vê-lo com muita nitidez. Seu rosto dizia para mim que Godofredo precisava de um milagre. Ora, minha jovem pessoa num entendia muito de religião. O padre Oliveira nos dera a catequese e a eucaristia, o resto, eu nada entendia, na verdade, eu não sabia nada de religião mesmo, no entanto, Godofredo fora coroinha quando menino, e quando homem feito, foi diácono da igreja. Talvez tenha sido essa a causa de sua depressão, pois ter servido a Deus com tanta fidelidade e perder o filho de forma tão fútil: “Meus pêsames Godofredo!” Disse com um tom de sensibilidade o pároco da igreja. Na missa, ele fez referência a Godofredo com as seguintes palavras, eu tentei sorrir, mas, minha mãe beliscou-me na barriga: “Psiu!” Amuado fiquei ao lado dela enquanto o vigário dizia: “Deus sabe de tudo e tudo que nos ocorre é vontade dele”. Eu tentei dar uma risada, mas, minha mãe acertou-me o topo da cabeça com um cascudo que até hoje me recordo.
Godofredo, após a passagem de seu filho, tornou-se como eu - um desconfiado de Deus. Desde criança que eu não entendia o fato das pessoas não puderem ver a Deus como vemos as pessoas; eu dizia com frequência: “Deus se ausentou e pôs a culpa no mundo”. Mas naquele bendito dia, nossas vidas, a as pessoas de nossa comunidade teria uma experiência que mudaria para sempre o rumo do povoado; e se alguém não entendeu foi porque não viu a santa.
O Riacho do Junco naqueles dias era de água tão cristalina que se via o fundo. Godofredo pescou sete grandes tilápias. Após a pescaria Godofredo se prepara para voltar para o povoado. Alguns macaquinhos comiam seriguelas num pé do dito fruto que ficava na margem do riacho quase beijando as águas. Os pequenos primatas comiam o fruto e jogavam os caroços dentro do riacho. Godofredo observava a festa dos macaquinhos, e ao se aproximar deles, eles gritaram e jogaram os caroços em Godofredo que tentou se proteger o que o faz perder o equilíbrio e cair nas águas frias do Riacho do Junco. A profundidade das águas do riacho era de dois metros; as águas do riacho puseram Godofredo cara a cara com a santa misteriosa. Ela tinha um manto azul que cobria seu corpo na cabeça e nas costas, na frente um vestido de santidade branco. Godofredo a recolhe com cuidado e nada de volta para a margem. Os macacos no alto do pé de seriguela fazem uma festa com o estranho visitante Godofredo. A macacada balançava os galhos do pé de seriguela fazendo as maduras cair, e elas caíam no chão, algumas, porém, na cabeça de Godofredo.
Godofredo traz a santa para casa. Sua mulher põe a imagem no seu altar doméstico. A santa sem nome estava, agora, ao lado de Santo Antônio, São Francisco, Nossa Senhora das Candeias e São Cosme e São Damião. Godofredo recobrou o ânimo e voltou a frequentar a paroquia. O povoado ficou maravilhado com o milagre que acontecera.
- Mulher, pois o homem num se levantou depois de ter achado a santa!
- E foi?
- Oh, você num sabe não?
- Não.
- Godofredo achou uma santa e agora ele anda com os ombros pra cima, e seu semblante voltou a ser feliz. Isso é um milagre! O povoado comemorou a vitória de Godofredo, no entanto, havia a cobra chamada curiosidade. O povo queria conhecer e ver a santa. As pessoas, no início, queriam só dar uma olhada, mas, depois, os doentes e miseráveis começaram a chegar, e com eles a paz da família foi embora.
- Padre Oliveira. Eu acho que num dá mais para a santa ficar lá em casa.
- Meu filho qual é o nome da santa?
- Num sei.
- Então como é que vou trazer para a igreja uma santa sem nome?
- Sua santidade não pode dar um nome para ela não?
- Bem, vamos até sua casa e vendo a imagem pode ser que eu a conheça. Padre Oliveira tinha um problema sério de saúde. O vigário reclamava para seus colegas que ficava até sete dias sem defecar. Muitas vezes o homem santo chorava no altar pedindo a Deus para evacuar com liberdade. Oliveira ao ver a imagem não teve referência sobre seu nome, todavia, dona das dores disse: “A sua santidade num vai benzer a imagem não?” O padre pegou na santa e fez o sinal cruz e jogou água benta nela. Ao devolvê-la para as mãos de das Dores, o reverendo sentiu cólicas abdominais e saiu em disparada para o banheiro que ficava fora de casa. O homem arriou todas as fezes que durante anos o perturbava. Godofredo, finalmente, se convence que a santa era milagrosa. O padre retorna aliviado e diz: “Meu filho é nas horas difíceis que Deus aparece; essa santa veio na hora certa; seu nome ainda eu não sei, mas cá entre nós, eu gostaria de chama-la de Santa do Rio”. A mulher de Godofredo interrompe o vigário dizendo de forma irritada: “Minha santinha merece um nome melhor!” “Nunca vi essa tal de Santa do Rio, não, Oxente!”
- Bem, por enquanto, levemos para a igreja e lá Deus vai nos dizer o nome certo dela. Com as palavras do vigário, o casal descansou.
A comunidade do povoado do Riacho do Junco passou a fazer devoção a Santa do Rio. Os milagres começaram a acontecer no seio da Paróquia de São Sebastião. O povo era curado, outros deixavam os vícios, outros nada recebiam, mas, por causa dos outros eles eram devotos da Santa misteriosa. A devoção a Santa durou do mesmo jeito por sete meses, depois, algo muito estranho aconteceu.
Minha pessoa, embora adolescente viu os milagres da Santa do Rio. Na verdade, a princípio estranhei depois vi a coisa com naturalidade, todavia, para algumas pessoas a santa passou a ser um fardo abominável.
Recordo-me como se tivesse acontecido hoje. Eu e Lopes brincávamos no oitão da igreja por volta das sete horas da noite. Minha bola, por acidente caiu no interior da igreja. Nos fundos ela tinha uma área de serviço que dava acesso à sacristia e da sacristia para o santuário. Não sei qual a razão, mas, a porta dos fundos estava aberta. Ao pegar a bola, tive a curiosidade de dar uma olhada na santa. Quando a vi, tive uma forte vontade de me aproximar. A santa foi mudando de cor. Seu vestido branco tornou-se preto e vermelho, e em vez da posição de beatitude, a santa fazia poses sensuais e dava gargalhadas. Fiquei sem entender. Depois ouvi o povo falar que algumas mulheres estavam visitando a santa durante a noite. Elas diziam “Padre, nós gostaríamos de velar pela santa essa noite”. Algumas filhas de Riacho Fundo tiveram seus casamentos recuperados, outras, saíram de casa. A confusão estava feita no povoado:
- A culpa dessa falta de respeito é de Godofredo! Acusou seu Bonfim.
- Não, num concordo não! Ele pensava que era uma santa. Disse dona Flores.
- E como é que Godofredo podia adivinhar que a santa ia ser duas coisas?
- Bem, a solução é jogar a santa fora. Ela está corrompendo a moral do povoado. O povo estava dividido: As mulheres que se chocaram com a santa de preto e vermelho queriam sua retirada, as que tiveram a conquista de alguém ou a salvação do casamento queriam que ela ficasse. A confusão foi tão grande que tiveram que chamar monsenhor Xavier que morava na sede do Município. Ao saber do fenômeno, o homem santo questionou a si mesmo: “Como o mesmo santo pode encarnar Deus e o diabo?”
A santa foi examinada por um grupo de teólogos vindo de Aracaju. Os mesmos constataram que o objeto era uma santa de barro, e que tinha uma idade avançada, mas, era apenas uma santa. Em momento algum a santa virou a mulher de preto e vermelho. Os religiosos retornaram para a capital sergipana certos de que se tratava apenas de crendices do povo.
Foi no mês de novembro do ano seguinte que a coisa ficou mais séria. Alguns maridos se queixaram de suas mulheres: “Essas mulheres quanto mais rezam mais ficam quente. Eu num tenho mais idade para isso não!” Muitos milagres foram realizados. Seu Antônio que não podia andar sem a ajuda de sua bengala foi curado na missa de domingo. Com os milagres e as contradições, a santa tornou-se um objeto de todos os tipos de devoção. As pessoas do culto afro queriam fazer uma devoção a santa à meia noite, pois, para eles a santa era, na verdade uma Pomba Gira. O vigário recusou o pedido. Os devotos do exu Pomba Gira foram reclamar a Federação na capital do estado:
- Estamos aqui para fazer uma acusação grave de preconceito e constrangimento religioso.
- Calma! Pai Jorge, Calma! Qual é o problema? Perguntou a Ialorixá “Mãe Cislene de Oxum”.
- Nós queremos fazer reuniões na igreja. Estamos apenas pedindo o nosso direito. O exu Pomba Gira é uma santa pela metade, ou seja, ela, pela noite, deixa de ser santa e vira uma Pomba Gira.
- Mas que é isso meu irmão! Isso é um absurdo! Onde já se viu um exu na casa de Deus!
- Cislene você conhece o oráculo de Pai Miguel que ele deu antes de bater as botas?
- Não.
- Então, ele disse que chegaria um dia que Exu ia morar no altar com os santos, e quando esse dia chegasse as pessoas seriam mais sinceras.
- Deixa de conversa rapaz! Exu num vai pra casa de Deus não! Jorge se irritou com a Ialorixá e virou a mulher em Pomba Gira, a mesma deu uma gargalhada e disse: “Não existe coisa melhor do que um exu na igreja!” A gargalhada da mulher acordou o povo do povoado que imediatamente trancaram as portas.
- Que foi mulher?
- Num ouviu não?
- Não!
- Deixa pra lá.
A federação entrou com medidas jurídicas contra a paróquia. A paróquia exigiu seu direito ao culto a santa porque quem a encontrou era católico. A justiça considerou o argumento da igreja mais justo. O povo do Axé ficou triste: “É, nós estamos impedidos de cultuar nossa santa na casa de Deus”.
A pequena paróquia do pequeno povoado do Riacho do Junco crescia. O povo da sede do povoado passou a frequentar a igreja de Riacho do Junco. A igreja ficava lotada. E com isso, o povo do povoado começou a reclamar e a dizer: “Vão para igreja de vocês!” A confusão estava feita. O povoado contra a sede, e a sede contra o povoado. Um grupo de afrodescendentes, finalmente, sequestrou a santa. Isso ocorreu no dia vinte e três de novembro numa noite de lua minguante. Arrombaram a porta do fundo da igreja e levaram a santa Pomba Gira.
- Miguelina, mulher, nossa santinha! Nunca a vi de Pomba Gira.
- Isso é invenção do povo!
- Num é o que mulher! Levaram a santa para fazer macumba na bichinha!
- Isso é uma abominação a Deus!
- Num é o que mulher!
O povo sente a falta da santa. Os casamentos começaram a desmoronar, as pessoas passaram a sentir ansiedade e ter depressão. A santa do Rio fazia falta ao povo do Riacho do Junco. “Mulher, eu quando rezava pra santa sentia um fogo por meu marido, ave, era uma coisa forte mesmo, mas, agora, estou fria que nem mármore!” Todo mundo tinha uma coisa a dizer para justificar a volta da santa. Padre Oliveira recebeu um aviso que a santa estava no barracão de Pai Jorge. Segundo a denúncia ofertaram sete galinhas dispostas em sete pratos de barro. Na missa das cinco horas da tarde o vigário desabafa sua indignação:
“Meus irmãos do Riacho do Junco. Saibam que há pecado para morte, e este foi um deles. É uma blasfêmia contra Deus o uso de uma santa católica no culto de terreiro. Como pode Deus e o diabo estarem unidos, cúmplices! É um agrave forte. As pessoas que fizeram isso pagarão caro!” Na noite do mesmo dia, o barracão de Pai Jorge comemorava a volta de Pomba Gira para seu terreiro. Os tambores aturdiam o povoado, os foguetes estralavam no céu. Era noite de Maria Padilha, a rainha do Candomblé. No centro do altar do gongá estava a santa transformada em Exu. Em momentos alternados Pai Jorge fazia menção a santa e dava um banho de cerveja nela. As mulheres do terreiro e alguns homens viravam exu Pomba Gira. A festa estava bonita até a polícia chegar. O delegado Rodriguinho fora designado para investigar o caso. O terreiro calou seus tambores ao ver a viatura policial. Pai Jorge vira homem novamente para receber as autoridades.
- Recebemos informações que a Santa do Rio que havia sido subtraída da igreja do povoado está aqui.
- Não, acho que aqui num tem nenhuma santa não.
- Mas, mesmo assim, nós iremos dar uma olhada A policia procurou pela santa e nada. O povo do terreiro comemorava o livramento de dona Maria quando o relógio da igreja bate meia noite. Ouve-se, então, umas gargalhadas vindo de entre os santos no altar de exu. Era a Santa do Rio que havia virado Pomba Gira. A santa dançava e rodava a cintura feito uma cobra. Era de fato uma santa pomba gira. O povo do terreiro gritava de alegria e soltava foguetes. O povo da igreja estava triste, mesmo assim, o vigário garantia que banhando a imagem na água benta ela ficaria santa novamente, então, começa o tumulto para pegar a santa. Alguns irmãos católicos permaneceram em oração, enquanto isso o soldado Henrique que também era católico mais o soldado Juracy que era evangélico partiram em direção o altar, Pai Jorge se põe no caminho gritando: “Só sobre o meu cadáver, minha Mãe não vai sair da aqui!” os dois PMs ignoram as palavras do sacerdote e pegaram a santa do altar, esta dá uma risada nas mãos de Henrique que de imediato vira uma bicha cheia de palavreado esquisito. Coisas como: “Parem essa safadeza de vocês, quem não sabe que dentro de vocês existem uma santa e um exu, vocês não tem olhos para ver não?” Nessa altura, as coisas estavam sob máxima tensão. Aproveitando que Henrique estava espiritado, pai Jorge pega a santa das mãos dele. O soldado Juracy corre e pega a santa da cintura para baixo e Jorge da cintura para cima. No puxa-puxa, os dois partem a santa ao meio. O silêncio foi absoluto. Só se ouvia o coaxar dos sapos e os grilos cantando. Por alguns minutos ninguém disse nada. O silêncio no pé de serra do sertão falava muito alto.
Minha pessoa, embora menino pré-adolescente, um púbere observava o desfecho do problema. Jorge segurava um pedaço de sua pomba gira e Juracy o outro. “Agora não havia mais nada”. Pensei eu ansioso para entender o mundo dos grandes. Nas mãos de Juracy a santa se move, se contorce como que estive com dores de parto. Ouve-se o sofrimento de mulher no meio do tempo. Uns diziam que a voz vinha do mato, outros diziam que era imaginação. A metade nas mãos de Jorge faz a mesma coisa. O enfermeiro Valdomiro – aquele que aplica a melhor injeção em Campos pede aos dois as partes separadas alegando que o que estava para acontecer era um parto. O povo caiu na gargalhada sendo interrompida quando Valdomiro diz a santa: “Força, respire forte, isso!” O trabalho de parto durou alguns minutos que pareceram horas. O povo sem perceber intercedia pela santa ou pela pomba gira. Pela primeira vez as duas religiões choraram juntas por seus santos. A comunidade vendo a cena fraternal se juntou ao grupo que rezava para que a imagem da santa tivesse um parto bom. E eu, um menino ainda me perguntava: “Mas, o que vai sair daí?”
A santa deu a luz a duas crianças. O primeiro a sair foi um homem. Na sua cabeça havia dois toquinhos, parecia uns chifrezinhos, e a outra um Nossa Senhora toda de branco. Infelizmente a imagem da santa do Rio estava quebrada depois do difícil parto. O padre enterrou sua parte no cemitério ao lado da paróquia, a outra parte foi jogada no rio.
O povoado do Riacho do Junco desde então não fala mais de religião. Todos se respeitam e sabem que Deus tem muitas histórias para contar. Eu cresci e fui depois morar na beira da praia. Um dia caminhando na areia ouvi uma voz que me dizia: “Menino tens visto a Santa do Rio?” Na minha mente eu respondi que não. A voz de mulher continuou dizendo: “Então, veja!” Sim, meu amigo leitor, hoje sou velho, e digo de coração o homem imagina sem limites, então, cada um viva seu sonho em paz!
Godofredo depois do acidente de Chiquinho caiu em depressão. A figura robusta de um homem rosado e forte se transformara num esqueleto vivo que andava com muita dificuldade. Quando o via, mesmo sendo ainda um jovem púbere, minha alma chorava, pois, o velho Godofredo, embora severo em seus julgamentos, era um homem bom, não merecia aquilo.
O Riacho do Junco havia enchido muito por causa das trovoadas de Santana. Era costume do velho Godofredo pescar nessa época do ano. “A pescaria alegra meu homem” dizia dona Maria das Dores sua amada esposa.
Lembro-me de tê-lo visto descer para as bandas do Riacho do Junco. O velho levava sua tristeza e sua vara de pescar, e as iscas em um saco plástico. Ele passou defronte a janela de meu quarto, por isso pude vê-lo com muita nitidez. Seu rosto dizia para mim que Godofredo precisava de um milagre. Ora, minha jovem pessoa num entendia muito de religião. O padre Oliveira nos dera a catequese e a eucaristia, o resto, eu nada entendia, na verdade, eu não sabia nada de religião mesmo, no entanto, Godofredo fora coroinha quando menino, e quando homem feito, foi diácono da igreja. Talvez tenha sido essa a causa de sua depressão, pois ter servido a Deus com tanta fidelidade e perder o filho de forma tão fútil: “Meus pêsames Godofredo!” Disse com um tom de sensibilidade o pároco da igreja. Na missa, ele fez referência a Godofredo com as seguintes palavras, eu tentei sorrir, mas, minha mãe beliscou-me na barriga: “Psiu!” Amuado fiquei ao lado dela enquanto o vigário dizia: “Deus sabe de tudo e tudo que nos ocorre é vontade dele”. Eu tentei dar uma risada, mas, minha mãe acertou-me o topo da cabeça com um cascudo que até hoje me recordo.
Godofredo, após a passagem de seu filho, tornou-se como eu - um desconfiado de Deus. Desde criança que eu não entendia o fato das pessoas não puderem ver a Deus como vemos as pessoas; eu dizia com frequência: “Deus se ausentou e pôs a culpa no mundo”. Mas naquele bendito dia, nossas vidas, a as pessoas de nossa comunidade teria uma experiência que mudaria para sempre o rumo do povoado; e se alguém não entendeu foi porque não viu a santa.
O Riacho do Junco naqueles dias era de água tão cristalina que se via o fundo. Godofredo pescou sete grandes tilápias. Após a pescaria Godofredo se prepara para voltar para o povoado. Alguns macaquinhos comiam seriguelas num pé do dito fruto que ficava na margem do riacho quase beijando as águas. Os pequenos primatas comiam o fruto e jogavam os caroços dentro do riacho. Godofredo observava a festa dos macaquinhos, e ao se aproximar deles, eles gritaram e jogaram os caroços em Godofredo que tentou se proteger o que o faz perder o equilíbrio e cair nas águas frias do Riacho do Junco. A profundidade das águas do riacho era de dois metros; as águas do riacho puseram Godofredo cara a cara com a santa misteriosa. Ela tinha um manto azul que cobria seu corpo na cabeça e nas costas, na frente um vestido de santidade branco. Godofredo a recolhe com cuidado e nada de volta para a margem. Os macacos no alto do pé de seriguela fazem uma festa com o estranho visitante Godofredo. A macacada balançava os galhos do pé de seriguela fazendo as maduras cair, e elas caíam no chão, algumas, porém, na cabeça de Godofredo.
Godofredo traz a santa para casa. Sua mulher põe a imagem no seu altar doméstico. A santa sem nome estava, agora, ao lado de Santo Antônio, São Francisco, Nossa Senhora das Candeias e São Cosme e São Damião. Godofredo recobrou o ânimo e voltou a frequentar a paroquia. O povoado ficou maravilhado com o milagre que acontecera.
- Mulher, pois o homem num se levantou depois de ter achado a santa!
- E foi?
- Oh, você num sabe não?
- Não.
- Godofredo achou uma santa e agora ele anda com os ombros pra cima, e seu semblante voltou a ser feliz. Isso é um milagre! O povoado comemorou a vitória de Godofredo, no entanto, havia a cobra chamada curiosidade. O povo queria conhecer e ver a santa. As pessoas, no início, queriam só dar uma olhada, mas, depois, os doentes e miseráveis começaram a chegar, e com eles a paz da família foi embora.
- Padre Oliveira. Eu acho que num dá mais para a santa ficar lá em casa.
- Meu filho qual é o nome da santa?
- Num sei.
- Então como é que vou trazer para a igreja uma santa sem nome?
- Sua santidade não pode dar um nome para ela não?
- Bem, vamos até sua casa e vendo a imagem pode ser que eu a conheça. Padre Oliveira tinha um problema sério de saúde. O vigário reclamava para seus colegas que ficava até sete dias sem defecar. Muitas vezes o homem santo chorava no altar pedindo a Deus para evacuar com liberdade. Oliveira ao ver a imagem não teve referência sobre seu nome, todavia, dona das dores disse: “A sua santidade num vai benzer a imagem não?” O padre pegou na santa e fez o sinal cruz e jogou água benta nela. Ao devolvê-la para as mãos de das Dores, o reverendo sentiu cólicas abdominais e saiu em disparada para o banheiro que ficava fora de casa. O homem arriou todas as fezes que durante anos o perturbava. Godofredo, finalmente, se convence que a santa era milagrosa. O padre retorna aliviado e diz: “Meu filho é nas horas difíceis que Deus aparece; essa santa veio na hora certa; seu nome ainda eu não sei, mas cá entre nós, eu gostaria de chama-la de Santa do Rio”. A mulher de Godofredo interrompe o vigário dizendo de forma irritada: “Minha santinha merece um nome melhor!” “Nunca vi essa tal de Santa do Rio, não, Oxente!”
- Bem, por enquanto, levemos para a igreja e lá Deus vai nos dizer o nome certo dela. Com as palavras do vigário, o casal descansou.
A comunidade do povoado do Riacho do Junco passou a fazer devoção a Santa do Rio. Os milagres começaram a acontecer no seio da Paróquia de São Sebastião. O povo era curado, outros deixavam os vícios, outros nada recebiam, mas, por causa dos outros eles eram devotos da Santa misteriosa. A devoção a Santa durou do mesmo jeito por sete meses, depois, algo muito estranho aconteceu.
Minha pessoa, embora adolescente viu os milagres da Santa do Rio. Na verdade, a princípio estranhei depois vi a coisa com naturalidade, todavia, para algumas pessoas a santa passou a ser um fardo abominável.
Recordo-me como se tivesse acontecido hoje. Eu e Lopes brincávamos no oitão da igreja por volta das sete horas da noite. Minha bola, por acidente caiu no interior da igreja. Nos fundos ela tinha uma área de serviço que dava acesso à sacristia e da sacristia para o santuário. Não sei qual a razão, mas, a porta dos fundos estava aberta. Ao pegar a bola, tive a curiosidade de dar uma olhada na santa. Quando a vi, tive uma forte vontade de me aproximar. A santa foi mudando de cor. Seu vestido branco tornou-se preto e vermelho, e em vez da posição de beatitude, a santa fazia poses sensuais e dava gargalhadas. Fiquei sem entender. Depois ouvi o povo falar que algumas mulheres estavam visitando a santa durante a noite. Elas diziam “Padre, nós gostaríamos de velar pela santa essa noite”. Algumas filhas de Riacho Fundo tiveram seus casamentos recuperados, outras, saíram de casa. A confusão estava feita no povoado:
- A culpa dessa falta de respeito é de Godofredo! Acusou seu Bonfim.
- Não, num concordo não! Ele pensava que era uma santa. Disse dona Flores.
- E como é que Godofredo podia adivinhar que a santa ia ser duas coisas?
- Bem, a solução é jogar a santa fora. Ela está corrompendo a moral do povoado. O povo estava dividido: As mulheres que se chocaram com a santa de preto e vermelho queriam sua retirada, as que tiveram a conquista de alguém ou a salvação do casamento queriam que ela ficasse. A confusão foi tão grande que tiveram que chamar monsenhor Xavier que morava na sede do Município. Ao saber do fenômeno, o homem santo questionou a si mesmo: “Como o mesmo santo pode encarnar Deus e o diabo?”
A santa foi examinada por um grupo de teólogos vindo de Aracaju. Os mesmos constataram que o objeto era uma santa de barro, e que tinha uma idade avançada, mas, era apenas uma santa. Em momento algum a santa virou a mulher de preto e vermelho. Os religiosos retornaram para a capital sergipana certos de que se tratava apenas de crendices do povo.
Foi no mês de novembro do ano seguinte que a coisa ficou mais séria. Alguns maridos se queixaram de suas mulheres: “Essas mulheres quanto mais rezam mais ficam quente. Eu num tenho mais idade para isso não!” Muitos milagres foram realizados. Seu Antônio que não podia andar sem a ajuda de sua bengala foi curado na missa de domingo. Com os milagres e as contradições, a santa tornou-se um objeto de todos os tipos de devoção. As pessoas do culto afro queriam fazer uma devoção a santa à meia noite, pois, para eles a santa era, na verdade uma Pomba Gira. O vigário recusou o pedido. Os devotos do exu Pomba Gira foram reclamar a Federação na capital do estado:
- Estamos aqui para fazer uma acusação grave de preconceito e constrangimento religioso.
- Calma! Pai Jorge, Calma! Qual é o problema? Perguntou a Ialorixá “Mãe Cislene de Oxum”.
- Nós queremos fazer reuniões na igreja. Estamos apenas pedindo o nosso direito. O exu Pomba Gira é uma santa pela metade, ou seja, ela, pela noite, deixa de ser santa e vira uma Pomba Gira.
- Mas que é isso meu irmão! Isso é um absurdo! Onde já se viu um exu na casa de Deus!
- Cislene você conhece o oráculo de Pai Miguel que ele deu antes de bater as botas?
- Não.
- Então, ele disse que chegaria um dia que Exu ia morar no altar com os santos, e quando esse dia chegasse as pessoas seriam mais sinceras.
- Deixa de conversa rapaz! Exu num vai pra casa de Deus não! Jorge se irritou com a Ialorixá e virou a mulher em Pomba Gira, a mesma deu uma gargalhada e disse: “Não existe coisa melhor do que um exu na igreja!” A gargalhada da mulher acordou o povo do povoado que imediatamente trancaram as portas.
- Que foi mulher?
- Num ouviu não?
- Não!
- Deixa pra lá.
A federação entrou com medidas jurídicas contra a paróquia. A paróquia exigiu seu direito ao culto a santa porque quem a encontrou era católico. A justiça considerou o argumento da igreja mais justo. O povo do Axé ficou triste: “É, nós estamos impedidos de cultuar nossa santa na casa de Deus”.
A pequena paróquia do pequeno povoado do Riacho do Junco crescia. O povo da sede do povoado passou a frequentar a igreja de Riacho do Junco. A igreja ficava lotada. E com isso, o povo do povoado começou a reclamar e a dizer: “Vão para igreja de vocês!” A confusão estava feita. O povoado contra a sede, e a sede contra o povoado. Um grupo de afrodescendentes, finalmente, sequestrou a santa. Isso ocorreu no dia vinte e três de novembro numa noite de lua minguante. Arrombaram a porta do fundo da igreja e levaram a santa Pomba Gira.
- Miguelina, mulher, nossa santinha! Nunca a vi de Pomba Gira.
- Isso é invenção do povo!
- Num é o que mulher! Levaram a santa para fazer macumba na bichinha!
- Isso é uma abominação a Deus!
- Num é o que mulher!
O povo sente a falta da santa. Os casamentos começaram a desmoronar, as pessoas passaram a sentir ansiedade e ter depressão. A santa do Rio fazia falta ao povo do Riacho do Junco. “Mulher, eu quando rezava pra santa sentia um fogo por meu marido, ave, era uma coisa forte mesmo, mas, agora, estou fria que nem mármore!” Todo mundo tinha uma coisa a dizer para justificar a volta da santa. Padre Oliveira recebeu um aviso que a santa estava no barracão de Pai Jorge. Segundo a denúncia ofertaram sete galinhas dispostas em sete pratos de barro. Na missa das cinco horas da tarde o vigário desabafa sua indignação:
“Meus irmãos do Riacho do Junco. Saibam que há pecado para morte, e este foi um deles. É uma blasfêmia contra Deus o uso de uma santa católica no culto de terreiro. Como pode Deus e o diabo estarem unidos, cúmplices! É um agrave forte. As pessoas que fizeram isso pagarão caro!” Na noite do mesmo dia, o barracão de Pai Jorge comemorava a volta de Pomba Gira para seu terreiro. Os tambores aturdiam o povoado, os foguetes estralavam no céu. Era noite de Maria Padilha, a rainha do Candomblé. No centro do altar do gongá estava a santa transformada em Exu. Em momentos alternados Pai Jorge fazia menção a santa e dava um banho de cerveja nela. As mulheres do terreiro e alguns homens viravam exu Pomba Gira. A festa estava bonita até a polícia chegar. O delegado Rodriguinho fora designado para investigar o caso. O terreiro calou seus tambores ao ver a viatura policial. Pai Jorge vira homem novamente para receber as autoridades.
- Recebemos informações que a Santa do Rio que havia sido subtraída da igreja do povoado está aqui.
- Não, acho que aqui num tem nenhuma santa não.
- Mas, mesmo assim, nós iremos dar uma olhada A policia procurou pela santa e nada. O povo do terreiro comemorava o livramento de dona Maria quando o relógio da igreja bate meia noite. Ouve-se, então, umas gargalhadas vindo de entre os santos no altar de exu. Era a Santa do Rio que havia virado Pomba Gira. A santa dançava e rodava a cintura feito uma cobra. Era de fato uma santa pomba gira. O povo do terreiro gritava de alegria e soltava foguetes. O povo da igreja estava triste, mesmo assim, o vigário garantia que banhando a imagem na água benta ela ficaria santa novamente, então, começa o tumulto para pegar a santa. Alguns irmãos católicos permaneceram em oração, enquanto isso o soldado Henrique que também era católico mais o soldado Juracy que era evangélico partiram em direção o altar, Pai Jorge se põe no caminho gritando: “Só sobre o meu cadáver, minha Mãe não vai sair da aqui!” os dois PMs ignoram as palavras do sacerdote e pegaram a santa do altar, esta dá uma risada nas mãos de Henrique que de imediato vira uma bicha cheia de palavreado esquisito. Coisas como: “Parem essa safadeza de vocês, quem não sabe que dentro de vocês existem uma santa e um exu, vocês não tem olhos para ver não?” Nessa altura, as coisas estavam sob máxima tensão. Aproveitando que Henrique estava espiritado, pai Jorge pega a santa das mãos dele. O soldado Juracy corre e pega a santa da cintura para baixo e Jorge da cintura para cima. No puxa-puxa, os dois partem a santa ao meio. O silêncio foi absoluto. Só se ouvia o coaxar dos sapos e os grilos cantando. Por alguns minutos ninguém disse nada. O silêncio no pé de serra do sertão falava muito alto.
Minha pessoa, embora menino pré-adolescente, um púbere observava o desfecho do problema. Jorge segurava um pedaço de sua pomba gira e Juracy o outro. “Agora não havia mais nada”. Pensei eu ansioso para entender o mundo dos grandes. Nas mãos de Juracy a santa se move, se contorce como que estive com dores de parto. Ouve-se o sofrimento de mulher no meio do tempo. Uns diziam que a voz vinha do mato, outros diziam que era imaginação. A metade nas mãos de Jorge faz a mesma coisa. O enfermeiro Valdomiro – aquele que aplica a melhor injeção em Campos pede aos dois as partes separadas alegando que o que estava para acontecer era um parto. O povo caiu na gargalhada sendo interrompida quando Valdomiro diz a santa: “Força, respire forte, isso!” O trabalho de parto durou alguns minutos que pareceram horas. O povo sem perceber intercedia pela santa ou pela pomba gira. Pela primeira vez as duas religiões choraram juntas por seus santos. A comunidade vendo a cena fraternal se juntou ao grupo que rezava para que a imagem da santa tivesse um parto bom. E eu, um menino ainda me perguntava: “Mas, o que vai sair daí?”
A santa deu a luz a duas crianças. O primeiro a sair foi um homem. Na sua cabeça havia dois toquinhos, parecia uns chifrezinhos, e a outra um Nossa Senhora toda de branco. Infelizmente a imagem da santa do Rio estava quebrada depois do difícil parto. O padre enterrou sua parte no cemitério ao lado da paróquia, a outra parte foi jogada no rio.
O povoado do Riacho do Junco desde então não fala mais de religião. Todos se respeitam e sabem que Deus tem muitas histórias para contar. Eu cresci e fui depois morar na beira da praia. Um dia caminhando na areia ouvi uma voz que me dizia: “Menino tens visto a Santa do Rio?” Na minha mente eu respondi que não. A voz de mulher continuou dizendo: “Então, veja!” Sim, meu amigo leitor, hoje sou velho, e digo de coração o homem imagina sem limites, então, cada um viva seu sonho em paz!
URUBUS
URUBUS
O Professor Rozental estava em um pequeno povoado de Tobias Barreto chamado Jabeberi. O Jabeberi nunca cresceu. Desde sua povoação até os dias atuais ele tem quase o mesmo tamanho. Seus moradores agem do mesmo jeito e acreditam nas mesmas coisas. Eles cuidam de seus bichos e de seus filhos. Vivem seu mundo não importa o tamanho. O povo costuma descansar no final da tarde quando o sol esfria um pouco. O vento que desce a Serra do Canine traz esperanças para o povo do Jabeberi. Na verdade, é um alento no final de um dia quente e abafado.
Quando aqueles sertões foram ocupados pela etnia branca, os índios Jês invocaram os Capangueiros da jurema vermelha. Todo sabido da jurema sabe que esses Capangueiros são seres afinados com o mal – Para eles o mal é um prazer. Um feiticeiro Jê, mestre na magia da raiz da jurema, profetizou que o branco conquistaria a serra, mas, sempre teria problemas com a mãe Okaru – a natureza!
- Mãe, tá sabendo que descobriram uma tubulação secreta que despeja produtos químicos na barragem?
- Não, minha filha! Sua mãe não sabia disso. Mas, quem te disse?
- Foi o professor Rozental. Ele disse que o meio ambiente do Jabeberi está alterado.
- Que bom minha filha! Continue assim estudiosa como seu finado pai. Sueli ao ouvir sua mãe falar em seu pai, se calou, e foi para o quarto.
Sueli era uma menina de dez anos muito sabida. Ela era a menina que mais lia no quinto ano. Sabia a tabuada de cor, e podia conjugar qualquer verbo. O único que parecia para ela impossível era o verbo morrer. “Esse eu num digo não professor Rozental!”
Rozental fazia de tudo para ajudar aquelas crianças especiais. Ele não acreditava que especial fosse apenas um grupo com limitações psicomotoras. Para aquele pedagogo, todos os seres humanos eram especiais. Assim, as crianças do Jabeberi eram crianças muito especiais. Sueli era um exemplo. A casa da menina tinha os fundos voltados para Serra do Canine. De lá se podia avistar a majestosa serra que foi cenário de muitas lutas entre índios e brancos na época de Belchior Dias Moreira – O colonizador. Comenta a população do povoado que Belchior tinha casa no Jabeberi. A Vila de Campos nasceu no Jabeberi por isso muito se parece com o povo de lá.
- Mãe! Mãe! A serra está coberta de preto, e o preto se mexe!
- Deixa de besteira menina!
- Não mãe, é verdade! Dona Maria das Dores olhou para serra para ver se era verdade aquela história. Para sua surpresa, a serra estava coberta de urubus. Maria pensou que era o “tempo”. O povo da roça quando não entende uma coisa costuma dizer que é o tempo. Os urubus formavam uma cobertura preta sobre o pasto seco no alto da serra. O céu da serra estava cheio de aves negras devoradoras de bichos e homens mortos. Nunca se havia visto tanto urubu como naquele dia. O padre rezava uma missa na pequena paroquia do povoado quando seu Tonho entrou apavorado gritando bem alto. “O mundo vai acabar!” Os fiéis correram de imediato para a porta, a sombra da nuvem de urubus que cobriu o lugar, andava apressada rumo a serra. Os carcarás se juntaram aos seus parentes urubus. A serra tremia ante o peso de tanta ave.
- Mas o que é isso? Perguntou Padre Arnóbio ao seu protegido Ricardo. Este nada respondia. Somente balançava a cabeça em sinal de atenção.
- Diga alguma coisa, rapaz! Ordenou Arnóbio ao seu escudeiro.
- Eu num sei que bicho é isso não padre! O rapaz respondeu a sua santidade com voz medrosa. Ricardo era um rapaz que fora viciado no jogo e se converteu a fé católica quando o padre cantor Sebastião esteve em Tobias. O povo da igreja ficou muito alegre com o rapaz. Desde então, ele acompanha o Padre Arnóbio. Aonde ele vai, Ricardo vai atrás.
A segunda feira chegou, era dia de escola. Rozental estava no Jabeberi. A menina sabida Sueli o esperava à porta da escola.
- Professor, os urubus estavam na Serra do Canine, era uma multidão! Nunca ninguém viu tanto bicho como ontem! Próximo aos dois, um grupo de agricultores comentava a morte de alguns animais.
- Encontrei uma vaca morta no pasto. Ela estava toda picada e não era cobra não. Era mordida de bicho grande. Parece mordida de gavião. Os urubus vieram em cima e devoraram a carcaça, bem rápido.
- Os urubus invadiram minha roça e devoraram duas reses.
- A menina de Fátima foi atacada por urubus de manhã bem cedo quando ela foi ordenhar.
- Seu Jeremias teve de se esconder na malhada para se livrar dos urubus. E eram muitos, só andam em grupos. O grupo de pessoas se desfez quando o vereador Matias da Serra chegou. “Povo cheio de estória!” Pensou Matias consigo mesmo.
- Pois num é! Quem num sabe que nessa quadra do ano os urubus ficam mais agitados?
- É porque o povo do Jabeberi gosta mesmo é de conversar!
- É. Esse povo fala de tudo. Tá lembrado do enterro de dona Gemina?
- Quem num se lembra da finada! Aquela coitada!
- No dia do enterro o caixão num abriu? E o povo comentou que foi por causa da língua grande dela. Os dois saíram proseando em direção ao um Jeep dos anos 70. Matias estava indo para o Canine.
A viagem para o Canine foi rápida. A estrada da agrovila havia sido restaurada. O prefeito Nogueira Pinto atendeu ao pedido de seu colega vereador Matias. O povo do Jabeberi diz sempre: “Sem Matias num dá!” Isso parece ser verdade, pois, quando tem qualquer problema é Matias quem o enfrenta.
- Onde estão os urubus, vereador? Perguntou o encarregado.
- Rapaz, parece que sumiram! Mas, num pode. Essas aves são de fazer morada no mesmo canto por muito tempo. Deve ter realmente sido um mal entendido, coincidências digamos.
- Pois, é. O vereador falou tá falado. Concluiu o encarregado Geraldo. Ao terminar a conversa Geraldo olha, por caso, para o topo da Serra, para o lugar onde dizem que Aragão enterrou o ouro de Belchior quando foi ferido pelo povo Jê e vê a figura de um índio observando os dois de longe. “Mas, como?” Perguntou Geraldo ao seu espírito. “Índio? Deve ser alguém trajado e quer fazer gracinha”.
- Seu Matias! Olhe para cima, para o topo! Tem um índio lá!
- Índio? Perguntou o vereador caçoando de Geraldo. Deixa de ser burro rapaz! Deve ser alguém brincando! Não tem índio por essas terras há muito tempo. Meu tataravô matou foi tudo.
- Mas, num foi isso que eu disse?
- Tá! Tá! Deixa para lá! Vamos voltar, pois, cá em cima não tem nada para a gente ver, exceto, o pasto seco. Nem ovo de urubu tem!
A manhã de terça feira trouxe uma notícia muito triste para o Povoado. Logo cedo, a emissora de radio de maior audiência de Tobias Barreto anunciava a morte de uma criança branca de cabelos avermelhados e que tudo indicava ser do povoado. O repórter do povo João Sabido, acrescentou que o Jabeberi perdeu 277 cabeças de gado durante a noite. Os corpos dos bichos foram levados de caminhão para a capital sergipana.
- Vereador! E a criança?
- Foi também, homem!
- E agora? O povo vai dizer que Matias não tem solução para o caso. O amigo nem sabe como foi? Sabe?
- Cala a boca homem! Deixa-me pensar!
- Porque você num vai à favela! Dizem que lá tem uma mulher que sabe de tudo.
- Rapaz, tá doido! O povo vai me chamar de que? Bruxo, feiticeiro! Geraldo você tem mesmo a cabeça oca! Geraldo coçou a cabeça, arrastou um punhado de caspas nas unhas, levou-as ao nariz, e as cheirou. Quando ele ficava nervoso ou pensativo entrava em relação narcísica com seu corpo.
Ao meio dia o radio torna a falar. “Tantos os animais quanto a criança foram mortas por mordidas ou bicadas de urubus e carcarás. E se não tivessem morrido logo, morreriam de todo jeito, pois, foi encontrado nos corpos alto teor de cianeto – um poderoso veneno”. A cidade de Tobias entrou em pânico. Certamente havia alguém envenenando bicho e gente. O suspeito segundo Matias era a estranha pessoa do alto da serra. Mas, Quem era ele ou ela?
- Geraldo! Vá pegar o Jeep! Precisamos subir novamente a serra. Matias tomou uma dose de pinga, no balcão do bar do Saraiva, que fica quase em frente à Rodoviária Velha. Em alguns minutos, o encarregado Geraldo chega com o Jeep.
Os dois rumaram na direção do povoado Jabeberi. A estrada estava nivelada, pois, a máquina de terraplanagem foi usada para dar um novo aspecto. No sertão, no ano de eleição, aparece de tudo, até estrada boa, mesmo sendo de barro massapê. No caminho, nos dois lados da rodagem, uma coisa estranha chamou a atenção dos dois heróis de Tobias. Carcarás estavam pousados nos paus das cercas desde a granja até a caixa d’água do Jabiberi. Parecia que os bichos sabiam o que estavam fazendo. Um carcará Rei levantou voo e rodou sobre o Jeep; fez dois rasantes e depois saiu em direção a serra.
- Você viu chefe?
- Que chefe rapaz! Tenho cara de índio, ou de mafioso?
- Não! Eu estava só brincando patrão!
- Então dirija! Pois, a coisa tá ficando cada vez mais estranha. Nunca vi um carcará fazer isso! Nós não somos carniça para ele fazer um rasante desses. Faz quanto tempo que você não toma banho Geraldo?
- Olha pra ele! O patrão tá achando que o bicho veio por causa de mim! Geraldo parou o carro na praça logo na entrada do povoado. A igreja estava cheia de fiéis implorando a São José para interceder pelo povoado, pois, nunca se vira tamanha coisa. As aves haviam, realmente, assustado o povo do Jabeberi.
As nuvens ficaram cinzentas sobre a serra e o povoado. Trovões rimbombaram. As mulheres e crianças correram para suas casas para desligarem os aparelhos e cobrir os espelhos. Segundo a crença espelho atrai o raio. “Sueli cubra minha filha o espelho perto da televisão!” A menina cobriu o espelho. Ao virar-se para a porta viu a silhueta de um índio em pé na porta olhando para ela. Foi muito rápido, tão Rápido quanto o clarão do raio. A chuva ameaça cair, mas, nenhuma gota descia do céu. As aves se agrupavam formando um grande exército no topo do Canine. Um grupo de senhoras e velhos, e moças de casa permaneceram com o pároco na capela do povoado, os demais se enfiaram em suas casas.
- Matias, o povo está com medo. Eu não tenho medo não. Deve haver uma explicação.
- Rapaz, se você não está com medo, então, você é macho mesmo. A vontade que eu tenho é de me abrigar. Matias apontou para serra. As aves negras e os carcarás estavam mais agressivos. O barulho que faziam dava medo.
- Então vamos para a paroquia?
- Não amigo, vamos pegar as armas. Os dois entraram em casa. Alguns minutos depois saíram em direção a serra novamente.
As aves estavam agitadas no alto da Serra do Canine. Os urubus voavam pairando no céu como que aguardassem uma convocação. Os carcarás formavam um grupo grande numa árvore no alto de um pequeno monte elevado. O carcará Rei estava no meio dos bichos. Tiago e Geraldo chegaram no momento em que o carcará Rei falava com seu exército. A ave emitia grunhidos, às vezes, grave, às vezes, agudo. A esse comando elas reagiam. Os grunhidos eram tantos que deixaram Tiago irritado. Ele apontou sua escopeta para cima e atirou. As aves se assustaram e fugiram. No entanto o gavião Rei permaneceu no mesmo lugar. A ave Rei do sertão de Tobias encarou Tiago olhando-o dentro dos olhos. Naquele instante, o vereador Tiago do Jabeberi entrou em estado de transe. O rapaz se vê voando por uma floresta de juazeiros e juás, macambiras, jenipapos, umbuzeiros, paus-ferros, mandacarus, juremas brancas e vermelhas, jenipapeiros, muricizeiros, pés de udicuris, e outras árvores que povoam os sertões do nordeste. Uma imburana hospedava muitos gaviões na visão de Tiago. Os riachos estavam cheios, o mato verde. A vida desabrochava da terra. Em lugar de pastos, campos de alecrim, cipó caboclo, e outras ervas aromáticas, cobriam a face da terra. A onça andava na terra livremente. E o veado se alimentava das gramíneas que arrebentavam do chão de massapê. Tiago viu crianças se banhando no rio Jabeberi onde hoje é a barragem. Ali o rio guardava o passado dos Cariris-jês do sertão de Campos. Um pouco mais, na frente, onde o rio faz uma curva na direção de Tobias, estava o cemitério do povo Cariri. Dezenas de urnas de barro enterradas na margem direita do rio, outras na margem esquerda. Esses eram os Capangueiros da Jurema Vermelha. Os índios que não perdoaram o agravo do branco contra sua gente. Os Capangueiros eram os vingadores. Tiago, em sua vidência, vê uma gruta no barranco do rio, numa baixada quase coberta pelos galhos das cajazeiras. Lá estava a figura de um índio pintado com carvão e urucum. Em sua cabeça, um pequeno cocá de penas pretas e vermelhas. Em seus beiços, pequenos ossos enfiados. Em seus braços, na altura da junção do antebraço e o ombro, coteguns feitos de palhas de udicuris. Na sua mão esquerda, uma bodurna feita de pau de jucá – um dos mais duros do sertão. O guerreiro Jê entra em sintonia mental com Tiago.
- Okaru demanda contra sua terra. O chão cobra o veneno derramado. Mãe d’água chorou.
- Num estou entendendo nada! Disse Tiago apertando as garras na madeira da escopeta de dois canos.
- Okaru e Tupã contra a terra de vocês. Vão pagar pelo rio preso.
- Okaru? Rapaz, você tá doido! Tiago apertou a escopeta e ela disparou. Com o barulho, o homem volta a si.
- Geraldo!
- Sim! Seu Tiago estava a onde?
- Rapaz, num sei. Mas, eu derrubei o índio! O carcará Rei desapareceu. Os urubus voltam para a serra e a sombra da nuvem de urubus se retirou de sobre o povoado. O povo deu graças a Deus.
Tiago e seu ajudante se deram por satisfeitos. Os urubus e os carcarás sumiram do céu e da terra. A vida voltaria ao normal no Jabeberi. A morte da menina, no entanto, ficou sem explicação. Os dois servos do povo foram para o bar de seu Tonico comemorar o feito com cerveja e carne assada. Muitos moradores se juntaram a dupla de heróis.
- Todo mundo aqui sabe que Tiago gosta da terra, mas, ao ponto de arriscar a vida por nós não. Mas, e o caso da menina galega da Lagoa Real?
- Rapaz, as aves atacaram a menina, deve ser a mudança no tempo. De agora em diante a gente tem que ficar atento aos bichos. Eles podem se comportar de forma diferente. Está tudo mudado.
- Tiago é sabido. Acredito que Tiago vai ganhar de novo. A bebedeira varou o dia. A noite chegou com um friozinho típico do lugar. O Padre Arnóbio, que acompanhou o drama do povo, estava na igreja para agradecer a Deus pelo livramento.
“Meus irmãos o apocalipse está acontecendo perante nossos olhos. Precisamos nos dedicar mais a Deus”. A tônica de sua mensagem foi uma mudança de vida. As pessoas retornaram às suas casas confortadas e certas que no outro dia fariam as mesmas coisas de sempre.
Tiago estava na cama com sua mulher quando a porta de sua casa recebe pancadas apavoradas. Era o povo assustado com o que viram no romper da aurora. Eles saíram de casa para trabalhar, mas, não puderam porque o povoado estava cheio de urubus e carcarás nervosos atacando povo. O melhor a fazer era não sair. Mesmo quem tinha arma de fogo não se arriscava por que era muito bicho voando e atacando sem piedade. As aves estavam determinadas a travarem uma luta com os humanos.
- Tiago! Tiago! Tiago!
- Mulher eu não vou mais me candidatar a nada! Esse negócio de ser vereador está me tirando do sério. O que eu posso fazer? Porque eles não chamam a polícia?
- Se você não quiser tem Rozental que vai se candidatar. Diz o povo que ele será eleito. Tiago deu um pulo da cama, pegou o celular e chamou seu ajudante.
- Acorda Homem! Estamos sob ataque!
O sol se levantava preguiçosamente e quente no céu do povoado. Ninguém tirou leite, deu comida aos bichos, ou fez qualquer coisa fora de casa. Alguns valentes tentaram enfrentar as aves, mas, foram picados e voltaram correndo.
- Num dá não! É bicho muito! A gente derruba um, e logo aparecem dez diante de nós. E agora Franzé?
- O jeito é chamar por Deus!
- Mas você disse que num cria nessas coisas?
- Mas agora creio. Padre Arnóbio explicou que é o apocalipse.
- Sei.
A fé do povo aumentou. Talvez o aumento seja a quantidade de urubus e carcarás no encalço do povo. Tiago retorna a montanha do Canine.
- Onde está a carne?
- Está aqui!
- Os dois deram carne para as aves na intenção de agradá-las. Os bichos nem olharam. E havia bicho demais para tão pouca carne. As aves nem chegaram perto da carniça. O carcará Rei se aproxima da dupla. Passa o bico na galha de uma aroeira branca e pousa defronte o líder político do Jabeberi. Seus olhos amarelados estavam arregalados. Ela parecia determinada a enfrentar o valente do sertão – Tiago da serra ou do Jabeberi – verdadeiro parente de Aragão. A ave grunhia agudo, depois, passou para o grave. Os urubus alçaram voo. Naquele momento estavam no topo da serra Tiago, seu homem, e o carcará Rei. Este último parecia ler a mente dos dois homens. Diz a lenda que os índios Jê Cariri dominavam a técnica de encantar aves para que elas fizessem suas vontades. Um gavião se tornava um aliado na prática de suas magias, ou um assassino de guerreiros inimigos. A pena do carcará usada na porção mágica de água de raiz de jurema com casca de anatemba se tornava um feitiço para curar doenças letais.
- Tiago num olhe o bicho nos olhos não! Ele quer te hipnotizar!
- Num tenho medo não! Venha seu filho da peste! Tiago entrou em transe novamente.
O vereador de Tobias era agora um índio jê pintado para a guerra. O preto e o vermelho cobriam seu corpo sobrando apenas a curta tanga que cobria suas partes fracas. Ele voava montado em uma enorme ave – um carcará gigante. A distância de uma asa a outra era de três metros. O bicho voava sobre o povoado. Lá em baixo havia uma pequena vila de casas. Todas grudadas parede com parede uma a outra. As casas pareciam que pertenciam a outra época. Uma pequena igreja com um cruzeiro na frente podia ser vista do alto. Defronte a ela, uma senzala de escravos. Ao redor do povoado onde hoje são pastos, roças e fazendas estavam as malocas de índios. Os índios iam e vinham em paz. O povo da pequena vila não era hostil aos selvícolas. Os negros eram os únicos que sofriam naquele pequeno pedaço do paraíso. O carcará toma a direção da barragem. Ali havia um vale e nele o majestoso Jabeberi deitava em seu leito. Tiago viu do alto uma cerimônia fúnebre na beira do rio. As mulheres choravam e os homens também. Os pajés batiam suas maracas e fumavam cachimbo defumando o corpo do falecido. Junto ao cadáver eram enterradas ervas que, na visão deles, garantiriam o retorno à mãe Okaru. Tiago chorou de emoção quando viu a urna ser selada com lama de barro e depositada na margem enlameada do rio. O chão entijucado do Rio Jabeberi permitia a construção dos cemitérios jês. 277 urnas estavam ali. Eram seus entes queridos, suas lembranças, memória, e religião – Tudo inundado pela barragem! O carcará gigante retorna ao povoado. As pessoas estavam trancadas em casa. O povo valente do Jabeberi se rendera ao medo. Ninguém tinha coragem de enfrentar as aves enfurecidas. O carcará dá mais uma volta, agora, em voo rasante; Tiago é jogado bruscamente no meio da praça. Logo em seguida, o vereador via as pessoas saírem de suas casas. Elas passavam por ele e não o saudavam; sequer lhe dirigiam a palavra. Alguns carregavam velas acesas nas mãos. Homens, mulheres, meninos e crianças, todos iniciam uma reza; a ladainha cresce quando surgem os Caboclos da Jurema Branca e os Pretos Velhos do Cruzeiro Santo – as almas benditas. Padre Arnóbio com o terço na mão inicia um clamor a Virgem Santa e Padroeira de Campos. O Pastor da pequena e única congregação Protestante do povoado aparece com seu terno cinza de todos os dias, e se junta ao povo. Ele deixa a bicicleta no meio fio da praça para se unir à multidão orando em voz alta o Salmo 91. O religioso evangélico acreditava que Deus só olhava para os crentes protestantes. Em frente ao santuário de São José um milagre acontece perante os olhos de Tiago. O povo, suas histórias, e sua memória ressuscitam das cinzas em atitude de fé e amor. Os negros da senzala perdoaram seus antigos senhores. Um homem de pele avermelhada, bigode fino, beiços finíssimos cospe o fumo mascado na boca. Um besouro cascudo morre ao contato com a baba sinistra. Os capangueiros também perdoaram seus algozes – os fazendeiros. Mas disseram que a coisa podia tornar. Suas almas foram levadas para o espaço em um facho de luz. Os capangueiros da jurema disseram que dariam uma segunda chance ao povoado e que Okaru estava muito alegre com o arrependimento das pessoas. Dona Rubenita, uma evangélica antiga do Jabeberi, ficou tão feliz que deu uma aleluia tão forte, que seus dentes caíram na bosta do boi. A chapa encrustou-se no bolo fecal, mas, a mulher nem se incomodou, tamanha era sua alegria. O rapaz do jogo do bicho confessou publicamente que não levava as apostas do povo à casa do bicheiro. Por incrível que pareça, o Jabeberi perdoou o agravo. A menina que namorava um homem casado disse que não mais faria isso. O traficante Zaltinho decidiu parar seus negócios. Seu Zé da venda garantiu que ia mandar consertar a balança que estava, segundo ele, descalibrada. Dona Neusita prometeu, em alto e bom som, que jamais levantaria agravo contra uma pessoa – “Eu estou arrependida”. Os pardais dos pés de juás se assustaram um pouco ao ouvirem a confissão da anciã. A comoção era imensa. O chão da praça ficou encharcado de lágrimas. Tiago tenta falar com as pessoas e ninguém o ouve. As aves horrendas sumiram do céu. Um papagaio muito sabido apareceu do nada e falava com o povo. “Tá vendo? Tá vendo? É o canço!”
- Tiago! Tiago! Está vivo?
- Sim, estou!
- As aves sumiram. Vamos voltar! O barulho de foguetes estourava lá embaixo no povoado. Não havia mais perigo. As pessoas comemoravam a vitória.
“Tiago subiu a serra e o chão tremeu;
Nos pastos do Jabeberi tem cabra macho e mulher bonita.
Não adianta mexer com a menina que a espingarda grita.
Foi na mão de Tiago que o carcará padeceu”.
A popularidade de Tiago aumentou depois do problema dos urubus. A eleição veio e o homem foi eleito novamente. Quatro anos depois foi convidado para ser vice-prefeito. Sua carreira política não parou. Contudo, o povo não sabe, nunca soube, e nem saberá o que houve. Os ossos da barragem foram desenterrados e sepultados com muito respeito. Tiago foi buscar um Pajé Cariri-Xocó para fazer a cerimônia. Enquanto o índio fazia seu rito, no alto da serra, aparecia a figura de um índio observando tudo.
Os anos passaram. Rozental mudou de povoado. O pedagogo foi trabalhar em Moita Bonita. Dizem que de noite, o povo de lá vê uma mula- sem- cabeça. Será isso verdade? A pequena Sueli não crê em mulas desse tipo. Um dia ela disse: Aqui quando o povo vê urubu no céu, pede perdão a Deus pelos pecados todos. A felicidade foi tão grande que o povo esqueceu a menina morta. O povo não soube, ao certo, o que de fato ocorreu e quem pôs o cianeto.
- Seu Valdo! Vai usar o herbicida hoje?
- Sim, vou!
- Quanto?
- Umas dez sacas. O pasto é muito!
- Mas fede num é seu Valdo?
- E esse bicho é veneno até pra gente!
- A chuva depois num leva não pra dentro dos tanques seu Valdo?
- Deve levar; fazer o que? É carecido! Senão o mato sufoca a verdura. Num é compadre?
- É!
- A pois!...
O Professor Rozental estava em um pequeno povoado de Tobias Barreto chamado Jabeberi. O Jabeberi nunca cresceu. Desde sua povoação até os dias atuais ele tem quase o mesmo tamanho. Seus moradores agem do mesmo jeito e acreditam nas mesmas coisas. Eles cuidam de seus bichos e de seus filhos. Vivem seu mundo não importa o tamanho. O povo costuma descansar no final da tarde quando o sol esfria um pouco. O vento que desce a Serra do Canine traz esperanças para o povo do Jabeberi. Na verdade, é um alento no final de um dia quente e abafado.
Quando aqueles sertões foram ocupados pela etnia branca, os índios Jês invocaram os Capangueiros da jurema vermelha. Todo sabido da jurema sabe que esses Capangueiros são seres afinados com o mal – Para eles o mal é um prazer. Um feiticeiro Jê, mestre na magia da raiz da jurema, profetizou que o branco conquistaria a serra, mas, sempre teria problemas com a mãe Okaru – a natureza!
- Mãe, tá sabendo que descobriram uma tubulação secreta que despeja produtos químicos na barragem?
- Não, minha filha! Sua mãe não sabia disso. Mas, quem te disse?
- Foi o professor Rozental. Ele disse que o meio ambiente do Jabeberi está alterado.
- Que bom minha filha! Continue assim estudiosa como seu finado pai. Sueli ao ouvir sua mãe falar em seu pai, se calou, e foi para o quarto.
Sueli era uma menina de dez anos muito sabida. Ela era a menina que mais lia no quinto ano. Sabia a tabuada de cor, e podia conjugar qualquer verbo. O único que parecia para ela impossível era o verbo morrer. “Esse eu num digo não professor Rozental!”
Rozental fazia de tudo para ajudar aquelas crianças especiais. Ele não acreditava que especial fosse apenas um grupo com limitações psicomotoras. Para aquele pedagogo, todos os seres humanos eram especiais. Assim, as crianças do Jabeberi eram crianças muito especiais. Sueli era um exemplo. A casa da menina tinha os fundos voltados para Serra do Canine. De lá se podia avistar a majestosa serra que foi cenário de muitas lutas entre índios e brancos na época de Belchior Dias Moreira – O colonizador. Comenta a população do povoado que Belchior tinha casa no Jabeberi. A Vila de Campos nasceu no Jabeberi por isso muito se parece com o povo de lá.
- Mãe! Mãe! A serra está coberta de preto, e o preto se mexe!
- Deixa de besteira menina!
- Não mãe, é verdade! Dona Maria das Dores olhou para serra para ver se era verdade aquela história. Para sua surpresa, a serra estava coberta de urubus. Maria pensou que era o “tempo”. O povo da roça quando não entende uma coisa costuma dizer que é o tempo. Os urubus formavam uma cobertura preta sobre o pasto seco no alto da serra. O céu da serra estava cheio de aves negras devoradoras de bichos e homens mortos. Nunca se havia visto tanto urubu como naquele dia. O padre rezava uma missa na pequena paroquia do povoado quando seu Tonho entrou apavorado gritando bem alto. “O mundo vai acabar!” Os fiéis correram de imediato para a porta, a sombra da nuvem de urubus que cobriu o lugar, andava apressada rumo a serra. Os carcarás se juntaram aos seus parentes urubus. A serra tremia ante o peso de tanta ave.
- Mas o que é isso? Perguntou Padre Arnóbio ao seu protegido Ricardo. Este nada respondia. Somente balançava a cabeça em sinal de atenção.
- Diga alguma coisa, rapaz! Ordenou Arnóbio ao seu escudeiro.
- Eu num sei que bicho é isso não padre! O rapaz respondeu a sua santidade com voz medrosa. Ricardo era um rapaz que fora viciado no jogo e se converteu a fé católica quando o padre cantor Sebastião esteve em Tobias. O povo da igreja ficou muito alegre com o rapaz. Desde então, ele acompanha o Padre Arnóbio. Aonde ele vai, Ricardo vai atrás.
A segunda feira chegou, era dia de escola. Rozental estava no Jabeberi. A menina sabida Sueli o esperava à porta da escola.
- Professor, os urubus estavam na Serra do Canine, era uma multidão! Nunca ninguém viu tanto bicho como ontem! Próximo aos dois, um grupo de agricultores comentava a morte de alguns animais.
- Encontrei uma vaca morta no pasto. Ela estava toda picada e não era cobra não. Era mordida de bicho grande. Parece mordida de gavião. Os urubus vieram em cima e devoraram a carcaça, bem rápido.
- Os urubus invadiram minha roça e devoraram duas reses.
- A menina de Fátima foi atacada por urubus de manhã bem cedo quando ela foi ordenhar.
- Seu Jeremias teve de se esconder na malhada para se livrar dos urubus. E eram muitos, só andam em grupos. O grupo de pessoas se desfez quando o vereador Matias da Serra chegou. “Povo cheio de estória!” Pensou Matias consigo mesmo.
- Pois num é! Quem num sabe que nessa quadra do ano os urubus ficam mais agitados?
- É porque o povo do Jabeberi gosta mesmo é de conversar!
- É. Esse povo fala de tudo. Tá lembrado do enterro de dona Gemina?
- Quem num se lembra da finada! Aquela coitada!
- No dia do enterro o caixão num abriu? E o povo comentou que foi por causa da língua grande dela. Os dois saíram proseando em direção ao um Jeep dos anos 70. Matias estava indo para o Canine.
A viagem para o Canine foi rápida. A estrada da agrovila havia sido restaurada. O prefeito Nogueira Pinto atendeu ao pedido de seu colega vereador Matias. O povo do Jabeberi diz sempre: “Sem Matias num dá!” Isso parece ser verdade, pois, quando tem qualquer problema é Matias quem o enfrenta.
- Onde estão os urubus, vereador? Perguntou o encarregado.
- Rapaz, parece que sumiram! Mas, num pode. Essas aves são de fazer morada no mesmo canto por muito tempo. Deve ter realmente sido um mal entendido, coincidências digamos.
- Pois, é. O vereador falou tá falado. Concluiu o encarregado Geraldo. Ao terminar a conversa Geraldo olha, por caso, para o topo da Serra, para o lugar onde dizem que Aragão enterrou o ouro de Belchior quando foi ferido pelo povo Jê e vê a figura de um índio observando os dois de longe. “Mas, como?” Perguntou Geraldo ao seu espírito. “Índio? Deve ser alguém trajado e quer fazer gracinha”.
- Seu Matias! Olhe para cima, para o topo! Tem um índio lá!
- Índio? Perguntou o vereador caçoando de Geraldo. Deixa de ser burro rapaz! Deve ser alguém brincando! Não tem índio por essas terras há muito tempo. Meu tataravô matou foi tudo.
- Mas, num foi isso que eu disse?
- Tá! Tá! Deixa para lá! Vamos voltar, pois, cá em cima não tem nada para a gente ver, exceto, o pasto seco. Nem ovo de urubu tem!
A manhã de terça feira trouxe uma notícia muito triste para o Povoado. Logo cedo, a emissora de radio de maior audiência de Tobias Barreto anunciava a morte de uma criança branca de cabelos avermelhados e que tudo indicava ser do povoado. O repórter do povo João Sabido, acrescentou que o Jabeberi perdeu 277 cabeças de gado durante a noite. Os corpos dos bichos foram levados de caminhão para a capital sergipana.
- Vereador! E a criança?
- Foi também, homem!
- E agora? O povo vai dizer que Matias não tem solução para o caso. O amigo nem sabe como foi? Sabe?
- Cala a boca homem! Deixa-me pensar!
- Porque você num vai à favela! Dizem que lá tem uma mulher que sabe de tudo.
- Rapaz, tá doido! O povo vai me chamar de que? Bruxo, feiticeiro! Geraldo você tem mesmo a cabeça oca! Geraldo coçou a cabeça, arrastou um punhado de caspas nas unhas, levou-as ao nariz, e as cheirou. Quando ele ficava nervoso ou pensativo entrava em relação narcísica com seu corpo.
Ao meio dia o radio torna a falar. “Tantos os animais quanto a criança foram mortas por mordidas ou bicadas de urubus e carcarás. E se não tivessem morrido logo, morreriam de todo jeito, pois, foi encontrado nos corpos alto teor de cianeto – um poderoso veneno”. A cidade de Tobias entrou em pânico. Certamente havia alguém envenenando bicho e gente. O suspeito segundo Matias era a estranha pessoa do alto da serra. Mas, Quem era ele ou ela?
- Geraldo! Vá pegar o Jeep! Precisamos subir novamente a serra. Matias tomou uma dose de pinga, no balcão do bar do Saraiva, que fica quase em frente à Rodoviária Velha. Em alguns minutos, o encarregado Geraldo chega com o Jeep.
Os dois rumaram na direção do povoado Jabeberi. A estrada estava nivelada, pois, a máquina de terraplanagem foi usada para dar um novo aspecto. No sertão, no ano de eleição, aparece de tudo, até estrada boa, mesmo sendo de barro massapê. No caminho, nos dois lados da rodagem, uma coisa estranha chamou a atenção dos dois heróis de Tobias. Carcarás estavam pousados nos paus das cercas desde a granja até a caixa d’água do Jabiberi. Parecia que os bichos sabiam o que estavam fazendo. Um carcará Rei levantou voo e rodou sobre o Jeep; fez dois rasantes e depois saiu em direção a serra.
- Você viu chefe?
- Que chefe rapaz! Tenho cara de índio, ou de mafioso?
- Não! Eu estava só brincando patrão!
- Então dirija! Pois, a coisa tá ficando cada vez mais estranha. Nunca vi um carcará fazer isso! Nós não somos carniça para ele fazer um rasante desses. Faz quanto tempo que você não toma banho Geraldo?
- Olha pra ele! O patrão tá achando que o bicho veio por causa de mim! Geraldo parou o carro na praça logo na entrada do povoado. A igreja estava cheia de fiéis implorando a São José para interceder pelo povoado, pois, nunca se vira tamanha coisa. As aves haviam, realmente, assustado o povo do Jabeberi.
As nuvens ficaram cinzentas sobre a serra e o povoado. Trovões rimbombaram. As mulheres e crianças correram para suas casas para desligarem os aparelhos e cobrir os espelhos. Segundo a crença espelho atrai o raio. “Sueli cubra minha filha o espelho perto da televisão!” A menina cobriu o espelho. Ao virar-se para a porta viu a silhueta de um índio em pé na porta olhando para ela. Foi muito rápido, tão Rápido quanto o clarão do raio. A chuva ameaça cair, mas, nenhuma gota descia do céu. As aves se agrupavam formando um grande exército no topo do Canine. Um grupo de senhoras e velhos, e moças de casa permaneceram com o pároco na capela do povoado, os demais se enfiaram em suas casas.
- Matias, o povo está com medo. Eu não tenho medo não. Deve haver uma explicação.
- Rapaz, se você não está com medo, então, você é macho mesmo. A vontade que eu tenho é de me abrigar. Matias apontou para serra. As aves negras e os carcarás estavam mais agressivos. O barulho que faziam dava medo.
- Então vamos para a paroquia?
- Não amigo, vamos pegar as armas. Os dois entraram em casa. Alguns minutos depois saíram em direção a serra novamente.
As aves estavam agitadas no alto da Serra do Canine. Os urubus voavam pairando no céu como que aguardassem uma convocação. Os carcarás formavam um grupo grande numa árvore no alto de um pequeno monte elevado. O carcará Rei estava no meio dos bichos. Tiago e Geraldo chegaram no momento em que o carcará Rei falava com seu exército. A ave emitia grunhidos, às vezes, grave, às vezes, agudo. A esse comando elas reagiam. Os grunhidos eram tantos que deixaram Tiago irritado. Ele apontou sua escopeta para cima e atirou. As aves se assustaram e fugiram. No entanto o gavião Rei permaneceu no mesmo lugar. A ave Rei do sertão de Tobias encarou Tiago olhando-o dentro dos olhos. Naquele instante, o vereador Tiago do Jabeberi entrou em estado de transe. O rapaz se vê voando por uma floresta de juazeiros e juás, macambiras, jenipapos, umbuzeiros, paus-ferros, mandacarus, juremas brancas e vermelhas, jenipapeiros, muricizeiros, pés de udicuris, e outras árvores que povoam os sertões do nordeste. Uma imburana hospedava muitos gaviões na visão de Tiago. Os riachos estavam cheios, o mato verde. A vida desabrochava da terra. Em lugar de pastos, campos de alecrim, cipó caboclo, e outras ervas aromáticas, cobriam a face da terra. A onça andava na terra livremente. E o veado se alimentava das gramíneas que arrebentavam do chão de massapê. Tiago viu crianças se banhando no rio Jabeberi onde hoje é a barragem. Ali o rio guardava o passado dos Cariris-jês do sertão de Campos. Um pouco mais, na frente, onde o rio faz uma curva na direção de Tobias, estava o cemitério do povo Cariri. Dezenas de urnas de barro enterradas na margem direita do rio, outras na margem esquerda. Esses eram os Capangueiros da Jurema Vermelha. Os índios que não perdoaram o agravo do branco contra sua gente. Os Capangueiros eram os vingadores. Tiago, em sua vidência, vê uma gruta no barranco do rio, numa baixada quase coberta pelos galhos das cajazeiras. Lá estava a figura de um índio pintado com carvão e urucum. Em sua cabeça, um pequeno cocá de penas pretas e vermelhas. Em seus beiços, pequenos ossos enfiados. Em seus braços, na altura da junção do antebraço e o ombro, coteguns feitos de palhas de udicuris. Na sua mão esquerda, uma bodurna feita de pau de jucá – um dos mais duros do sertão. O guerreiro Jê entra em sintonia mental com Tiago.
- Okaru demanda contra sua terra. O chão cobra o veneno derramado. Mãe d’água chorou.
- Num estou entendendo nada! Disse Tiago apertando as garras na madeira da escopeta de dois canos.
- Okaru e Tupã contra a terra de vocês. Vão pagar pelo rio preso.
- Okaru? Rapaz, você tá doido! Tiago apertou a escopeta e ela disparou. Com o barulho, o homem volta a si.
- Geraldo!
- Sim! Seu Tiago estava a onde?
- Rapaz, num sei. Mas, eu derrubei o índio! O carcará Rei desapareceu. Os urubus voltam para a serra e a sombra da nuvem de urubus se retirou de sobre o povoado. O povo deu graças a Deus.
Tiago e seu ajudante se deram por satisfeitos. Os urubus e os carcarás sumiram do céu e da terra. A vida voltaria ao normal no Jabeberi. A morte da menina, no entanto, ficou sem explicação. Os dois servos do povo foram para o bar de seu Tonico comemorar o feito com cerveja e carne assada. Muitos moradores se juntaram a dupla de heróis.
- Todo mundo aqui sabe que Tiago gosta da terra, mas, ao ponto de arriscar a vida por nós não. Mas, e o caso da menina galega da Lagoa Real?
- Rapaz, as aves atacaram a menina, deve ser a mudança no tempo. De agora em diante a gente tem que ficar atento aos bichos. Eles podem se comportar de forma diferente. Está tudo mudado.
- Tiago é sabido. Acredito que Tiago vai ganhar de novo. A bebedeira varou o dia. A noite chegou com um friozinho típico do lugar. O Padre Arnóbio, que acompanhou o drama do povo, estava na igreja para agradecer a Deus pelo livramento.
“Meus irmãos o apocalipse está acontecendo perante nossos olhos. Precisamos nos dedicar mais a Deus”. A tônica de sua mensagem foi uma mudança de vida. As pessoas retornaram às suas casas confortadas e certas que no outro dia fariam as mesmas coisas de sempre.
Tiago estava na cama com sua mulher quando a porta de sua casa recebe pancadas apavoradas. Era o povo assustado com o que viram no romper da aurora. Eles saíram de casa para trabalhar, mas, não puderam porque o povoado estava cheio de urubus e carcarás nervosos atacando povo. O melhor a fazer era não sair. Mesmo quem tinha arma de fogo não se arriscava por que era muito bicho voando e atacando sem piedade. As aves estavam determinadas a travarem uma luta com os humanos.
- Tiago! Tiago! Tiago!
- Mulher eu não vou mais me candidatar a nada! Esse negócio de ser vereador está me tirando do sério. O que eu posso fazer? Porque eles não chamam a polícia?
- Se você não quiser tem Rozental que vai se candidatar. Diz o povo que ele será eleito. Tiago deu um pulo da cama, pegou o celular e chamou seu ajudante.
- Acorda Homem! Estamos sob ataque!
O sol se levantava preguiçosamente e quente no céu do povoado. Ninguém tirou leite, deu comida aos bichos, ou fez qualquer coisa fora de casa. Alguns valentes tentaram enfrentar as aves, mas, foram picados e voltaram correndo.
- Num dá não! É bicho muito! A gente derruba um, e logo aparecem dez diante de nós. E agora Franzé?
- O jeito é chamar por Deus!
- Mas você disse que num cria nessas coisas?
- Mas agora creio. Padre Arnóbio explicou que é o apocalipse.
- Sei.
A fé do povo aumentou. Talvez o aumento seja a quantidade de urubus e carcarás no encalço do povo. Tiago retorna a montanha do Canine.
- Onde está a carne?
- Está aqui!
- Os dois deram carne para as aves na intenção de agradá-las. Os bichos nem olharam. E havia bicho demais para tão pouca carne. As aves nem chegaram perto da carniça. O carcará Rei se aproxima da dupla. Passa o bico na galha de uma aroeira branca e pousa defronte o líder político do Jabeberi. Seus olhos amarelados estavam arregalados. Ela parecia determinada a enfrentar o valente do sertão – Tiago da serra ou do Jabeberi – verdadeiro parente de Aragão. A ave grunhia agudo, depois, passou para o grave. Os urubus alçaram voo. Naquele momento estavam no topo da serra Tiago, seu homem, e o carcará Rei. Este último parecia ler a mente dos dois homens. Diz a lenda que os índios Jê Cariri dominavam a técnica de encantar aves para que elas fizessem suas vontades. Um gavião se tornava um aliado na prática de suas magias, ou um assassino de guerreiros inimigos. A pena do carcará usada na porção mágica de água de raiz de jurema com casca de anatemba se tornava um feitiço para curar doenças letais.
- Tiago num olhe o bicho nos olhos não! Ele quer te hipnotizar!
- Num tenho medo não! Venha seu filho da peste! Tiago entrou em transe novamente.
O vereador de Tobias era agora um índio jê pintado para a guerra. O preto e o vermelho cobriam seu corpo sobrando apenas a curta tanga que cobria suas partes fracas. Ele voava montado em uma enorme ave – um carcará gigante. A distância de uma asa a outra era de três metros. O bicho voava sobre o povoado. Lá em baixo havia uma pequena vila de casas. Todas grudadas parede com parede uma a outra. As casas pareciam que pertenciam a outra época. Uma pequena igreja com um cruzeiro na frente podia ser vista do alto. Defronte a ela, uma senzala de escravos. Ao redor do povoado onde hoje são pastos, roças e fazendas estavam as malocas de índios. Os índios iam e vinham em paz. O povo da pequena vila não era hostil aos selvícolas. Os negros eram os únicos que sofriam naquele pequeno pedaço do paraíso. O carcará toma a direção da barragem. Ali havia um vale e nele o majestoso Jabeberi deitava em seu leito. Tiago viu do alto uma cerimônia fúnebre na beira do rio. As mulheres choravam e os homens também. Os pajés batiam suas maracas e fumavam cachimbo defumando o corpo do falecido. Junto ao cadáver eram enterradas ervas que, na visão deles, garantiriam o retorno à mãe Okaru. Tiago chorou de emoção quando viu a urna ser selada com lama de barro e depositada na margem enlameada do rio. O chão entijucado do Rio Jabeberi permitia a construção dos cemitérios jês. 277 urnas estavam ali. Eram seus entes queridos, suas lembranças, memória, e religião – Tudo inundado pela barragem! O carcará gigante retorna ao povoado. As pessoas estavam trancadas em casa. O povo valente do Jabeberi se rendera ao medo. Ninguém tinha coragem de enfrentar as aves enfurecidas. O carcará dá mais uma volta, agora, em voo rasante; Tiago é jogado bruscamente no meio da praça. Logo em seguida, o vereador via as pessoas saírem de suas casas. Elas passavam por ele e não o saudavam; sequer lhe dirigiam a palavra. Alguns carregavam velas acesas nas mãos. Homens, mulheres, meninos e crianças, todos iniciam uma reza; a ladainha cresce quando surgem os Caboclos da Jurema Branca e os Pretos Velhos do Cruzeiro Santo – as almas benditas. Padre Arnóbio com o terço na mão inicia um clamor a Virgem Santa e Padroeira de Campos. O Pastor da pequena e única congregação Protestante do povoado aparece com seu terno cinza de todos os dias, e se junta ao povo. Ele deixa a bicicleta no meio fio da praça para se unir à multidão orando em voz alta o Salmo 91. O religioso evangélico acreditava que Deus só olhava para os crentes protestantes. Em frente ao santuário de São José um milagre acontece perante os olhos de Tiago. O povo, suas histórias, e sua memória ressuscitam das cinzas em atitude de fé e amor. Os negros da senzala perdoaram seus antigos senhores. Um homem de pele avermelhada, bigode fino, beiços finíssimos cospe o fumo mascado na boca. Um besouro cascudo morre ao contato com a baba sinistra. Os capangueiros também perdoaram seus algozes – os fazendeiros. Mas disseram que a coisa podia tornar. Suas almas foram levadas para o espaço em um facho de luz. Os capangueiros da jurema disseram que dariam uma segunda chance ao povoado e que Okaru estava muito alegre com o arrependimento das pessoas. Dona Rubenita, uma evangélica antiga do Jabeberi, ficou tão feliz que deu uma aleluia tão forte, que seus dentes caíram na bosta do boi. A chapa encrustou-se no bolo fecal, mas, a mulher nem se incomodou, tamanha era sua alegria. O rapaz do jogo do bicho confessou publicamente que não levava as apostas do povo à casa do bicheiro. Por incrível que pareça, o Jabeberi perdoou o agravo. A menina que namorava um homem casado disse que não mais faria isso. O traficante Zaltinho decidiu parar seus negócios. Seu Zé da venda garantiu que ia mandar consertar a balança que estava, segundo ele, descalibrada. Dona Neusita prometeu, em alto e bom som, que jamais levantaria agravo contra uma pessoa – “Eu estou arrependida”. Os pardais dos pés de juás se assustaram um pouco ao ouvirem a confissão da anciã. A comoção era imensa. O chão da praça ficou encharcado de lágrimas. Tiago tenta falar com as pessoas e ninguém o ouve. As aves horrendas sumiram do céu. Um papagaio muito sabido apareceu do nada e falava com o povo. “Tá vendo? Tá vendo? É o canço!”
- Tiago! Tiago! Está vivo?
- Sim, estou!
- As aves sumiram. Vamos voltar! O barulho de foguetes estourava lá embaixo no povoado. Não havia mais perigo. As pessoas comemoravam a vitória.
“Tiago subiu a serra e o chão tremeu;
Nos pastos do Jabeberi tem cabra macho e mulher bonita.
Não adianta mexer com a menina que a espingarda grita.
Foi na mão de Tiago que o carcará padeceu”.
A popularidade de Tiago aumentou depois do problema dos urubus. A eleição veio e o homem foi eleito novamente. Quatro anos depois foi convidado para ser vice-prefeito. Sua carreira política não parou. Contudo, o povo não sabe, nunca soube, e nem saberá o que houve. Os ossos da barragem foram desenterrados e sepultados com muito respeito. Tiago foi buscar um Pajé Cariri-Xocó para fazer a cerimônia. Enquanto o índio fazia seu rito, no alto da serra, aparecia a figura de um índio observando tudo.
Os anos passaram. Rozental mudou de povoado. O pedagogo foi trabalhar em Moita Bonita. Dizem que de noite, o povo de lá vê uma mula- sem- cabeça. Será isso verdade? A pequena Sueli não crê em mulas desse tipo. Um dia ela disse: Aqui quando o povo vê urubu no céu, pede perdão a Deus pelos pecados todos. A felicidade foi tão grande que o povo esqueceu a menina morta. O povo não soube, ao certo, o que de fato ocorreu e quem pôs o cianeto.
- Seu Valdo! Vai usar o herbicida hoje?
- Sim, vou!
- Quanto?
- Umas dez sacas. O pasto é muito!
- Mas fede num é seu Valdo?
- E esse bicho é veneno até pra gente!
- A chuva depois num leva não pra dentro dos tanques seu Valdo?
- Deve levar; fazer o que? É carecido! Senão o mato sufoca a verdura. Num é compadre?
- É!
- A pois!...
sexta-feira, 11 de novembro de 2016
A BELA DONA DA PRAÇA
Certo dia eu estava na Praça Fausto Cardoso como era de costume. Eram nove horas da manhã e o sol implacável estava como naqueles dias, dias quentes de Sergipe Del Rei. A praça estava decorada com bandeirolas juninas; era época de São João. Muitos que passavam carregavam o espírito junino. Sempre gostei da nostalgia da Praça Fausto Cardoso. É um local onde as pessoas se encontram, contudo, as pessoas se perdem no anonimato das cidades grandes, são como águas engolidas pelos seus bueiros. Ás vezes alguns homens de idade se reúnem com sua sabedoria. Falam de tudo e sobre tudo. Outros passam por ela sem sentir sua história. Mas naquele dia minha atenção voltou-se para alguém que se sentou em um de seus bancos como eu havia feito. É certo que não temos mais a tranqüilidade de outrora, as coisas mudaram muito ao longo dos anos; a praça é a mesma, mas os personagens são outros. Pela noite adentro, varando a madrugada aparecem fantasmas, vampiros, vaga-lumes que fazem do local trajeto de suas caminhadas.
Bem, como dizia, era manhã; era um dia de sexta-feira. Alguns engraxates faziam seu trabalho. Muita gente bonita passava e nem notava minha humilde presença no lugar. Os pardais faziam uma festa com os restos de comida dos seres humanos que apreciavam estar ali. A razão; não sei se era igual a minha; cada cabeça tem seu mundo, portanto, sua praça. Disse eu para mim mesmo observando as aves: “Elas nunca voam para muito longe de seus ninhos”. Naquela manhã os deuses conspiraram contra mim, pois já cansado de meus dias, vi com meus olhos velhos e turvos de tanto enxergar as coisas, uma mulher de meia idade, muito bonita, na verdade, uma bela dona sentar-se a três bancos distantes do meu. Seu vestido era belíssimo, um tecido de gente rica, todo decorado de rosas de cima a abaixo, era como se fosse uma peça só trabalhada por mãos de artista. Seu perfume me encheu o peito de saudades do meu povo, o povo de minha mãe África. As silhuetas de seu corpo apareceram quando ela sentou-se e cruzou as pernas delicadamente como uma princesa, uma solitária princesa na Praça Fausto Cardoso. Seus olhos grandes e castanhos claros faziam com seus cabelos da mesma cor uma harmonia estética que bem caracteriza a beleza da mulher sergipana. Nunca me esqueci daquela boca vermelha que falava sozinha como que estivesse irritada por alguma coisa. Fiquei quieto para ela não me ver. E não me viu mesmo. Devo admitir sua presença arrebatava o coração de qualquer um. Todos que passavam a olhavam, uns diziam baixinho “gostosa”, outros mais tímidos, contendo-se em si mesmo, nada diziam. Mas, afinal, o que ela fazia ali? O mesmo que eu? Certo que não. Como eu não tinha nada para fazer, entendi ser melhor passar mais tempo na velha praça que me faz recordar muitas estórias e histórias do passado. A mulher movia seus lábios enraivecida:
– Seu filho da mãe, nunca cumpre o que promete. Se ao menos ele chegasse aqui e dissesse a verdade. Os homens são todos iguais.
Havia no chão em um buraquinho no ladrilho da praça um ninho de escorpiões. Eles se abraçaram uns aos outros antes de saírem em busca de alimentos.
– Cretino! Safado! Oh, meu Deus, mas, eu gosto dele. Disse a pobre dama com lágrimas nos olhos. Frederico, seu filho da mãe, apareça! Falou ela com um tom um tanto mais alto.
Os escorpiões se alimentam de tudo. São sobreviventes. A praça era um lugar de fartura para eles. Seus exércitos estavam por todo lugar.
– Frederico, por que você não me disse antes, por que, seu cretino. Bradou a moça com muita força dessa vez.
As horas avançavam e ela nem percebeu, já estava perto das dez horas. Então vi algo mudar no seu semblante. Seu rosto estava brilhando, embelezando ainda mais as suas linhas, e um sorriso surgiu do nada.
– Frederico, até que fim! Disse a moça ao ver o seu amor chegar.
– Tive problemas para sair. Você sabe, a escola está fechada, não tinha um álibi. Desculpa-se Frederico como pode.
– Sei. Disse a dona bonita com ar de decepção.
– Não será assim para sempre, não se preocupe. Continuou Frederico.
Ela respirou profundamente e pegou-lhe a mão e ele a deixou acariciá-la.
– Sabe Frederico, eu não nasci para ser a segunda.
– Entendo. Disse o rapaz.
– Não suportaria esta situação por muito tempo. Você me enganou e me feriu. Mesmo sem divórcio no Brasil, quero uma solução. Você me ama? Então vamos morar juntos.
– Mas, meu bem, não é assim tão fácil. Argumentou o moço.
– Como não Frederico? Você diz que ama e me quer; isso não basta?
– E as crianças? O que fazer? Ela não vai me deixar ver meus filhos. Você não entende o coração de um pai. Argumentou novamente o rapaz.
– Isso é desculpa de cabra safado. Replicou a bela dona muito zangada.
A moça continuou e gritava tão alto que os pardais se assustaram e voaram para o cume das árvores.
– Eu não quero ser puta! Eu não quero ser puta!
Os escorpiões estavam por toda a praça e sempre estavam unidos. Eram laboriosas no que faziam aquelas criaturas horrendas, mas de muita sabedoria. O divino mestre criou tudo para uma finalidade na terra. Será que estou enganado?
– Olha querida, nunca te prometi nada, portanto, devo dizer que continuo sem prometer. A situação vai ficar como estar.
– Seu filho da mãe. Tu és um canalha, um safado. Saia da minha frente. Desapareça da minha vida. Disse a bela dona com dor cortante em seu peito; um pedaço de si estava sendo arrancado sem piedade.
Frederico se foi deixando sua amante em prantos. O moço nem olhou para trás. A Praça Fausto Cardoso é assim. Ocorre de tudo por lá. Na verdade a vida passa por lá.
Eram onze horas quando isso aconteceu. Todos os moradores improvisados da praça vêem coisas que lhes fazem, por vezes, mais humanos, ou lhes endurecem o coração como o chão da mesma. A moça permaneceu sentada por um instante. Calada ficou como se não acreditasse naquele fim tão frio para um amor tão quente.
“Os escorpiões atacam quando se sentem ameaçados. Caso contrário, eles nem ligam para tua existência”. Pensei eu. A praça sempre teve mendigos. E eles são muitos em todas as épocas do ano, haja festa ou não, eles estão lá. O meio dia se aproximava e certamente a barriga de muita gente sentia a agonia da fome. Uma criança vestida em trapos com o rosto sujo e aquele fedor de falta de banho aproxima-se da mulher e diz:
– Dona Maria me dá um dinheiro para eu comer!
– Perdoe, não tenho nada. Respondeu a bela dona sem prestar atenção.
– Dona Maria me dá um dinheiro para eu e meus irmãos comermos!
– Perdoe-me meu filho, não tenho trocados. Disse ela novamente.
Os olhos da criança fitaram os da mulher como que implorasse por misericórdia. A dona da praça sentiu-se perturbada.
-Por que me olhas? Toma teu rumo: Disse a mulher.
Os escorpiões lutam entre si, contudo, não se separam e dividem bem a comida.
-Saia moleque! Deixe-me em paz!
A criança sentiu a tristeza da mulher. Lembrou-se de quando sua mãe era viva, do pouco do tempo que passaram juntos.
Safira era uma mulher de bem embora tivesse feito vida. Tudo que ganhava dava para os filhos, até que um dos seus clientes por causa da bebida a espancou até a morte. Desde então Gil vive na rua com seus dois irmãos.
-Por que você está chorando? Perguntou Gil. A criança viu a mulher bonita, bem vestida, por certo, tinha dinheiro. Então porque tanta tristeza?
-Não estou chorando. Se manda menino, você está fedendo!
-Eu? Eu não. Respondeu Gil. A moça está chorando por causa do homem que falou com você.
-Não se meta! Já disse, por favor, vá embora!
-Me dê uma esmola pelo amor de Deus. Estou com fome, disse Gil novamente.
-Está bem, tome! A dona abriu uma carteira de couro puro e tirou uma cédula de cinqüenta cruzeiros.
-Obrigado, Deus te abençoe, disse Gil.
A criança se foi. Juntou-se aos seus e comeram aquele dia. O resto deixado em um canto da praça chamou a atenção dos escorpiões. Eles gostam de resto de coisas. A humanidade cria seus bichos, não é verdade?
A bela dona da praça levantou-se e caminha em direção ao seu carro estacionado defronte ao tribunal de justiça. No percurso ela se depara com as três crianças que estavam com as mãos e bocas meladas de comida recente. Gil o mais levado disse:
-Oi moça, obrigado, você matou minha fome.
A mulher colocou as três crianças em seu carro e as levou para casa. A casa da dona da praça era muito espaçosa e toda decorada à moda antiga. Móveis coloniais e retratos de parentes por todo o lado. Gil e Tomé ficaram em um quarto, Margarida em outro. Desde aquele dia na praça a mulher nunca mais chorou. Casou-se com um advogado que legalizou a situação das crianças. Estas cresceram, Gil foi trabalhar na Caixa Econômica, Margarida casou-se e foi morar com seu marido que era pediatra. E Tomé, ah, esse foi bem curioso, tornou-se um Babalaô. Os escorpiões continuaram na praça como sempre. E muitos anos passarão até que alguém seja picado e diga: “Tem escorpiões aqui”.
Bem, como dizia, era manhã; era um dia de sexta-feira. Alguns engraxates faziam seu trabalho. Muita gente bonita passava e nem notava minha humilde presença no lugar. Os pardais faziam uma festa com os restos de comida dos seres humanos que apreciavam estar ali. A razão; não sei se era igual a minha; cada cabeça tem seu mundo, portanto, sua praça. Disse eu para mim mesmo observando as aves: “Elas nunca voam para muito longe de seus ninhos”. Naquela manhã os deuses conspiraram contra mim, pois já cansado de meus dias, vi com meus olhos velhos e turvos de tanto enxergar as coisas, uma mulher de meia idade, muito bonita, na verdade, uma bela dona sentar-se a três bancos distantes do meu. Seu vestido era belíssimo, um tecido de gente rica, todo decorado de rosas de cima a abaixo, era como se fosse uma peça só trabalhada por mãos de artista. Seu perfume me encheu o peito de saudades do meu povo, o povo de minha mãe África. As silhuetas de seu corpo apareceram quando ela sentou-se e cruzou as pernas delicadamente como uma princesa, uma solitária princesa na Praça Fausto Cardoso. Seus olhos grandes e castanhos claros faziam com seus cabelos da mesma cor uma harmonia estética que bem caracteriza a beleza da mulher sergipana. Nunca me esqueci daquela boca vermelha que falava sozinha como que estivesse irritada por alguma coisa. Fiquei quieto para ela não me ver. E não me viu mesmo. Devo admitir sua presença arrebatava o coração de qualquer um. Todos que passavam a olhavam, uns diziam baixinho “gostosa”, outros mais tímidos, contendo-se em si mesmo, nada diziam. Mas, afinal, o que ela fazia ali? O mesmo que eu? Certo que não. Como eu não tinha nada para fazer, entendi ser melhor passar mais tempo na velha praça que me faz recordar muitas estórias e histórias do passado. A mulher movia seus lábios enraivecida:
– Seu filho da mãe, nunca cumpre o que promete. Se ao menos ele chegasse aqui e dissesse a verdade. Os homens são todos iguais.
Havia no chão em um buraquinho no ladrilho da praça um ninho de escorpiões. Eles se abraçaram uns aos outros antes de saírem em busca de alimentos.
– Cretino! Safado! Oh, meu Deus, mas, eu gosto dele. Disse a pobre dama com lágrimas nos olhos. Frederico, seu filho da mãe, apareça! Falou ela com um tom um tanto mais alto.
Os escorpiões se alimentam de tudo. São sobreviventes. A praça era um lugar de fartura para eles. Seus exércitos estavam por todo lugar.
– Frederico, por que você não me disse antes, por que, seu cretino. Bradou a moça com muita força dessa vez.
As horas avançavam e ela nem percebeu, já estava perto das dez horas. Então vi algo mudar no seu semblante. Seu rosto estava brilhando, embelezando ainda mais as suas linhas, e um sorriso surgiu do nada.
– Frederico, até que fim! Disse a moça ao ver o seu amor chegar.
– Tive problemas para sair. Você sabe, a escola está fechada, não tinha um álibi. Desculpa-se Frederico como pode.
– Sei. Disse a dona bonita com ar de decepção.
– Não será assim para sempre, não se preocupe. Continuou Frederico.
Ela respirou profundamente e pegou-lhe a mão e ele a deixou acariciá-la.
– Sabe Frederico, eu não nasci para ser a segunda.
– Entendo. Disse o rapaz.
– Não suportaria esta situação por muito tempo. Você me enganou e me feriu. Mesmo sem divórcio no Brasil, quero uma solução. Você me ama? Então vamos morar juntos.
– Mas, meu bem, não é assim tão fácil. Argumentou o moço.
– Como não Frederico? Você diz que ama e me quer; isso não basta?
– E as crianças? O que fazer? Ela não vai me deixar ver meus filhos. Você não entende o coração de um pai. Argumentou novamente o rapaz.
– Isso é desculpa de cabra safado. Replicou a bela dona muito zangada.
A moça continuou e gritava tão alto que os pardais se assustaram e voaram para o cume das árvores.
– Eu não quero ser puta! Eu não quero ser puta!
Os escorpiões estavam por toda a praça e sempre estavam unidos. Eram laboriosas no que faziam aquelas criaturas horrendas, mas de muita sabedoria. O divino mestre criou tudo para uma finalidade na terra. Será que estou enganado?
– Olha querida, nunca te prometi nada, portanto, devo dizer que continuo sem prometer. A situação vai ficar como estar.
– Seu filho da mãe. Tu és um canalha, um safado. Saia da minha frente. Desapareça da minha vida. Disse a bela dona com dor cortante em seu peito; um pedaço de si estava sendo arrancado sem piedade.
Frederico se foi deixando sua amante em prantos. O moço nem olhou para trás. A Praça Fausto Cardoso é assim. Ocorre de tudo por lá. Na verdade a vida passa por lá.
Eram onze horas quando isso aconteceu. Todos os moradores improvisados da praça vêem coisas que lhes fazem, por vezes, mais humanos, ou lhes endurecem o coração como o chão da mesma. A moça permaneceu sentada por um instante. Calada ficou como se não acreditasse naquele fim tão frio para um amor tão quente.
“Os escorpiões atacam quando se sentem ameaçados. Caso contrário, eles nem ligam para tua existência”. Pensei eu. A praça sempre teve mendigos. E eles são muitos em todas as épocas do ano, haja festa ou não, eles estão lá. O meio dia se aproximava e certamente a barriga de muita gente sentia a agonia da fome. Uma criança vestida em trapos com o rosto sujo e aquele fedor de falta de banho aproxima-se da mulher e diz:
– Dona Maria me dá um dinheiro para eu comer!
– Perdoe, não tenho nada. Respondeu a bela dona sem prestar atenção.
– Dona Maria me dá um dinheiro para eu e meus irmãos comermos!
– Perdoe-me meu filho, não tenho trocados. Disse ela novamente.
Os olhos da criança fitaram os da mulher como que implorasse por misericórdia. A dona da praça sentiu-se perturbada.
-Por que me olhas? Toma teu rumo: Disse a mulher.
Os escorpiões lutam entre si, contudo, não se separam e dividem bem a comida.
-Saia moleque! Deixe-me em paz!
A criança sentiu a tristeza da mulher. Lembrou-se de quando sua mãe era viva, do pouco do tempo que passaram juntos.
Safira era uma mulher de bem embora tivesse feito vida. Tudo que ganhava dava para os filhos, até que um dos seus clientes por causa da bebida a espancou até a morte. Desde então Gil vive na rua com seus dois irmãos.
-Por que você está chorando? Perguntou Gil. A criança viu a mulher bonita, bem vestida, por certo, tinha dinheiro. Então porque tanta tristeza?
-Não estou chorando. Se manda menino, você está fedendo!
-Eu? Eu não. Respondeu Gil. A moça está chorando por causa do homem que falou com você.
-Não se meta! Já disse, por favor, vá embora!
-Me dê uma esmola pelo amor de Deus. Estou com fome, disse Gil novamente.
-Está bem, tome! A dona abriu uma carteira de couro puro e tirou uma cédula de cinqüenta cruzeiros.
-Obrigado, Deus te abençoe, disse Gil.
A criança se foi. Juntou-se aos seus e comeram aquele dia. O resto deixado em um canto da praça chamou a atenção dos escorpiões. Eles gostam de resto de coisas. A humanidade cria seus bichos, não é verdade?
A bela dona da praça levantou-se e caminha em direção ao seu carro estacionado defronte ao tribunal de justiça. No percurso ela se depara com as três crianças que estavam com as mãos e bocas meladas de comida recente. Gil o mais levado disse:
-Oi moça, obrigado, você matou minha fome.
A mulher colocou as três crianças em seu carro e as levou para casa. A casa da dona da praça era muito espaçosa e toda decorada à moda antiga. Móveis coloniais e retratos de parentes por todo o lado. Gil e Tomé ficaram em um quarto, Margarida em outro. Desde aquele dia na praça a mulher nunca mais chorou. Casou-se com um advogado que legalizou a situação das crianças. Estas cresceram, Gil foi trabalhar na Caixa Econômica, Margarida casou-se e foi morar com seu marido que era pediatra. E Tomé, ah, esse foi bem curioso, tornou-se um Babalaô. Os escorpiões continuaram na praça como sempre. E muitos anos passarão até que alguém seja picado e diga: “Tem escorpiões aqui”.
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